mardi 18 avril 2023

Madrid, 1988


 

 

O coração disparou. Ela sentou-se ao seu lado no vagão. Seus olhares tinham se cruzado denovo um pouco antes por sobre a aglomeração. Ao empurrar a porta de vidro da estação, ele se assustara com a própria magreza. Dois homens conversavam alto na fila.

— Yo te digo, cuando el balon viene de un jugador contrário no puede ser off-side.

— Naturalmente. Este árbitro es un retardado mental o es ciego.

— Eso o algo peor. ¡Oye, no me empujes!

— Perdoname senor, ha sido sin querer

— Ni sin querer ni nada! tenga más cuidado!

— No digas "Perdoname" - disse a moça logo atrás, rindo.    — Di "lo siento".

— Deja! — disse o homem do off-side. — el es un portugues, o peor; un brasileño!

— Brasileño? no eres bienvenido y si tienes tanta prisa corre a coger un taxi.


O vagão rangeu e um soco inclinou os passageiros. O braço macio o pressionava enquanto a mulher lia sem cerimônia as anotações em seu caderno. Ela se ajeitou como que para passar muito tempo ali sentada mas logo se levantou e parou o trem. As portas se abriram e ele a seguiu.

—Hablas espanol? — disse ela. 

— Apenas hablo

— Apenas hablas espanol?

— Apenas hablo. Hablo poco en cualquier idioma. 

— Las escaleras de la plaza de espanha me dan vertige      — disse a moça quando se aproximava da saida.

Não será imediatamente. Levará um tempo até que tenha consciência do quanto estava perdido e o quanto sem rumo. Do dano que uma mulher pode causar a um homem perdido e sem rumo que causa danos a si mesmo.




Tinham passado por um palco montado na Plaza Mayor para a festa de San Isidro. Numa ruela de pedestres, passaram por uma banca onde estavam expostos long-plays dentro de dois caixotes. O sol atravessava a Calle de San Martin.  Fumaça nas ruas, cheiro de cigarro. No burburinho distingue-se a ave-maria, num sax, um violão desafinado, um tilintar de copos e o arrulhar de pombas. Dizem que o verão deve ser mais quente do que o normal. Sobre o pedaço de trilho cortado e chumbado na calçada, a menina de tranças ria para o pai.  Madrid parece um lugar seguro para se morar. As varandinhas com guarda-corpo mais claro eram do apartamento para onde iam. 

Entraram no prédio.

Era o terceiro apartamento interno, à esquerda.  

A moça tinha simplificado a identificação: colocara seu nome em caligrafia grosseira numa fita na caixa de correio.

  "Soy yo", disse ela. Oleana. O velho elevador estava parado, embora os cabos balançassem. Não havia número na porta. Subiram, ele um degrau atrás. Ela girou a chave e abriu a porta no mesmo movimento; tocou o interruptor. 

— Esta es mi casa. This is my place. 

— Ahora me senti como si estuviera en una película subtitulada

—¿Una película erótica?

No pequeno hall, o lustre de imbuia redondo com quatro lâmpadas pairava no nível de suas cabeças. O tampo superior era de madeirite. O proprietário trocara por uma tampa de acrílico branco, o que aumentou a já excelente iluminação gerada pelos grandes espaços entre as ripas.  Havia três flores sobre a portinhola da caixa de eletricidade ao lado da qual estava a caixinha menor, da campainha. A porta rangeu ao ser aberta. Ela entrou e não se virou para fechar; ele o fez. Numa mesinha debaixo do lustre havia miniaturas de palhaços. 

No son payasos – disse ela. –Son mimes. Ricardo! 

–¿Tienes un hijo?

–Un gato.

–Nunca he visto gatos en películas eróticas

– No pareces alguien que haya visto alguna vez una película erótica. No necessitas.  

Ao lado da poltrona, uma pilha de jornais velhos. Portugal y España integrados en la CEE deben — Unser blev den sista föraren från något annat än NASCAR.


Nascera numa casinha de madeira em Linkoping. Seu pai era um medico formado pela LiU mas acabou montando  clínica em Madrid, onde se casou com a enfermeira que trabalhava para ele; divorciaram-se antes que se mudasse para Londres, onde vive agora com uma moça da idade de Oleana. Quando fez 21 anos, ela decidiu se mudar para a Espanha. Gosta dos espanhóis. Não se adapta a  lugares frios.

Havia tirado as sandálias. O dedo ao lado do dedão se projetava em relação aos outros. O esmalte vermelho descascava. A sola era grossa e no tornozelo havia a tatuagem de uma rosa cujo caule era um nome de homem. Não falaram durante o pouso de uma pomba no parapeito da janela; depois ela continuou. Deixara, é claro, amigos na Suécia; mas decidira ficar por causa do calor humano, dos valores que o conforto sufoca, na Escandinávia ou no Reino Unido. E isso, nem parece, fazia um tempo. Dois anos. Ele viu um biquíni a partir das marcas na roupa e esboçou um sorriso que ela devolveu.

Não havia nuvem no céu. O sol, que tinha nascido antes das oito, só iria se pôr depois das nove. Um apito insistente de betoneira rasgava o ar. A sombra de sua mão se define no mármore ao pousar o copo.

— Soy bibliotecaria pero nadie me conoce como bibliotecaria. Quizás porque no tengo anteojos ni el pelo recogido.

Ao lado do sofá havia duas poltronas; o telefone estava sobre a mesinha de mogno no centro da sala. Na parede à esquerda, no limite com o corredor, surgiu a curva escura de um abajur. Sobre uma  arca, também à esquerda, reluzindo ao sol que atravessava a sala desde a janela da cozinha, havia um peso de metal sobre um envelope pardo. As paredes são brancas, talvez gelo; concedem nitidez a seu perfil. Ele não fica sentado um minuto. Pisa sobre uma felpuda nave viking. Eram muitos móveis e pequenos os espaços para se deslocar. Oleana disse para ele ficar à vontade. Ela não ia demorar.   Abriu a porta do quarto e a encostou atrás de si. Ele assentiu com a cabeça e foi para a varanda. A mancha azulada ao longe se transformou no numero 18 sobre o parabrisas de um onibus. Das mesinhas na rua subiam risadas e súbitos gritos. É um bairro cosmopolita. Escuta-se todo tipo de idiomas: inglês e Francês sobretudo, mas também línguas nórdicas.  Após o espaço de uma praça, entre duas ruelas, apareceu o sol sobre as torres de uma igreja branca. São dez para as dez no relógio de um centro comercial. Se estivesse num hotel com Blandine, e não na casa de outra mulher, ou se essa varanda fosse a varanda da casa onde viverão após fugirem de Trieste, a posição dos ponteiros significaria que está atrasado para o trabalho e precisa, portanto, se apressar. Esta varanda, vista lá de baixo no final do dia, entre tantas e igual a todas, seria única. O que pode estar errado em uma esperança assim?

Agora ouve vizinhos exaltados, portas de armário e patas de um cão derrapando no andar de cima. Oleana levantou a voz, arrastando a primeira e a última sílaba sobre os demais sons; disse que, se ele quisesse ler, havia ótimos livros. Ele relanceou os olhos na direção da estante e ela continuou falando.


– Te gusta leer, me imagino. 

Ele se levantou e andou até a porta entreaberta. “Onde?”, começou a perguntar. 


Lá embaixo o sol atravessava a copa piramidal de um abeto. As folhas elípticas reluziam. Ele encostou a persiana; quando a claridade arrefeceu, sentiu-se à vontade. Atravessou a sala e se aproximou da porta do quarto. Oleana estava de frente para o armário; os braços se moviam entre os cabides. A luz da manhã à janela molhava sua pele e o assoalho a multiplicava. A cama é um ninho de cobertas. Há dois travesseiros junto à guarda e um do outro lado, como se alguém tivesse dormido atravessado, com uma das pernas para cima. Na cabeceira, “La recherche du temps perdu”, um maço de cigarros, um exemplar da Time e um exemplar da Life.  Um prato com a sobra de um bolo. Uma garrafinha plástica azul com água.  Uma bermuda de lycra amarfanhada.  Atrás, na parede, quadrados em quadrados, retângulos em retângulos e triângulos em quadrados, impressos no papel vinílico creme.  

Quando ela se curvava para pegar as sandálias, ele evitou olhar.  Sentada na cama colocou as meias. Era um par axadrezado que parecia de criança e não se harmonizava com sua cara muito adulta. Então se levantou contra a luz e, se estivesse vestida e a roupa fosse clara, teria nesse momento ficado transparente.  Suas mãos inquietas acompanhavam um ritmo a que ele não tinha acesso. Removeu o sutiã que acabara de colocar, vestiu a camiseta vermelha e, supostamente para consultar o céu, olhou por cima do ombro do homem como se ele não estivesse ali, como se fosse um móvel. Apanhou o jeans surgido do nada e o colocou, com alguma dificuldade.  Colocou as sandálias e se virou novamente de costas para ele.  Estava pronta. Quando ele se conscientizou de que ela estava novamente vestida, quis guardá-la na memória assim, quase recatada, como são guardados os autógrafos. 

Na sala, ela tornou a se curvar, abriu a bolsa que estava sobre a mesa de centro, retirou as chaves e entregou-as. Saíram para o hall. Depois que ela apertou o botão, ele passou a acompanhar o som enferrujado, como que tentando entender o mecanismo do velho elevador.   O eco das vozes que ouviam no vão era de um casal de meia idade. “Buenos dias!” disseram em uníssono assim que a grade abriu. Oleana sorriu para Andrei antes de entrar, falando com eles num castelhano mais rápido. Ele ainda não parecia entender que a mulher havia descido e agora estava sozinho no apartamento por pelo menos uma ou duas horas. 

Quando entrou de novo, ficou olhando a lâmpada da sala. O ar começou a faltar. Tentou nomear o objeto que olhava. Lustre. Lustre. Mas não pensava na palavra”lustre”, era outra coisa. A porta permanecia aberta e ouviam-se conversas em outros andares. Mediu o assoalho com um passo cauteloso. A betoneira silenciara. Fechou a porta; foi para o quarto. Na cabeceira apanhou a revista, apertou-a contra o peito e a seguir se deitou… 

 

 

 Bayonne, 1988

  

Subindo de Logrono está Estela, meia hora depois da concatedral de Santa María de la Redonda. A estrada em maio desprende ondas de calor que clareiam o azul junto à linha do equinócio. Um carro baixo e largo com três passageiros tende a ser estável mesmo num asfalto defeituoso: equilibrado nos desvios rápidos, neutro nas curvas mais fechadas. Quando a moto passa, percebe-se que o piloto ouviu o motor antes de fazer a mudança da marcha. 

—Me crié  con mis abuelos. Se los debo todo.

—¿Ellos hablan español?

—Normalmente hablan frances y vasco entre ellos.

A mulher dá a impressão que vai explodir a qualquer momento. Bate com o punho na porta e grita para o motorista:

— ¡Mira a bici!

Quando pararam, esperou que o motorista saísse do carro, virou-se para trás e disse:  

—Te arrepentirás, hijo de puta!

 


Madrid, l988


 

Há em Madrid uma feirinha de livros permanente a céu aberto.  No espaço de duzentos metros há não menos que trinta tendas, cada qual com centenas de títulos em seu catálogo.  Em abril, quando o calor ensaia voltar, voltam os usuários de verão, turistas e estudantes, atrás de livros baratos, usados ou esgotados em outras livrarias.  Em volta das casetas há carvalhos, álamos brancos e o típico madroño.  Uma das tendas é gerenciada por um argentino, homem forte e grisalho, olhos pretos, voz firme de quem sabe o que está falando.  Há quatro anos seu estande tem agua, luz e telefone; ele vai para casa perto da meia-noite unicamente para dormir. Volta no dia seguinte cedo.  

Naquela manhã, rapazes e moças com folhetos se aproximaram e quem estava feliz com a descoberta do lugar agora terá de escutar a velha conversa religiosa. Uma das moças olhou para o livreiro por cima do ombro de seu par de pregação. Disse, com um movimento labial:

 Está en ese  bar en la plaza. O homem virou o rosto e olhou e fez sinal de afirmativo. 




Por um momento, quando olhava sem ver os prédios da avenida, acreditou que a falta de ar fazia parte de um sofisticado processo de redenção.    

—¿Desea algo más? 

Olhou para cima com uma expressão estúpida. Contou mentalmente as pesetas. Dava para mais uma xícara. A garçonete com cara de poucos amigos anotava num bloquinho. Ao se levantar, disse ao proprietário impassível, com sinais, que ia usar o toilete.  Lá dentro sentiu-se bem.  Ouvia distante o burburinho, não mais perturbador. As frases, embora mais baixas, eram discerníveis como antes não eram. O cheiro de creolina perdeu a conotação negativa guardada na memória. Ao sair, tocado de leve pelo sol da vidraça, com a letra do nome do bar escrita na testa, esbarrou em uma mesa. Quando pagava, o homem fez uma piada racista, relacionando pesetas e cruzados. Andrei jogou as moedas no balcão e saiu. 


lundi 17 avril 2023

Rio de Janeiro, 1986



Era uma quinta-feira de setembro e a lua estava cheia. Era o aniversário de Andrei. Fiquei lembrando como ele trabalhava duro e como era bondoso! Dava o dinheiro todo para minha mãe! Puxava as cerejas com as grandes mãos cujas palmas não mais ficavam em carne viva embora fossem de certo modo carne viva. Com a dedicação com que qualquer monge faria, caso o café guardasse o significado da vida.  Só de lembrar me acalmo.  


Nessa época eu tinha fundado, com vizinhas e outras filhas de cafeicultores de Piumhi e Capitólio, e até duas irmãs de Altinópolis, uma associação de mulheres, para aprender tudo sobre cafeicultura e administração de propriedades rurais. Eu era responsável pela produção de setenta hectares. Orientava os colaboradores e ajudava com o trator, agora que Kleber ia assumir a fazenda do Espírito Santo; como pensava em fazer uma grande viagem pela Europa, queria ajudar a capacitar as mulheres da região, antes de ir.  Reuni os fornecedores e expliquei a situação, eu ia casar e me ausentar por um tempo; assim como eles aprenderam a me respeitar, como mulher e administradora, que fizessem o mesmo com as outras. Sempre ouvimos “quero falar com teu pai”, embora pudéssemos tomar a frente nas negociações.  Um levantamento da Embrapa apontou que mais de 40 mil estabelecimentos agrícolas com produção de café são dirigidos por mulheres, setenta por cento aqui na região. Nosso intuito era agregar valor nas fazendas. Eu acho que mulher tem um cuidado a mais que homem.  Temos de quebrar paradigmas todo santo dia, provar que podemos fazer tudo o que os homens fazem e até melhor. A mulher precisa se sentir valorizada dentro da cadeia do café. A associação visava dar oportunidade para produtoras, baristas, arrendadoras, ou simplesmente as que gostam da arte do café.  Tenho orgulho de que muitas só chegaram onde estão hoje, inclusive as responsáveis pelos setores administrativos das fazendas, graças à associação. As meninas eram muito acolhedoras, sempre uma ajudando a outra. Se a gente somar as dirigentes com as que estão em co-direção com seus parceiros, tem mais de 80 mil mulheres nos estabelecimentos produtores de café no País. Um café que tem alcançado pontuação no mercado. Eu estava muito animada, mas quando Andrei chegou dei uma bela duma distraída. Não me arrependo não. Fico mais calma ao me lembrar daquele tempo. 

  Ao reencontrá-lo hoje me lembrei de mim mesma com a palha do chapéu preso à cabeça pela fita vermelha quando fui levá-lo para ver o cafezal. O contorno dos montes do sul de Minas na linha do horizonte, o frescor azulado do inverno. Lembrava e pensava "encontrar alguém depois de anos, numa cidade desse tamanho, no mesmo dia em que se está pensando tanto na pessoa” ... e me via como num filme, a cesta que eu levava resvalando na parte externa de meus joelhos, desconforto de palha tornado simples sentir, como dores crônicas. Ele pegaria aquele mesmo caminho quando partiu, um ponto na estrada, menos que um ponto, um fio serpenteante de luz, um rio luminoso e calmo na distância.

Ele estava saindo do cinema e eu entrando na loja de ferragens do shopping. Não falamos. A gente só se olhava e ele se aproximou.  O que está fazendo aqui, pensei, mas mal conseguia pensar, havia um bloqueio entre consciência e pensamento. E assim, do nada, nos beijamos porque não havia nada mais a fazer exceto se a gente tivesse falado e não falamos, como se há três anos tivéssemos perdido a voz, como quem se desfaz deuma coisa  que não serve mais. Porém alguns dias depois abrimos as bocas e usamos as vozes, sobretudo um pouco antes de nos separarmos de novo. Então falamos, falamos montes de coisas. 

 

 


Piumhi, 1983

Veio o fim da safra e ele quis partir. No dia em que ia, segundos antes de pegar o ônibus que leva dos cafezais ao centro, ela apareceu na porta da edícula. Seus olhos molhados o acusavam, cheios de dor e altivez.    Tarde demais, caiu em si. O calhambeque da empresa mineira de transportes buzinava ao longe, buzinava, para trazer a morte revestida de saudade e vocação literária. Trazia um epílogo ao descer, pontual, a sinuosa encosta ladeada de ravinas, buzinando e buzinando. Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve? Por que o governo não proibiu o êxodo rural? O queixo dela adquire um contorno duro. A manhã tremeluz em seus lábios.Em suas olheiras habita a noite. Não poderia ter vindo antes e dete-lo? Amor pode ser apenas isso. Alguém que se antecipe ao erro contra o qual será o futuro implacável. Mas não, não quis. Preferiu puni-lo assim, segurando o vestido de popelina contra o peito. Enquanto ele viver, guardará aquela lembrança; enquanto viver, ela estará ali. Ele foi embora de Piumhi no final da panha de 1983, em setembro. Foi para o Rio de Janeiro. Um dia minha irmã apareceu lá por lá. Tinha ido fazer faculdade. Trabalhava num Curso de Idiomas. Era atendente. Um dia ele se matriculou no curso e ficaram juntos de novo. Então ele começou a trabalhar num jornal em São José dos Campos e passava os finais de semana no Rio. Um dia ela disse que ia para a Europa. Um aluno do Curso de Italiano pagara a passagem. Ofereceu a casa dos pais para que ela ficasse durante um semestre. Ela precisava descansar. Qualquer homem desconfia de um gesto desses, mas a mulher dirá que é sem segunda intenção. Andrei chegou na sexta para passar o fim de semana e ela contou. Estava com a viagem marcada. Minha irmã… Em 1987 ele pediu a conta e foi para Luanda, mas só soubemos mais de um ano depois, quando chegou sua primeira carta de Lisboa. 

piuhi, 1983


Perto do fim da safra, de uma ótima safra, o futuro sogro chamou o namorado de Blandine para jantar na casa principal. O café alavancou o sul de Minas na direção da ferrovia, da modernidade urbana, do progresso. A própria fazenda é um retrato disso. É uma propriedade de 1860, uma beleza, não é? As principais lavouras eram o milho e a cana; muita gente plantava café para consumo da família, daí instalaram na fazenda do Capitão Jean Marques de Gruber, em Piumhi (a fazenda Donda Senhora das Serras), uma máquina a vapor para beneficiar o café.

— Se você vai se estabelecer aqui, precisa conhecer nossa história.

O casalzinho chegou pela ponte de pedra, em passos lentos, conversando baixinho. Talvez ela estivesse adiantando a história que seria contada à mesa. Seu bisavô havia chegado na região em meados do século 19. Acompanhava o tio Maxime, que tinha ido verificar a viabilidade de uma ferrovia. Já havia formações urbanas em torno das minas de ouro e diamante. Erigiam-se igrejas nesses lugares e então o comércio se desenvolvia. A agricultura e a pecuária se estendiam em Minas e desenvolvia-se a rede de abastecimento que desde o século anterior mantinha exportação interprovincial de tabaco, carne e queijo.

— Considerando que na conexão com a Corte são poucos os rios navegáveis, urge a construção da ferrovia — dissera Maxime ao sobrinho. O sobrinho passou então a assumir aquilo como uma missão de vida.

Após terem prestado contas, antes de voltarem para o Rio de Janeiro, o rapaz, então com 17 anos, maravilhado com a exuberância e a fertilidade das terras, decidiu ficar; quando comunicou isso, o tio concordou; mas, com a condição de que ele se casasse com a prima, Catarina Sonia Bruguer Almeida. O dote foi um lote de terras.

— As terras em que pisamos.

— As terras em que pisamos. Mas a Fazenda Donda Senhora das Serras era só um nome. Não tinha nenhuma construção.

— Então ele constrói a casa que vemos.

— Então construiu essa casa.

— Olá! — disse Donda Maria ao vê-los. — A janta está quase pronta!

Entraram.

A porta de entrada veio de Ubá, de uma igreja demolida. No hall, Donda Maria orientou-os para virar à direita. No lado esquerdo eram recebidos os mascates, os tropeiros, todo tipo de pessoas que vinha negociar, e muitas vezes precisavam pernoitar; como você acomodaria, no íntimo de seu lar, pessoas que não conhecia? Para isso havia alcovas, pequenas e sem janelas, bem aqui, onde hoje é a capela. Tem um altar do período barroco ladeado por dois candelabros italianos; no púlpito há um missal de 1789 e diante dele um genuflexório.

Acima de uma grande cômoda entre os acessos, havia um prato com motivos ferroviários, sobre o qual estava um espelho bisotado francês; na direção do lustre, do ponto de vista de quem entra para a parte nobre, repousa na parede uma tapeçaria de gobelin. Ao lado da janela, dois quadros da escola de Cuzco.

— Meu bisavô era um homem de família — disse o sr. Jean, sentando-se à cabeceira da mesa comprida — interessado no progresso de sua cidade. Não foi só um cafeicultor, pode se dizer que seu escritório era uma espécie de entreposto de factoring. Comprava café de várias fazendas e intermediava sua venda para a Europa.

— Ele viveu aqui dez anos com a vovó Cristina— disse Blandine.

— Tiveram oito filhos. Ela morreu quando ele tinha 50 anos. Menos de um ano depois, ele casou com uma moça 30 anos mais jovem e teve outros 9 antes de morrer, aos 80.

— A imagem no corredor é de Santo Isidro, o espanhol protetor das colheitas — disse a senhora Donda.

— Depois do jantar você vai conhecer a sala dos homens. Uma sala com confortáveis cadeiras dispostas em torno de uma mesa redonda onde ocorriam as negociações. Terminadas as refeições, os homens iam para lá, como ainda faço em jantares maiores, para falar de política, acender os charutos, antever as possibilidades de negócios, mascar o rapé. Vai ver o piano onde as damas, quando tinham acesso, nos deliciaram com suas performances

— A dona da pensão do Andrei não pôde vir, papai?

vendredi 14 avril 2023

Passos de Minas, 1983

 Tamanha era a felicidade de minha filha que eu precisava fazer alguma coisa. Dia desses   a gente vinha lá do sítio   e quando passamos por aqui eu vi de relance uma casa para vender. Estava ficando tarde e passamos mas agora vamos até ali adiante onde a gente possa manobrar e ver se a gente fala com o dono. 

Essa região é muito bonita, acho que ela vai gostar.  Serra para tudo quanto é lado. Ontem falei com o Kleber  que queria vir e aqui estamos.    Vamos fazer a manobra aqui, com cuidado porque logo ali tem uma curva. Já parou para pensar que você o conheceu antes de nós? Seremos uma espécie de família dele no casório. O que será que aconteceu para ele não ter ninguém no mundo? Como alguém chega nessa situação?

Aqui existem algumas casas muito muito antigas. Fim do século passado, começo deste século. Olha só aquela. Ali na margem do asfalto, escondida pela vegetação. Quatro janelas frontais. Posso estar enganado, mas acho que essa casa é do senhor Josias. Josias do Rego. Gente muito boa. Muito alegres, muito bem quistos em Capitólio.



 


Piumhi, 1983



O KLEBER parece que gostou do rapaz e isso para mim sempre é um bom sinal porque eu tenho essa proximidade com ele desde pequeno e sempre o que ele sente é o que eu sinto ou vou sentir, então estou contente por causa de Blandine porque se continuar assim essa menina vai dar muito trabalho ainda e esse rapazinho de Belo Horizonte pode ter lá o seu dinheiro e dar o conforto que ela quer mas, está na cara, passado um tempo, ela vai achar um motivo para largá-lo e levantar outros voos, até porque esse tipo de emprego do menino, em uma empresa pública, segurança e tudo mais, pode ser bom para ela na parte financeira mas na hora agá de viajar, que é o que essa menina tem no sangue, como o pai, com certeza ele não vai ter disponibilidade e aí já viu o que acontece, ela acabará indo de um jeito ou de outro ou não irá, e uma mulher frustrada eu sei bem do que é capaz. O Kleber me contou que demorou para voltar e quando voltou eles estavam em pleno clima, queria ter sido uma abelhinha lá e ter visto, porque clima é algo de que Blandine nunca precisou para chegar a seus objetivos, embora seja uma menina decente, você não me interprete errado por favor, ela é sim uma menina muito sensível e decente; mas tem o seguinte: sim, gostei do rapaz e o Kleber também e parece ela mesma, que no fim das contas é o que interessa; mas há uma distância entre a gente gostar e ele ser mesmo o que aparenta ser e ainda que seja é outra distância ter caráter e a melhor das boas intenções e a coisa dar certo, é só ver o caso do pai deles e eu: ele era um homem bom e compassivo, trabalhador e até onde eu sei fiel, e aí está, a dias de se casar com outra, porque realmente não deu certo e não adianta perguntar por que não deu, ninguém pergunta quando as pessoas se juntam por que se juntam.

 


    O senhor Jean e a madrasta faziam planos na cozinha; debruçada na janela da sala, Blandine esperava. Quando papai os apresentou, Andrei comentou como era um nome bonito e o pai explicou que amava Liszt; se eu tivesse nascido primeiro, teria me chamado Franz. De noite, antes da viagem para cá, foram jantar e convidaram Andrei. Ele confessou  que estava bebendo demais. 

    — São os males da cidade grande —disse o senhor Jean. —Por que você não vem conosco e passa um tempo na roça, lá em casa? 

    — Pode trabalhar na “panha” —disse Blandine, sorridente. — Será uma ótima terapia.

    Ela costumava levar a comida quando a gente estava no milho. Nesse dia, levou também uma garrafa de café. Disse a ela que ia ver uma coisa e já vinha. Então peguei o trator. Eu não gostava nada do cara bonito e rico de BH. Estava na cara: em um ou dois anos estariam separados. Daí demorei o suficiente. Ia medir o tempo pela temperatura do café.

 


  Ah quando ele chegou da lavoura com os olhos caídos e cheios de si!... As feridas da mão como medalhas e suportando meu olhar com uma expressão altiva e cansada, como um menino que tivesse passado de ano com média cinco diante de sua mãe.

    —Você está bem? Deu tudo certo? Vai conseguir voltar amanhã?

    — Sim e sim —respondeu ele. —E sim.

    — Que bom. Arrumei teu quarto

    —Não precisava se incomodar.

    —Não foi incomodo algum — eu disse, quase completando: —Foi um prazer — mas não ia pegar bem. 

 


    Blandine era uma menina quando entrou pela primeira vez na edícula que agora serve de moradia para os apanhadores de fora da cidade. Na época era uma casa de hóspedes, conjugada com a garagem. Agora, uma mulher, está pela sozinha com o rapaz, sem o perigo de alguém entrar a qualquer momento, como na casa grande. Há uma pia na frente da janela. Ali, diante das copas frondosas, ele enche uma garrafa plástica com água da torneira, ignorando o filtro de barro na mesinha ao lado, quando ela chega com as marmitas. Estava com um vestidinho de alça e ao aproximar o copo que apanhara na estante, ela encostou o ombro nu em seu peito. Falava como se contasse um segredo. Vinha em geral a mando do pai para saber se os tios de Belo Horizonte estavam bem acomodados, se precisavam de alguma coisa. Ele continua fazendo o que está fazendo, sem olhar para ela. Mariposas esvoaçam em torno da lâmpada de vinte watts que não fazia mais que impedir a completa escuridão.  Apanhadores do norte de Minas ficavam todos os anos na peça; este ano, contudo, ano parece que não vêm ou, se vierem, podem ficar num dos dois lofts de madeira ao lado do estábulo.  Ela havia abaixado a voz um pouco mais. Andrei respirou fundo e enfim a olhou. Ela o olhou de volta tentando não demonstrar ter percebido o quanto o toque de seu ombro o havia afetado. Hesitou antes de sugerir que comessem lá fora. 

    – Eu mesma fiz essa churrasqueira com blocos, a sobra de um piso e a grelha de um fogão velho. 

     – Já pode casar – disse ele sorrindo. 



  Estavam juntos havia uma semana e eu e minha mãe felizes. Pareciam feitos um para o outro. Parecia que seriam felizes para sempre na casa que papai prometera. Andrei não sabia. Blandine a princípio não contou. 

    Uma e outra coisa e o casamento e a nova vida iam ficando para mais tarde. Minha irmã um dia disse para ele: "—É que você está dividido porque gosta da roça, mas não esquece as coisas da cidade". Pode ser. Ou era ela que queria escapar da roça e eu isso eu bem posso compreender. 

    O ciúme tinha crescido. Ele era um cara trabalhador, mas muito inseguro. A mãe adorava o genro atencioso, mas ele não ia casar com a mãe. Quando ele partiu, o pessoal começou a perguntar por que isso e aquilo, mas eu acho que nesse tipo de coisa não há resposta, e nem pergunta devia haver, porque ninguém pergunta por que as pessoas se juntam, dias atrás a gente falava sobre isso.

    Ele adorava uma santa mas Blandine nunca foi santa, e ele não tinha aquela atitude máscula e meio canalha que atrai as mulheres.  No começo ela se deliciava com a presença dele e ainda mais com a ausência, a presença imaginada, é o que me dizia. O homem não era mais uma espécie hostil e isso de algum modo me aliviava. Ela até ficava meiga ao lado dele.

    Quando dava seis horas da manhã ou da tarde, eu começava a ouvir as vozes dos apanhadores e sabia então que eram seis horas e o sino tocava. Ele foi um apanhador calado , deslocado no canto da carreta. Era chamado de "jornalista". Torcia para que não puxassem conversa, ciente de que iam puxar. A gente imaginava o que ele teria feito para terminar assim, empoeirado e suado como todos e mais pobre do que todos, sem casa para morar e sem parecer ter morado em uma casa algum dia; sem amigos e sem parentes, como se a vida tivesse se desfeito dele e por alguma razão o tivesse lançado no mato, para menos que morrer.


 

Saiu da rua que lhe fora destinada e os apanhadores da rua de trás pensaram que tinha ido ao banheiro. Foi para uma rua em que o café não seria colhido naquele dia.  Seus pés pegavam fogo dentro do tênis e ficou descalço.  Havia um ardor gelado em sua costela, pungente, definitivo. Recostou a cabeça no chão. Não conseguiu ficar um único instante e se levantou. A vida exuberava ao redor, na mesma proporção com que o horror o sufocava. Algumas plantas estavam encolhidas pelo calor da tarde; do outro lado, tudo normal. Sobre sua cabeça as folhas muito verdes reluziam e o café parecia cereja. Prazer algum deveria habitar nesse cenário de perfeito pavor que precede a morte dos perversos; todavia, prevalecia um estranho desejo.   

    Enquanto apanhadores apontavam a poeira de um carro na estrada, outros olhavam para o lugar onde Andrei devia estar Ele podia ouvir os comentários. Havia alívio em escutar, uma vez que o silêncio tinha se tornado insuportável. Imaginou se o mal-estar teria passado,  poderia fechar os olhos um pouco e descansar; não soube, porque não conseguia fechar os olhos.  Lembrará disso por toda a vida.  Não raro fechará os olhos no futuro e se sentirá abençoado por conseguir fazê-lo. 

 


 Passos de Minas, 1983

 


Tamanha era a felicidade de minha filha que eu precisava fazer alguma coisa. Dia desses   a gente vinha lá do sítio   e quando passamos por aqui eu vi de relance uma casa para vender. Estava ficando tarde e passamos mas agora vamos até ali adiante onde a gente possa manobrar e ver se a gente fala com o dono. 

Essa região é muito bonita, acho que ela vai gostar.  Serra para tudo quanto é lado. Ontem falei com o Kleber  que queria vir e aqui estamos.    Vamos fazer a manobra aqui, com cuidado porque logo ali tem uma curva. Já parou para pensar que você o conheceu antes de nós? Seremos uma espécie de família dele no casório. O que será que aconteceu para ele não ter ninguém no mundo? Como alguém chega nessa situação?

Aqui existem algumas casas muito muito antigas. Fim do século passado, começo deste século. Olha só aquela. Ali na margem do asfalto, escondida pela vegetação. Quatro janelas frontais. Posso estar enganado, mas acho que essa casa é do senhor Josias. Josias do Rego. Gente muito boa. Muito alegres, muito bem quistos em Capitólio.


 





 

Piumhi, 1983 

 




Perto do fim da safra, de uma ótima safra, o futuro sogro chamou o namorado de Blandine para jantar na casa principal. O café alavancou o sul de Minas na direção da ferrovia, da modernidade urbana, do progresso.  A própria fazenda é um retrato disso. É uma propriedade de 1860, uma beleza, não é? As principais lavouras eram o milho e a cana; muita gente plantava café para consumo da família, daí instalaram na fazenda do Capitão Jean Marques de Gruber, em Piumhi (a fazenda Donda Senhora das Serras), uma máquina a vapor para beneficiar o café.  

— Se você vai se estabelecer  aqui, precisa conhecer nossa história. 


O casalzinho chegou pela ponte de pedra, em passos lentos, conversando baixinho. Talvez ela estivesse adiantando a história que seria contada à mesa.  Seu bisavô havia chegado na região em meados do século 19. Acompanhava o tio Maxime, que tinha ido verificar a viabilidade de uma ferrovia.  Já havia formações urbanas em torno das minas de ouro e diamante. Erigiam-se igrejas nesses lugares e então o comércio se desenvolvia.  A agricultura e a pecuária se estendiam em Minas e desenvolvia-se a rede de abastecimento que desde o século anterior mantinha exportação interprovincial de tabaco, carne e queijo. 

— Considerando que na conexão com a Corte são poucos os rios navegáveis, urge a construção da ferrovia — dissera Maxime ao sobrinho. O sobrinho passou então a assumir aquilo como uma missão de vida. 

  Após terem prestado contas, antes de voltarem para o Rio de Janeiro, o rapaz, então com 17 anos, maravilhado com a exuberância e a fertilidade das terras, decidiu ficar; quando comunicou isso, o tio concordou; mas, com a condição de que ele se casasse com a prima, Catarina Sonia Bruguer Almeida.  O dote foi um lote de terras. 

— As terras em que pisamos. 

— As terras em que pisamos. Mas a Fazenda Donda Senhora das Serras era só um nome. Não tinha nenhuma construção. 

— Então ele constrói a casa que vemos.

— Então construiu essa casa. 

— Olá! — disse Donda Maria ao vê-los. — A janta está quase pronta!

Entraram. 

A porta de entrada veio de Ubá, de uma igreja demolida.  No hall, Donda Maria orientou-os para virar à direita. No lado esquerdo eram recebidos os mascates, os tropeiros, todo tipo de pessoas que vinha negociar, e muitas vezes precisavam pernoitar; como você acomodaria, no íntimo de seu lar, pessoas que não conhecia? Para isso havia alcovas, pequenas e sem janelas, bem aqui, onde hoje é a capela. Tem um altar do período barroco ladeado por dois candelabros italianos; no púlpito há um missal de 1789 e diante dele um genuflexório. 

  Acima de uma grande cômoda entre os acessos, havia um prato com motivos ferroviários, sobre o qual estava um espelho bisotado francês; na direção do lustre, do ponto de vista de quem entra para a parte nobre, repousa na parede uma tapeçaria de gobelin.  Ao lado da janela, dois quadros da escola de Cuzco. 

— Meu bisavô era um homem de família — disse o sr. Jean, sentando-se à cabeceira da mesa comprida — interessado no progresso de sua cidade. Não foi só um cafeicultor, pode se dizer que seu escritório era uma espécie de entreposto de factoring. Comprava café de várias fazendas e intermediava sua venda para a Europa.  

— Ele viveu aqui dez anos com a vovó Cristina— disse Blandine.

— Tiveram oito filhos.  Ela morreu quando ele tinha 50 anos. Menos de um ano depois, ele casou com uma moça 30 anos mais jovem e teve outros 9 antes de morrer, aos 80. 

— A imagem no corredor é de Santo Isidro, o espanhol protetor das colheitas — disse a senhora Donda. 

— Depois do jantar você vai conhecer a sala dos homens. Uma sala com confortáveis cadeiras dispostas em torno de uma mesa redonda onde ocorriam as negociações. Terminadas as refeições, os homens iam para lá, como ainda faço em jantares maiores, para falar de política, acender os charutos, antever as possibilidades de negócios, mascar o rapé. Vai ver o piano onde as damas, quando tinham acesso, nos deliciaram com suas performances 

— A dona da pensão do Andrei não pôde vir, papai?  

 

 






 Piumhi, 1983



Veio o fim da safra e ele quis partir. No dia em que  ia, segundos antes de pegar o ônibus que leva dos cafezais ao centro, ela apareceu na porta da edícula. Seus olhos molhados o acusavam, cheios de dor e altivez.    Tarde demais, caiu em si. O calhambeque da empresa mineira de transportes buzinava ao longe, buzinava, para trazer a morte revestida de saudade e vocação literária. Trazia um epílogo ao descer, pontual, a sinuosa encosta ladeada de ravinas, buzinando e buzinando. Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve? Por que o governo não proibiu o êxodo rural?

O queixo dela adquire um contorno duro. A manhã tremeluz em seus lábios.Em suas olheiras habita a noite. Não poderia ter vindo antes e dete-lo? Amor pode ser apenas isso. Alguém que se antecipe ao erro contra o qual será o futuro implacável. Mas não, não quis. Preferiu puni-lo assim, segurando o vestido de popelina contra o peito. Enquanto ele viver, guardará aquela lembrança; enquanto viver, ela estará ali.

 



Ele foi embora de Piumhi no final da panha de 1983, em setembro. Foi para o Rio de Janeiro. Um dia minha irmã apareceu lá por lá. Tinha ido fazer faculdade. Trabalhava num Curso de Idiomas. Era atendente. Um dia ele se matriculou no curso e ficaram juntos de novo. Então ele começou a trabalhar num jornal em São José dos Campos e passava os finais de semana no Rio.

Um dia ela disse que ia para a Europa. Um aluno do Curso de Italiano pagara a passagem. Ofereceu a casa dos pais para que ela ficasse durante um semestre. Ela precisava descansar. Qualquer homem desconfia de um gesto desses, mas a mulher dirá que é sem segunda intenção. Andrei chegou na sexta para passar o fim de semana e ela contou. Estava com a viagem marcada. Minha irmã…

Em 1987 ele pediu a conta e foi para Luanda, mas só soubemos mais de um ano depois, quando chegou sua primeira carta de Lisboa.

 





jeudi 13 avril 2023

Madrid, 1988

Durante os cinquenta e quatro segundos em que as portas ficaram abertas, entraram no vagão ele e uma moça loura calçando botas de salto; por um triz, ela não caíu na escada rolante; quase foi espremida ao soar o alarme de fechamento.  Pelos labirintos do metrô,  chegou à região do Callao no princípio da noite. Subiu a escada da estação temeroso de tamanho movimento. Um pouco depois, arrefecida a hora do rush, restou a oferta de corpos, o burburinho dos bares, adolescentes discutindo qualidade e preço. A noite em Madrid começa com a janta, mas pulará essa parte. Sentado sob um toldo verde, no degrau diante de uma porta rollup, rabiscava. Os putos e as chicas, encostados nos carros em torno de um café, têm nas mãos copas largas com gim; nas mesas próximas e nas capotas, há pratinhos de tapas — calamares fritos, tortillas e espetinhos. Apertos de mão em código. Socos de camaradagem e beijinhos. Ao se dispersar um grupo, alguém deixa um embrulhinho prensado como prova de amizade. Ao longo da noite, de bar em bar ou em botelões, muitos se reencontrarão. Pouco depois ventava na avenida de Daroca. De Vicalvaro a Las Musas, incorporava-se ao mundo que nasce quando morre o mundo diurno e sua normalidade. Apanhou a linha sete até Pueblo Nuevo e a cinco até Ventas. Sonhava? — perguntou-se ao ver, diante do cemitério fechado, um cortejo de turistas. Pareciam guiados por um homem charmoso que lhes contava anedotas. Você se atreve?, perguntou-se ao dar um passo. Sim, respondeu, aproximando-se num rompante da jovem tímida que acabara de ocupar o último lugar na pequena fila. Como os outros, recebeu uma vela amarela e fones de ouvido. O portão rangeu antes de entrarem. Uma mulher de rosto brilhante dançava entre as tumbas diante deles. No final da performance, vendo a moça agachar e depositar sua vela num dos túmulos, teve de repetir para si mesmo “você precisa sair daqui”, antes de efetivamente se afastar do grupo. Então voltou para Callao. Viu o cartaz e entrou. A inverossimilhança do castelhano perfeito de Sting e Kathleen Turner fez da sessão um tipo estranho de terapia e saiu sereno e bem disposto. Não lhe ocorreu associação entre o filme e Blandine, mas havia Trieste. Se relacionasse os cenários com os arredores da Via della Sorgente, onde ela vivia e caminhava ao sol, e o mar do filme com o mar que agora a extasiava, teria ficado triste; mas isso não lhe ocorreu e saiu ileso, graças a esses complexos mecanismos mentais que nos protegem de nós mesmos. Meses depois, quando voltasse a assistir ao filme em Lisboa, numa sessão reservada a jornalistas, para ilustrar um debate sobre o cinema no advento da tv de alta definição, por causa do castelo da abertura, quando o velho lê o poema, pressentirá Trieste e confirmará a intuição. Nessa sessão, em que os cuidados técnicos subtrairão do filme o halo de magia, substituindo-o por tipo um vídeo-tape (algo como trocar a pintura de um mestre pela foto da paisagem que o inspirou), nessa outra sessão, quando Sting falava com sua própria voz o inglês original do filme, ele experimentará imensa angústia. Não era assim após o filme em Madrid. Não sentia nada. Com postura e respiração de peito, caminhava para a região das tavernas. Um rapaz pediu um cigarro e, depois de acendê-lo, propôs um "chocolate". Chamava-se Michel. Foi até um vulto do outro lado da rua, sem dizer palavra; ao voltar, preparava o baseado. Era inglês, embora tivesse nascido na Suíça. Os avós eram bascos franceses. Pronunciava o espanhol tão corretamente quanto Sting no filme, porém ele é real como minha alma dilacerada. Cantava o “lhú” de lluvia (começava a chuviscar) e o “lhê” de calle (convidara-o para um clube noturno e agora explicava o caminho), diferente dos latino-americanos, que dão aos eles som de jota. Juntaram-se no percurso, por causa do cheiro, um italiano e um português. Um veículo pesado picoteia o ar e faz com que a avenida estremeça. Um sino. Meia-noite. Tudo o que um segundo comporta. Quando se aproximavam de um carro ligeiramente móvel, parado na esquina, Luis, um moreno entroncado nascido na Cidade do Porto, falava sobre mulheres. Dizia: "Sexo e sentimento são para elas a mesma coisa. Quando sentem prazer, estão amando. O homem não associa assim. Admitimos que a imagem da amada possa se apagar e o coração transmitir outras imagens". Michel respondeu: —La relación sexual siempre afecta el sentimiento. Hace que las mujeres sean posesivas. Thomas é um jovem italiano; ele vive em Pamplona. Ia dizer que o sentimento de posse da mulher apaixonada é fruto da ingênua pretensão de ter o controle, mas se calou. Então Luís concluiu: — Exactamente como sucede en una posesión. Michel pensou em uma mulher específica, com quem estivera na noite anterior. Embora a amasse, seu viés possessivo a tornava desagradável; mas não chegaria ao referido extremo. —Para las mujeres, una ll solo demuestre una tendencia polígama dominante. Passaram nesse momento três moças em sentido contrário. Luiz se virou e as siguió durante uns passos. Disse-lhes: — Mujeres, vosotras las chicas, no valéis nada y no sois nada y no tenéis sentimientos ni corazón ni entrañas; no queréis ninguna salir conmigo? — depois que passaram, continuou, excitado, o seu discurso: “A mulher escolhe um homem atraente — o rico e charmoso, o bonito e inteligente, o protetor, o provedor, o sedutor — e acha que, se ela é fiel, garantiu o direito de exigir fidelidade; escolhe e se entrega logo, antes que o homem questione seus encantos”. Michel disse que Luis estava sendo muito rigoroso; o outro fez um sinal de cabeça dúbio e disse que ia falar com um amigo, já voltava. Entrou numa discoteca.            Certa época houve em Madrid um movimento chamado La movida. Era o nome da época imediatamente posterior à ditadura franquista. Nasciam então as sofisticadas boates da calle Victor Hugo, o agito dos bares de Malasaña e as lendárias discotecas da Plaza Callao. Em lugares assim foi celebrado o referendum.    Agustín, o dono do UpDown, ainda se lembra; parece que foi ontem.  — És assim tão velho, discotecário? — disse Luis, mostrando um CD. O DJ havia faltado e Agustín mesmo fazia a sonoplastia. Luiz fez movimentos labiais: — Têm pastilha? — En el cajón … — respondeu o outro. — Sé más discreto, Luiz — pediu. ... Es mi trabajo.. — Tranquilo. Te libero uma ganza boa quando o próximo carregamento chegar. “Nací en Cuba. Es muy difícil fumar allí. Mi padre consiguió venir a las Islas Canarias, concretamente a Las Palmas. Estaba tranquilo allí, se puede fumar en cualquier sitio. Como está cerca de Marruecos, era fácil ir y traer. Un día, dos amigos y yo tuvimos la idea de crecer y decidimos alquilar un piso de tres habitaciones. Cada uno de nosotros ha montado su propio armario de plantas. Un día surgió la oportunidad de mudarnos y pasamos de un armario a una granja. El clima en Canarias es subtropical, se puede cultivar todo el año. Entonces me enteré de que en Barcelona ya había clubes, en Madrid aún no había y decidí venir aquí. mi abuelo dijo que nos ayudaría siempre y cuando hiciéramos algo más familiar. Mi abuela tiene 80 años y es una consumidora habitual. Las personas con cáncer necesitan un lugar para fumar. De todos modos, seguimos creciendo. Hoy somos unos 500 miembros. Por supuesto, existe el problema de la ley. La ley sólo permite el cultivo para el consumo personal. Por lo tanto, es una paradoja que el club exista sin apoyo legal. El productor está infringiendo la ley y los directivos del club viven bajo un riesgo constante. Así que hay muchos problemas burocráticos. Las personas que están en el sector nunca saben lo que es correcto o incorrecto, qué medidas pueden tomar y cuáles no. Es un limbo. Políticamente es un caos. Uno propone una muy buena idea, el otro la anula y la termina. El club paga impuestos: impuesto de alquiler, multas, registro de la asociación, etc., como cualquier otra empresa. Hay clubes sin documentación, que operan ilegalmente, y esto afecta a los clubes legales, creando mafias y esto naturalmente nos afecta, tiene repercusiones. Hace un tiempo vinieron unos turistas y un periodista brasileño me preguntó si había esperanza de que las cosas mejoraran en el futuro, especialmente con la legalización. He dicho que sí. Todo pasa por el progreso social. El otro día, hablando con un productor mexicano, me dijo que en México están liberando a los cultivadores. Naturalmente, con la legalización, el delito de cultivo deja de existir. La liberación de estos presos sería una reparación social. La industria del tabaco, la industria de las carreras, cualquier otra industria de las drogas legales existe sobre un principio similar. No me gusta ver a mi abuela teniendo que ir a la farmacia a comprar pastillas para dormir, por ejemplo, y no poder comprar cannabis. Incluso los hobbits estaban más avanzados que nosotros, porque cultivaban y consumían marihuana. Este brasileño dijo que no era así y utilizó un argumento religioso, por lo que debe ser de una iglesia y ya sabes cómo son los eclesiásticos. — Creo que la pipa de Tolkien contenía tabaco. Hacer cambiar la conciencia artificialmente puede servir de consuelo eventual, pero cuando se convierte en un hábito, el daño espiritual es irreversible. — No era tabaco mas cannabis. Cuando Saruman interrogó a Gandalf sobre la hierba, la calificó de "juguete de humo y fuego" que se utilizaba mientras los demás debatían seriamente las cuestiones, Gandalf respondió que si la fumaba él mismo descubriría que el humo aclara la mente y confiere paciencia. — ¿Te ocurre ese tipo de efecto? Conmigo, me pongo parlanchín, como ahora, y pierdo mis inhibiciones, lo que estoy seguro que no me hace ni un poco más paciente. Me gustaría ver el avance de la legalización. Me gustaría que mi padre pudiera decir de mí: ese es mi hijo, no es un bandido, es un buen tipo. Sólo está fumando su hierba, no está haciendo daño a nadie. — Mas você não está apenas fumando... Em uma rua tranquila do centro de Madrid, no sobrado que atende pelo nome de Cannabis Club, branco como as outras casas da rua e com iluminação interior violeta, ciganos romenos se reuniam, cheios de brincos e pulseiras, gargalhadas e olhares. Num canto, quatro estrangeiros tomavam sorvetes de haxixe. Fazia um calor sufocante. O suor escorria pelas testas e a água da rega pelos limbos das folhas nos vasos do parapeito, como abas de chapéu na chuva. Mãos suadas seguram tacos. O cheiro da cozinha próxima serpenteou sob os narizes como um riacho entre rochas, substituindo por alguns segundos, com o cheiro de pizza, o cheiro da maconha. Num momento, Luis respirava fundo perto da janela; noutro, levantava-se e gritava: —    Mi cartera! ¡Alguien me robó la cartera! Discretamente, Tomás conferiu os bolsos. Uma sirene disparou. Correram para as escadas. Enquanto desciam, as paredes ganhavam tonalidades do mundo exterior logo incorporadas à noite lá fora. O barulho aumentava. A lua estava coberta por nuvens quando esbarraram no portão trancado. Olharam para cima. Os cacos sobre o muro os desencorajaram. A passante parou para ver. Luis tornara a subir os degraus, de dois em dois, e os outros ouviram sua voz lá em cima; a seguir ouviram o som da tranca. Ao saírem, dobrando a esquina, Tomás se chocou com a moça e se desculpou, de longe. Ela balançou a cabeça e não tornou a olhar. O sereno se misturava ao relaxamento. Sentiam frio. A madrugada madrilenha distribuía luzes e sombras pela amplidão de avenidas iluminadas e nevoentas ruelas. As lâmpadas dos postes traspassavam a bruma e entranhavam no asfalto as encompridadas sombras. Procuraram um lugar sem vento. Desceram na entrada do metrô. Tomás desfez a pequena barra escura sobre uma moeda na palma da mão. Luís abriu a seda e Tomás colocou a mistura, aquecendo-a com um isqueiro. Dois policiais surgiram de um descuido. Olharam e se aproximaram. Mandaram-lhes mostrar os documentos. Detiveram-se na credencial do brasileiro. — Entonces tenemos acá un periodista...— a voz se elevou quando o homem o encarou, encostado em sua insígnia. —¿Trabajas mejor drogado? Deram-se logo por satisfeitos. Recomendaram o clube próximo (existe justamente para esse fim, explicaram),  devolveram os documentos e voltaram para a ronda. La delincuencia nocturna no es la misma que la diurna. Es necesario tener discernimiento. Hace un momento, una mujer se negó a identificarse y cuando le saqué el bolso para registrarla me agredió y se tiró al suelo. Fue tenso. Hace unos días estábamos realizando una operación cerca de la plaza y un hombre que pasaba por allí se paró a mirar. Le dije que siguiera adelante y me preguntó dónde estaba escrito, es decir, que estaba prohibido. Le dije que por favor siguiera adelante. Me dijo que no que nadie podía detenerlo y le pregunté si no era más fácil cooperar y seguir adelante y siguió gritándome. Fue arrestado. En esa misma operación, que fue en un bar con denuncias de menudeo y consumo ilegal, había un hombre cuya documentación demostraba que su condición no era regular. Estábamos a punto de llevarlo a la comisaría correspondiente, cuando una mujer que lloraba le cogió de la mano. Los llamé a un lado y les dije que se fueran discretamente y que se presentaran mañana en la comisaría de asuntos exteriores para regular la situación. Ahora era más o menos así. Los tres turistas estaban fumando marihuana en la calle, nos acercamos a ellos, les pedimos la documentación, nos la mostraron; simplemente les orienté para que fueran al club de es marihuana y allí fumaran y no en la vía pública. Quando restou a acidez do cartão que servia de filtro, Luiz pressionou o cigarro entre o polegar e o indicador e lançou-o longe. Tinha de ir. Deixou seu endereço no Porto. — É só tomar o autocarro 57. Ficaram os dois outros, Tomás e Andrei. O vento frio parecia outro e, eles mesmos, outros também. A escada oscilava e a avenida subia para o infinito, as nuvens se fundiam umas nas outras. Pararam debaixo de um plátano. As folhas tinham seis ou sete lóbulos de uns trinta centímetros de largura. Na parte de cima, a cor era mais viva do que na de baixo; reluziam com o sopro da brisa. — Lo que pueda elevar a alguien no podrá sin embargo cambiar a nadie. El espejo que nos aumenta es todavía sólo un espejo. — El sabio siempre será sabio y el tonto cada vez más tonto. Nesse momento passou uma jovem, pequenina, roliça e castanha. Dix-neuf ans. Olhos verdes. Lábios rosa escuro. Os cabelos caíam pelo rosto. A cintura, Deus ali se demorara um pouco mais. Expressão inteligente; frases curtas, engraçadas. Chamava-se Isabelle. Parisiense. Pai timorense e mãe francesa. Seu gerúndio tinha um acento sublime. Disse um smiling cantando o g e depois “To-más”, assim, abrindo o “a” e derramando dentro o Sena.  Quando disse “Hago pedicura e manicura francesa o rusa”, Tomás se desinteressou do espelho. Andrei apertou os olhos e os viu sumir, pontos esverdeados na distância. Arcos ogivais de uma fachada gótica flutuando. Uma tremula parede de tijolos coloridos. Tornou a caminhar, medindo os passos, como se estivesse no escuro. Saindo de uma rua estreita, deu numa imensa praça. Não desviou o olhar ao passar pelos rapazes e moças encostados na mureta. Sombras o espreitavam das varandinhas ao redor. Atravessou a rua e sumiu em meio aos reflexos dourados da vidraça de um restaurante. Diante do proprietário gordo, sob o peso das pálpebras, pediu dois pães com manteiga, um bolo e um café com leite. O homem mal o olhou ao lhe dizer que esperasse sentado. A cadeira que puxou estava debaixo da data da inauguração, em um painel na parede, ao lado da foto de um frequentador célebre. Sentou-se, respirou fundo, abriu o caderno de notas e escreveu: Há vinte anos, quando eu tinha vinte anos. As cortinas brancas ondulavam. Na mesa em frente, um velho de barbas brancas tinha os olhos vermelhos muito abertos diante de um copo de vinho pela metade. As mesas estavam cobertas por toalhas brancas com bordado de xadrez e barrado de crochê. Os poucos fregueses pareciam sonolentos e não falavam. Pela janela, a fachada do prédio em frente entrava em combustão. Virou a página. Os dedos acompanharam a folha até encostar na folha anterior, então descansou o braço sobre a mesa. Nessa posição, a moça que entrara no estabelecimento pousou sobre seus dedos. Ela falava com o atendente quandopelo grande espelho, percebeu-se observada. Sem que ela nada pedisse, ele a serviu. O homem ao lado disse alguma coisa e ela respondeu. —Tror du verkligen han bryr sig? Estava de pé encostada no balcão. Os cabelos escorriam pela camisa azul-claro até um pouco abaixo do ombro. Prolongou um movimento das coxas como se hesitasse; pelo espelho, ao mesmo movimento, os olhos do rapaz reluziram. Ele ergueu a cabeça, displicente. O texto diante de si, cheirando a café com leite. No segundo desse alheamento, a moça desapareceu. Procurou-a mesa por mesa, inutilmente. Lá fora, conforme amanhecia, a avenida e o céu se encontravam em uma mesma cor; a cor empalideceu e a cidade cresceu ao redor; ouviram-se pássaros matinais. A mão deixa o descanso e a caneta rasura uma vírgula. Um mundo no final das contas. Soluções literárias para questões da vida real. A matéria é sobre o Maio, mas, na verdade, trata de sua morte. De sua morte miserável. Que diferença faria se a fome ou o frio ou ele mesmo a provocasse?

Bayonne, cité universitaire, 1965



— Oui, tu es  une chienne. 

"Não sabes de nada".

"Não brinque com Hans. Ele é meu amigo". 

“Estamos nos anos sessnta!"

“Não brinque com ele"

“Vamos nos casar,  e serás nossa testemunha”.

 

 

Valerie queria fazer amor com seu professor. Saboreava a intensidade desse desejo sem culpa enquanto suas amigas acendiam o baseado. Quando fez efeito passou pela sua cabeça qual seria a reação de Hans se soubesse. O desejo pelo outro não diminuía em nada seu sentimento pelo noivo. Queria estar com o professor apenas uma noite.

— Il est très beau!

As amigas acham que ela só pensa nisso.

Por que outra razão se ligaria ao movimento estudantil?, perguntou ela. E deu risada.

O professor chegou em seguida. Disse: 

—Bonjour à tous. 

Pediu desculpas pelo atraso. Tinha passado no hospital.  Seu filhinho estava  internado.

Pouco depois estavam no alojamento. Do outro lado da parede, tocava Beatles. Os outros deviam estar tagarelando well you know sobre sistema educacional, política e Vietnã; no fundo, tudo o que diziam era que Valerie tinha direito de fumar unzinho e depois fazer amor com aquele homem. 

 

 

mercredi 12 avril 2023

madrid, 1988

     Havia uma festa no pub do primeiro andar. Ele subiu outro lance de escadas com rapidez surpreendente para quem passou a noite sentado na poltrona de um trem. Quando entrou, os pés ardiam, em harmonia com o amanhecer que à janela recortava o Museu e a estação. Tirou os sapatos. A moça da limpeza passou há cinco minutos com o carrinho. As folhas do caderno em seu colo estão dobradas no canto superior, precisa comprar um novo.

    — Pensei que ele estava — disse a camareira.

    — No lo creo — respondeu a outra. —¿Por qué?

    — Parece que há um recado.

    Os olhos doíam. A cabeça. É todo dor. Seus pais tinham avisado. “Você precisa fazer uma faculdade”. Profetizavam esta ereção inútil.

    A camareira passava pelos quartos abertos recolhendo a roupa de cama. Depois pelo balcão da portaria.

    — ¡Espera! — disse o gerente.    — Te busqué por todas partes a las siete. ¿Llegaste tarde de nuevo?

    Encostada na parede, olhando para baixo, a moça murmurou: não ia acontecer de novo, é que seu filho...

    — ¡Por el amor, Isabel! No uses a tu hijo para justificarlo todo.

    — Desculpe, senhor. Não vai se repetir.

    — Espero que no. Ahora vete.

    Isabel Campos estava sentada no vestiário das funcionárias diante do armário de metal. As pontas dos pés descalços no piso frio. Soluçava quando a colega entrou.

    — ¿Por qué lloras?

    —   Não estou chorando.

    —    Apuesto que es por un hombre.

    — O único homem em minha vida é meu filho.

    A outra aproxima o rosto. Se não fosse essa lágrima, nunca veria Isabel como agora. Um rosto comum  exceto por alguma particularidade sensual que nem o porteiro da noite, apaixonado por ela desde o primeiro dia, saberia explicar.  Mas agora a colega saberia.

    Isabel tinha conseguido uma bolsa de estudos para fazer o curso de Enfermagem na Espanha; estava no último ano. A criança adiou seus planos. Seu riso triste deixava os homens indefesos. Venerava a Virgem e seus cabelos negros emolduravam-lhe o rosto evocando a própria Senhora.

    — Entonces ese es el problema.

    — Que problema, Lea?

    — Desde el padre del niño no has tenido a nadie.

    — Não

    —¿Cuánto tiempo?

    — Dez anos.

    — No estás hablando en serio

    — Estou

    — ¡Dios mio! Pero tengo la solución.

    — O que?

    — ¿Has visto al chico que ha llegado hoy?


    Na saída, Lea se encontrou com o namorado. Seguiram pela Gran Via e entraram no prédio, depois no apartamento. Mais tarde comeram iscas de fígado que ele preparou e voltaram para a cama e no dia seguinte acordaram quase meio-dia. Ela lhe contou sobre Isabel e falou do brasileiro.    O rapaz conhecia o Brasil. Passou férias lá, quando criança. Um belo país. Acaba de sair de uma ditadura. É uma nação conservadora, porém o congresso está gerando uma constituição progressista. Ela o encarou zombeteira e providenciou para que a paixão se renovasse. Gosta de homens assim: conservadores na política e progressistas na cama.

    À tardinha, quando o quarto mergulhou nas sombras, recostado na guarda da cama, ouvindo a música dos travesseiros, acendeu a arandela de cabeceira e se lembrou de crepúsculos da adolescência. De sons de dobradiças no quarto de hóspedes onde ficavam suas primas quando titia visitava mamãe. De abajures fugazes e títulos nas lombadas de livros na estante onde havia o espaço exato da capa do LP que tocava baixinho. Levantou-se, passou pela mochila, pisou o recibo no chão e olhou para a cidade. Uma estrela apareceu, imponente ou simplesmente só, em sua solidão como um sinal. O jornal sobre a cama fala da tensão em um avião sequestrado. Na copa da árvore diante da janela, o verde muito escuro retém a luz do sol imerso no abismo.  Crescem os sons de madeira que se expande e se contrai e há estalos no freezer. Voltou-se. Em torno da lâmpada, mariposas; deitou-se de novo e, com as mãos na parte de trás do pescoço, olhou-as, boquiaberto, como se visse fantasmas. Lembrou: cartas caídas no chão, recortes de jornais velhos; fotos; papéis voam da mesa e alguém exulta — um livro! O dia se esvai. Resta-lhe recolocar o coração, bem irrigado por exercícios e alimentação balanceada, a serviço do que deve perdurar. Então a moça da limpeza entrou. Os lençóis retirados da cama espalharam intensa luminosidade pelo quarto.

    O porteiro da noite entrou meia hora atrasado. Tinha dormido o dia todo. Ficará até o meio-dia. Cantarolava a música que encerrou o concerto da noite anterior. A movement is accomplished in six stages. Banda fantástica. Era como se todas as coisas boas ao longo do dia — as gorjetas, a pausa do almoço, o flerte com as hóspedes— estivessem todas ligadas aos riffs e ao delírio. Revive-os ao subir as escadas circulares. Isabel desce em sentido contrário, está saindo bem mais tarde do que o costume. Ele puxa o laço de seu avental e ela pára. Diz a ele para parar de ser criança; propôs-lhe beberem alguma coisa mais tarde. 




Piumhi, 1983

 

 

 

 

        Eu disse ao Sr. Jean: "Pai, precisamos fazer alguma coisa. Ele parece tão boa pessoa e assim vai enlouquecer". Talvez eu já estivesse apaixonada e fosse um pretexto mas talvez não e só estivesse se manifestando o forte instinto maternal que eu não imaginava viesse a ter um dia e talvez nem precisasse porque não queria ser mãe mas depois que dei à luz entendi o que significa o ditado "do homem são as disposições do coração mas Deus direciona os caminhos". Acho que o sr. Jean me atendeu porque no fundo temia que eu tivesse puxado a ele e logo sumisse no mundo e, quando me arrependesse, fosse tarde como foi para ele e acho que estar ali diante de mim de um lado e de sua noiva do outro deixava isso bem evidente e é possível que ali tivesse tido a ideia de me dar o apartamento de presente, se o que ele imaginava estivesse certo, como estava, porque tanto me segurava perto quanto protegia o patrimônio. Foi mais ou menos o que fez quando entregou a administração da fazenda ao Kleber. Acho que todo pai é assim. 


 Forasteiros na região do canyon e das cachoeiras eram sempre turistas. Quem senão os locais ou, no máximo, de Belo Horizonte, iria ali à procura de trabalho? Nos últimos anos começaram a aparecer pessoas do norte, mas eram exceção; e o que dizer de um jornalista de Ribeirão Preto? O rapaz de aparência irregular,  com um topete tipo crista amalucada, magro de ombros largos, fazia as trilhas entre as montanhas com grande desenvoltura. Num primeiro momento recusara o convite do noivo da senhora Madalena, a dona da pensão em que morava; mas duas noites depois sonhou com a filha do homem e ao acordar estava decidido e pegou o caminho dos cafezais do sul de Minas.  



Madrid, 1988

   


Estação de Atocha, Madrid pela manhã. — Por favor, ¿dónde puedo encontrar un hostel? —  En la Plaza del Emperador Carlos V, hay un hotel de toda la vida, cuyas habitaciones dan a la estación y al museo. Hay un bar cercano con abundantes raciones y buenas tapas. Tienen buenos platos combinados y camareros dispuestos. Ficou com o quarto. Naquela manhã as paredes, definidas, limitavam-no; no dia seguinte à noite, quando passou para buscar suas coisas enquanto Oleana e o outro casal esperavam embaixo, antes de acender a luz e apagando-a ao sair, a treva estenderá os limites do universo e as torneiras dos quartos vizinhos e as do andar de cima parecerão estar todas abertas.

Trovejava. Solidão. Solidão. Caminhões da prefeitura lançavam jatos de água no asfalto. No corredor do hotel,  rodinhas gemiam no piso.  Uma voz de homem entre passos diz para a camareira palavras ininteligíveis, abafadas por ecos. Enchem o quarto. Estão por toda parte. Quando era pequeno, tinha vezes que sentava no assoalho e tapava com força os ouvidos, a cabeça entre as pernas, e chorava em desespero durante um tempo enorme até que aos poucos as vozes iam se calando, como agora. É como se o carrinho  as tivesse levado. A voz no corredor se desliga dos ecos, que silenciam.


Guarda, 1988

 

A cabine solitária submerge na escuridão. O uhu do bufo atravessa a distância e noitibós imitam cigarras. Cigarras. O chamamento assobiado dos alcaravões. A propagação de um riacho. O cheiro verde das águas e as notas amadeiradas de raiz e de terra. Iluminadas por candeeiros hexagonais nos postes finos ao lado dos trilhos, casinhas de madeira nobre coroadas pelo vulto das árvores altas atrás. Camas rangendo. Armários abertos rangendo. Despertadores perto das janelas refletindo o luar. Sim, meu amor. Outra camada do tiquetaquear do trem dentro da noite. A mulher se ajoelhou no cobertor e o homem por trás segurou os seus seios. Ofegavam. O leite ondula no copo à cabeceira e pingos enchem o vidro da janela do trem e escorrem pelas pernas trêmulas.

Lisboa, 1988




DIANTE do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, evocou o dia em que conheceu Francesca, levado pela relação entre a reminiscência e os dois sóis, relacionando Francesca com sua ida de um para o outro. Na margem do Tejo, o vendedor de haxixe abordava os estrangeiros. No outro envelope, a carta de Katia falava de trabalhos e estudos em Milão, de sua vida solitária, de todo o seu tempo tomado, mas dera assim mesmo um pulo até Moscou após um giro pelas capitais da Comunidade Europeia; mais um pouco teria visto Reagan e Gorbachev. Falava. Ele podia ouvir a sua voz. Soava com a naturalidade de quem diz ter visto o crepúsculo da varanda de casa. É o mundo de camponeses e reis, dos pedestais da aristocracia feminina e ternos vagabundos sob o sol.

Os pés no rio são peixes. Gaivotas no Cais das Colunas. Um senhor as alimenta com pão. Sempre venta muito aqui. O crepúsculo avermelha os frisos molhados na pedra do piso.

Viram que ele abria a seda e pensaram em pedir. De bermuda e camisa floral, um rapaz alto e ruivo chegou a se levantar, mas desistiu ao perceber a caligrafia de Katia, inclinada e tensa de sua síndrome. Letra elegante e bonita como ela própria a se movimentar pela Praça de São Marcos entre homens ávidos, como se estivesse em Piumhi, conversando com a velha senhora que foi para ele uma segunda mãe. Carta e postal próximos como se houvesse ligação entre as ruas de café e o percurso das gôndolas.

Então se viu na carta. O papel fino o reflete contra o trânsito que flui para o Porto. Acinzentado brilho imperial cobre o casario nas ladeiras ao redor. Cheiro de vinho no ar ao de grelha e rio se mistura. Francesca na memória de sua língua. Tamborilam as águas da fonte nos ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio na esquina do paço ergue-se triste em cicatrizes e olhos duplicado ao longo da água no meio-fio. A gola azul de zuarte levantada até as orelhas. As sobrancelhas se encontram na glabela.

Ergueu os olhos. Dragas empurram as ondulações contra a superfície pétrea que margina a avenida Ribeira das Naus. A moça não sabe o que são aquelas coisas ou a sua utilidade; sua amiga ia dizer que desassoreia a via navegável e reaproveita o lodo, mas a outra ia achá-la pedante.

— Acho que tira areia do fundo do rio — disse a amiga. — Vi uma dessas em Valada do Ribatejo quando fui acampar no ano passado.

No sol, miríades de diamantes. A cidade na largura do rio. Conforme desce a noite, o tráfego na ponte aumenta — imensa lagarta iluminada. As linhas douradas na outra banda se dissiparão; mas, na perda do fulgor, as pessoas estarão em casa. Quando as luzes da cidade começam a aparecer, dizem, é a altura em que a ponte é mais bonita.

      Lisboa, repartida entre portugueses, turistas à vontade em leves roupas coloridas e negros provenientes das ex-colônias africanas (esses fazem rodinha atrás da igreja de São Domingos, logo depois da Praça da Figueira, ou defronte da estação Restauradores do metrô). A primavera traz o humor de seus dias tanto do inverno que passou quanto do verão por chegar. Estamos num desses últimos.

— Give me light? — pediu a jovem cujo vermelho da pele acusava a palidez congênita. Os mochileiros se movimentam como em uma festa íntima; sua indolência contrasta com os lisboetas fardados de sobrevivência na Praça do Comércio.

Calçou os sapatos e desceu do muro de onde sentado via os cacilheiros. Apanhou a mochila preta de poliéster e jogou as alças no ombro. Está cedendo na costura. Dá para ver uma camiseta azul desbotada e um desodorante em bastão. O ruído dos tecidos é como o chiado de um disco velho, chiado de um disco velho, chiado de um disco velho. Caminha no sentido de Santa Apolônia. À meia-noite pegará o trem para a Espanha. As semanas imediatamente anteriores não se ligam às imediatamente seguintes porque nunca teve memória ampla o bastante para lembrar fatos antigos nem esperança tão grande que compreendesse um futuro distante.

— A estação está longe, senhor?

—Ali, depois daquele prédio.

Descera da Graça para a Baixa no começo da noite anterior, quando se decidiu pela viagem. Subiu depois para o Bairro Alto. Encolheu-se sob a estátua no Largo do Camões; passou a madrugada ouvindo distantes os ecos do além em que as vozes de júbilo humano tinham se tornado. Dessa vez não é por não ter para onde ir: a pensão esta paga, com café e almoço – fica perto da praça do coreto. Há ali desde o natal uma  assim chamada "mercearia solidária” onde apanhava pacotes de bolacha que comia na descida para o centro. O bonde passava perto mas ele nunca pegava. Se era muito de manhã, a névoa espessa ocultava as placas indicativas do miradouro e da igreja. Logo ao lado do ponto de táxi havia um colorido carrossel. Faz tanto tempo, o natal e o ano novo solitário. Não era uma novidade a solidão, mas agora é diferente, agora tem alguém, que porém tem outra vida. Quem sabe encontre outra vida em Madrid. Dinheiro, tem para o trem e algumas refeições espartanas.

Ao amanhecer desceu direto para o Paço, o rio lá longe. Francesca teria de passar as festas com o marido. Num primeiro momento sentiu alívio. Ali nasceu a ideia da viagem. Os azulejos da Graça tinham virado caleidoscópios. Faz um mês que usa o mesmo tablete de ganza; diz para si mesmo “é o último” e economiza, para o caso de mudar de ideia.

Quando descia a Rua Ivens, o asfalto brilhava, mais escuro que o normal, embora ele não tivesse percebido chuva enquanto esteve no largo. O reflexo do sol o acompanhou pelas janelas desde o Teatro Nacional de São Carlos e na esquina da rua do Carmo iluminou a fachada do prédio à esquerda. No início da Rua do Alecrim, a vendedora de flores arrumava em sua banca os vasos de nêvedas e heucheras e os arranjos de miosótis e margaridas amarelas. O prédio em frente, de dois pisos, tem uma fachada feia, enegrecida. No buraco sem vidraça da última janela à direita, um pombo em círculos bicou duas vezes um papel, antes de se jogar em voo desengonçado. A corpulenta lavadeira, com imensa trouxa à cabeça, desviou-se do carro e atravessou a rua, tranquila, como se estivesse no século dezenove.

Se o olhar não estivesse impedido pelos prédios, veria duas gruas ao norte. Grupos estrangeiros começaram a financiar projetos imobiliários de todo tipo. Há condomínios de luxo para os lados do monte Estoril, mas também em Alfama e Tramela.    Os preços dispararam inclusive no Centro Histórico.  A dona de uma pensão no Camões, muito procurada por brasileiros  e angolanos, mora ali. Morava com a avó até os 21 anos, depois a aposentadoria da senhora não deu mais para pagar a casinha e tiveram de ir para a Grande Lisboa. Ela voltou;a senhora faleceu por lá. Quando o rapaz lhe perguntou como fazer para ir para Madrid, pensou em voltar para a Espanha. Tinha ficado contente porque ele lhe elogiara a voz e o sotaque.

Isso tinha sido de manhã.  Anoitecia agora. A estação apareceu ao longe. Esfriava. Ele sequer frequentou uma universidade e não faziam sentido seus escritos dispersos. Aceitou porém a encomenda do texto sobre a passagem dos vinte anos do Maio de 68 e vai entregá-lo na revista espanhola. Depois sentirá a respiração de uma mulher de fala cantada e longos cabelos negros. Pele clara, branca por assim dizer. Coxas brancas, exceto pelos arrepios e as veiazinhas entre o azul e o vermelho — sol em uma cortina de tule. Tem desejo da Espanha e das pessoas e coisas da Espanha, porque não está na Espanha.

Entrou na nave do terminal. O sol inclinado morria na fachada oeste; seus passos ecoavam na abóbada. Burburinho. Frio e fome. Sangue aquecido e preparado, grosso. Não voltará ao mundo. Não voltará. E, se não voltará, por que olha tanto para o céu e se importa tanto com a opinião das pessoas? De nada valeu a vivência, exceto para descrevê-la? Estava cansado de palavras. Não voltará. O que é o tempo? O sopro de vida lhe será tirado como esse trem da plataforma 1.

 A locomotiva resfolegava. Era um modelo alemão projetado para ter potência nos trens de passageiros (caso fosse de carga, deveria ter torque de partida).   Com lábios trêmulos chegou a dizer "Estou com frio" antes de embarcar. O homem a seu lado não estava com frio e sequer o olhou.

em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma f...