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mercredi 12 avril 2023

madrid, 1988

     Havia uma festa no pub do primeiro andar. Ele subiu outro lance de escadas com rapidez surpreendente para quem passou a noite sentado na poltrona de um trem. Quando entrou, os pés ardiam, em harmonia com o amanhecer que à janela recortava o Museu e a estação. Tirou os sapatos. A moça da limpeza passou há cinco minutos com o carrinho. As folhas do caderno em seu colo estão dobradas no canto superior, precisa comprar um novo.

    — Pensei que ele estava — disse a camareira.

    — No lo creo — respondeu a outra. —¿Por qué?

    — Parece que há um recado.

    Os olhos doíam. A cabeça. É todo dor. Seus pais tinham avisado. “Você precisa fazer uma faculdade”. Profetizavam esta ereção inútil.

    A camareira passava pelos quartos abertos recolhendo a roupa de cama. Depois pelo balcão da portaria.

    — ¡Espera! — disse o gerente.    — Te busqué por todas partes a las siete. ¿Llegaste tarde de nuevo?

    Encostada na parede, olhando para baixo, a moça murmurou: não ia acontecer de novo, é que seu filho...

    — ¡Por el amor, Isabel! No uses a tu hijo para justificarlo todo.

    — Desculpe, senhor. Não vai se repetir.

    — Espero que no. Ahora vete.

    Isabel Campos estava sentada no vestiário das funcionárias diante do armário de metal. As pontas dos pés descalços no piso frio. Soluçava quando a colega entrou.

    — ¿Por qué lloras?

    —   Não estou chorando.

    —    Apuesto que es por un hombre.

    — O único homem em minha vida é meu filho.

    A outra aproxima o rosto. Se não fosse essa lágrima, nunca veria Isabel como agora. Um rosto comum  exceto por alguma particularidade sensual que nem o porteiro da noite, apaixonado por ela desde o primeiro dia, saberia explicar.  Mas agora a colega saberia.

    Isabel tinha conseguido uma bolsa de estudos para fazer o curso de Enfermagem na Espanha; estava no último ano. A criança adiou seus planos. Seu riso triste deixava os homens indefesos. Venerava a Virgem e seus cabelos negros emolduravam-lhe o rosto evocando a própria Senhora.

    — Entonces ese es el problema.

    — Que problema, Lea?

    — Desde el padre del niño no has tenido a nadie.

    — Não

    —¿Cuánto tiempo?

    — Dez anos.

    — No estás hablando en serio

    — Estou

    — ¡Dios mio! Pero tengo la solución.

    — O que?

    — ¿Has visto al chico que ha llegado hoy?


    Na saída, Lea se encontrou com o namorado. Seguiram pela Gran Via e entraram no prédio, depois no apartamento. Mais tarde comeram iscas de fígado que ele preparou e voltaram para a cama e no dia seguinte acordaram quase meio-dia. Ela lhe contou sobre Isabel e falou do brasileiro.    O rapaz conhecia o Brasil. Passou férias lá, quando criança. Um belo país. Acaba de sair de uma ditadura. É uma nação conservadora, porém o congresso está gerando uma constituição progressista. Ela o encarou zombeteira e providenciou para que a paixão se renovasse. Gosta de homens assim: conservadores na política e progressistas na cama.

    À tardinha, quando o quarto mergulhou nas sombras, recostado na guarda da cama, ouvindo a música dos travesseiros, acendeu a arandela de cabeceira e se lembrou de crepúsculos da adolescência. De sons de dobradiças no quarto de hóspedes onde ficavam suas primas quando titia visitava mamãe. De abajures fugazes e títulos nas lombadas de livros na estante onde havia o espaço exato da capa do LP que tocava baixinho. Levantou-se, passou pela mochila, pisou o recibo no chão e olhou para a cidade. Uma estrela apareceu, imponente ou simplesmente só, em sua solidão como um sinal. O jornal sobre a cama fala da tensão em um avião sequestrado. Na copa da árvore diante da janela, o verde muito escuro retém a luz do sol imerso no abismo.  Crescem os sons de madeira que se expande e se contrai e há estalos no freezer. Voltou-se. Em torno da lâmpada, mariposas; deitou-se de novo e, com as mãos na parte de trás do pescoço, olhou-as, boquiaberto, como se visse fantasmas. Lembrou: cartas caídas no chão, recortes de jornais velhos; fotos; papéis voam da mesa e alguém exulta — um livro! O dia se esvai. Resta-lhe recolocar o coração, bem irrigado por exercícios e alimentação balanceada, a serviço do que deve perdurar. Então a moça da limpeza entrou. Os lençóis retirados da cama espalharam intensa luminosidade pelo quarto.

    O porteiro da noite entrou meia hora atrasado. Tinha dormido o dia todo. Ficará até o meio-dia. Cantarolava a música que encerrou o concerto da noite anterior. A movement is accomplished in six stages. Banda fantástica. Era como se todas as coisas boas ao longo do dia — as gorjetas, a pausa do almoço, o flerte com as hóspedes— estivessem todas ligadas aos riffs e ao delírio. Revive-os ao subir as escadas circulares. Isabel desce em sentido contrário, está saindo bem mais tarde do que o costume. Ele puxa o laço de seu avental e ela pára. Diz a ele para parar de ser criança; propôs-lhe beberem alguma coisa mais tarde. 




em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma f...