Há em Madrid uma feirinha de livros permanente a céu aberto. No espaço de duzentos metros há não menos que trinta tendas, cada qual com centenas de títulos em seu catálogo. Em abril, quando o calor ensaia voltar, voltam os usuários de verão, turistas e estudantes, atrás de livros baratos, usados ou esgotados em outras livrarias. Em volta das casetas há carvalhos, álamos brancos e o típico madroño. Uma das tendas é gerenciada por um argentino, homem forte e grisalho, olhos pretos, voz firme de quem sabe o que está falando. Há quatro anos seu estande tem agua, luz e telefone; ele vai para casa perto da meia-noite unicamente para dormir. Volta no dia seguinte cedo.
Naquela manhã, rapazes e moças com folhetos se aproximaram e quem estava feliz com a descoberta do lugar agora terá de escutar a velha conversa religiosa. Uma das moças olhou para o livreiro por cima do ombro de seu par de pregação. Disse, com um movimento labial:
Está en ese bar en la plaza. O homem virou o rosto e olhou e fez sinal de afirmativo.
Por um momento, quando olhava sem ver os prédios da avenida, acreditou que a falta de ar fazia parte de um sofisticado processo de redenção.
—¿Desea algo más?
Olhou para cima com uma expressão estúpida. Contou mentalmente as pesetas. Dava para mais uma xícara. A garçonete com cara de poucos amigos anotava num bloquinho. Ao se levantar, disse ao proprietário impassível, com sinais, que ia usar o toilete. Lá dentro sentiu-se bem. Ouvia distante o burburinho, não mais perturbador. As frases, embora mais baixas, eram discerníveis como antes não eram. O cheiro de creolina perdeu a conotação negativa guardada na memória. Ao sair, tocado de leve pelo sol da vidraça, com a letra do nome do bar escrita na testa, esbarrou em uma mesa. Quando pagava, o homem fez uma piada racista, relacionando pesetas e cruzados. Andrei jogou as moedas no balcão e saiu.

Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire