Para quem vem do mercado da bastilha, depois do museu dos arquivos seguindo para leste há um beco que começa no fim da rue Beaubourg. Em 1629 ali foi encenada a Melite, de Corneille. Caso uma mulher com indice de massa corporal de 60 precise ajudar nesse lugar um homem todo machucado (ele pesa 73 quilos) quando o café quase de esquina por alguma razão estiver fechado, mais ou menos diante das pichações na porta roll-up ao fundo, colocará o braço direito dele sobre o próprio ombro (de súbito firme como ombros maternos) e, sem que nenhuma das pessoas que testemunharam o vômito do rapaz prestasse atenção neles, ela o apoiará até a estação Arts et Métiers, onde é mais fácil pegar um taxi. A chuva os apanharia antes entrarem no carro e entrariam no apartamento encharcados.
Logo na entrada, à direita, se via o banheiro. Os azulejos eram novos, azulados, em forma de concha; reluziam como pedras molhadas. Acima do lugar em que Beatrice se descalçou, imitada por Andrei, empoçando o tapete, estavam penduradas duas blusas pesadas, de cor indefinida por causa da penumbra, com os respectivos cachecóis. As roupas nos corpos estavam agora envolvidas em úmida transparência. Havia na inclinação do teto um armário com as portas mal fechadas, onde ela guardava a mala da maternidade, roupinhas de bebê e algumas fotos. Embaixo, num canto, um colchonete enrolado, uma caixa com toucas e pantufas e outra com calçados, todos do tamanho semelhante ao que a mulher usava. Ela tocou o interruptor e houve um clarão; a seguir tudo escureceu novamente e um fantasma surgiu onde ela deveria estar. A luz que a aureolava era da mesma espécie que entrava pelo vitral do templo quando ele pediu licença e, como então, a penumbra anterior realçava um brilho que preenchia todos os sentidos e os transcendia.
Ela o ajudou a sentar-se na poltrona, segurando-o pelas axilas. Misturado à claridade vinda da janela , o tecido do forro parecia mais fino e confortável do que de fato era. Era um canto do ambiente arranjado como sala no ambiente único que compreendia também a cozinha, ou pelo menos onde estava o fogão e a pia , e o escritório, ou pelo menos onde estava uma mesa com papéis e cadernetas. O proprio quarto poderia ser incluido nesse ambiente pois a entrada nao tinha porta. Mal sentou-se, ele recostou a cabeça e fechou os olhos; ela pediu para ele esperar um instantinho, voltaria em seguida. No banheiro, com dedos hábeis, apanhou a gaze e o esparadrapo numa caixa verde e os vidrinhos de soro fisiológico e solução antissética no armarinho; depois voltou para a sala e sentou ao lado do rapaz no outro lugar da poltrona .Ao encostar a gaze umedecida na ferida do braço direito , olhou para a reação de dor com a qual mediu a pressão a aplicar. Ao voltar para a pia do banheiro para lavar as mãos, olhou como que hipnoztizada para as palmas vermelhas. Pegou um copo no armario, encheu, destacou um antiinflamatorio da cartela e retornou à sala. Ao ver que deixara a bolsa com os cartões sobre a mesinha de centro, respirou fundo. A cortina que nao chegava a ocultar a janela alta voltada para a rua estava incendiada de arrebol e tremulava. Como ele estava se sentindo? - ela perguntou.
Antes de qualquer coisa, ele precisava usar o banheiro.
Ela disse que ficasse à vontade; “mas por favor não tranque", disse.
Ao fechar a porta, ele finalmente conseguiu respirar. Abaixou a tampa do vaso, sentou-se e tirou os sapatos. Tinha o olhar do qual ela pensara mais tarde que não fazia questão de ocultar seus desejos como se sempre fossem desejos legitimos ainda que ele proprio nao tivesse certeza.
Ao sair encontrou Beatrice na varanda, inclinada no garde-corps, concedendo à sala impensáveis proporções e simetria. Lá no fundo, no retângulo da janela do quarto, entre as folhagens das árvores da praça, brilhava a lâmpada de um poste solitário qual lua amarelada entre estrelas de folha. Lá embaixo passava um homem cabisbaixo se afastando entre o poste e a árvore.
“Estou aqui”, disse ela, e perguntou como ele estava se sentindo. Apenas a palavra errada e tudo morreria. Ele diz que vai sobreviver. Só precisa de um banho. A manteiga de cacau nos labios da mulher produz um reflexo insistente que acompanhava a atencao do rapaz para onde quer que ele olhasse.
— Acho que o Tomás deixou uma muda de roupa. Vou ver.
Abrindo as gavetas descobriu que o tempo havia pesado sobre seus antigos sonhos e na verdade os sonhos nao tinham mais qualquer importância para ela exceto como referencia de epocas e idades. Voltou com dois lençóis dobrados em oito e uma coberta de lã estampada. Um pijama em cima.
— Não há outro quarto além do meu, Andrei e nao seria apropriado eu lhe dar a minha cama. Mas vou estender um colchonete nesse canto e acho que voce ficara confortavel.
Colocou tudo sobre a poltrona e caminhou na direcao da porta, detendo-se diante do armario e dos agasalhos pendurados. Sentado novamente no mesmo lugar da poltrona ele a viu voltar com o colchonete debaixo do braco, olhando-o com um tipo de ternura a que definitivaente nao estava mais acostumado. Ele apoiou os cotovelos nas coxas e colocou a cabeça entre as mãos.
– Você precisa se deitar. Vou estender a roupa de cama.
– Preciso mesmo tomar um banho, senhora.
– Vai sobreviver se deitar sem banho.
– Desculpe, senhora. Realmente preciso.
– Está bem. Venha.
Em alguns momentos da vida as motivações deixam de importar porque a partir de certas circunstancias as palavras apenas se adaptam às vontades.
– Olha aqui. Conforme se abre mais a torneira, a ducha fica menos quente. No armário tem toalhas e chinelos. Por favor nao tranque a porta.
Quando aparecer d volta na sala ele será uma figura ridícula, as mangas compridas da blusa quase no cotovelo, a calça pescando siri e calçando chinelos rosa com bandeirinha da França.
— Andrei? vou pegar alguma coisa minha para você vestir. O pijama é pequeno. Tome. Troque-se no meu quarto. É meu moletom de jogging, é unisex. Vou tomar uma ducha também. Fique à vontade mas não se movimente demais.
Entrou no box ainda vestida, para experimentar a água; tornou a fechar a torneira. Soltou os cabelos e tirou a roupa. Era como se visse o rapaz na sala, como se ele estivesse diante dela. Esteve ali durante todo o banho. Há quanto tempo estava junto dela esse que não parecia sequer existir e agora tem um rosto? Que virtude tem para receber esse rosto? Sequer tentou dissimular suas falhas de caráter. Suas roupas penduradas no varão do box não estavam mal-cheirosas, para quem tem uma história dessas. Eram roupas decentes, tinham os vincos de fábrica, extensões das rugas de expressão que fez ao entrar no banheiro. Não é um canalha; no entanto, não tem um mínimo de condições para se tornar um homem de bem, para se tornar um homem. Qual é a sua história, qual a história de sua família, por que chegou a esse ponto? Balançou a cabeça e os cabelos lhe caíram pelos ombros. Tirou o anel e tornou a ligar o chuveiro; suspirou e entrou sob a ducha.
Ele entrou com ela, solitário, perdido, vulnerável e todavia portador de tamanha coragem. Um homem. Falta-lhe pouca coisa, uma única. Trabalho. Voltou ao próprio corpo, às suas inseguranças. Às estrias que acaricia, aos dedos dos pés, desproporcionais, a cicatriz na barriga, os solavancos nas curvas, o vão entre os joelhos. Mordeu a esponja para ter as mãos livres; prendeu os cabelos e a seguir passou a esponja atrás do pescoço. Demorou um tempinho até que a gota de shampoo caísse. Espalhou-a pelos cabelos molhados. Apanhou a toalha pendurada junto às roupas dele, colocou-a na cabeça como um turbante, pegou o roupão sobre a pia e colocou-o. Olhou-se no espelho com um olhar que não reconheceu e saiu do banheiro.
O raṕaz tinha se trocado e voltara ao lugar de sempre na poltrona de dois lugares. Ela passou por ele sem olhá-lo. Lendo ou pretendendo ler, sobre algumas outras folhas, uma folha datilografada, ele não a olhou. Ela entrou no quarto. A disposição das coisas parecia diferente. Pela janela os telhados das casas vizinhas, dos quais sequer lembrava a cor, mostravam-se em detalhes: as placas de zinco, as chaminés semelhantes a potes de cerâmica ocre, esculturas de ouro, as torres, os bulbos, as cúpulas, os telhados de telha e ardósia mais abaixo do nível desse mar antes pontiagudo e bravio que a paisagem haussmaniana acalma. Trocou-se.
A saleta era contígua ao quarto e os ambientes divididos por uma parede fina em que havia uma janela interior, agora sobre suas cabeças: ela no quarto, sentada na cama, calçando as sapatilhas, ele na suposta saleta, lendo no sofá, ouve o barulho de um secador de cabelos. Ela levantou-se e se olhou no espelho. Seu pijama era discreto, de malha marrom-claro com listras brancas fininhas. Não sem antes certificar-se de que o jogging coubera, assim que saiu do quarto, ela disse “Então, como você está?” e sentou-se ao lado dele.
—Estou bem, obrigado. A senhora não vai abrir a encomenda de Isabelle?
Com tudo que aconteceu ela acabou esquecendo. Pegou o embrulho, abriu a caixa e em meio aos sons quebradiços do papier bulle retirou alguns bichos de porcelana. — Ow! — exclamou e, conforme ia retirando o conteúdo, explicava por que pedira isso a Isabelle, quando foi a Madrid certa vez tinha visto, em Paris não há nada desse tipo, não igual. Diante deles havia uma mesinha de centro baixa, retangular, onde colocara a caixa; agora coloca ali, no espaço esvaziado, as próprias peças. Eram figuras animais de safari, um urso panda e um tigre; havia também a miniatura de uma paisagem de musgo e um jardim de fadas, A mulher afundou as mãos e pegou o envelope. Seus olhos brilharam num instante transformados nos olhos maternos. Seus seios logo satisfarão a pequena Isabelle. Explorou cada um dos bibelôs e quinquilharias com os dedos, lentamente, emitindo sons ininteligíveis com os sorrisos. Quando terminou, apertou a caixa junto ao peito e aproximou o rosto.
— Allons à la cuisine — disse
— Vou arrumar as coisas e fazer teu sanduiche.
Ele calou dentro de si a pergunta. Ela não tinha dito que ele poderia passar a noite?
O que ela chamava de cozinha fazia parte do mesmo ambiente, separada da sala por um balcão, encostado à parede, na direção do qual ela caminha. Seu porte em casa é como num salão de festas. Empresta solenidade ao simples ato de apanhar na sacola as frutas amassadas no assalto ou colocar as cauxas de cereal no alto do armário. De um lado da bancada divisória ha uma porta de correr e do outro duas prateleiras com louça. O modo como segura os potes passa segurança sem perder a graça. Ainda sai de uma das sacolas o acorde de pão quente. E essa blusa jogada no meio da casa?
— Oh mon Dieu, je suis désolé pour la zaragata.
— “Zaragata”?
— O pai de Isabelle costumava dizer. “Désordonné".
—Ele morreu?
— Il y a longtemps. Isabelle nem tinha nascido ainda. Nunca moramos juntos.
Sobrepõe o abrigo, que comprara na ida para a igreja, na blusa que ela própria vestia. Comprou para a filha. Mas Isabelle é jovem e tem postura, nunca reclamou de dor nas costas; suas pernas são firmes e o arco ela não herdou; porém as pernas de Beatrice são também bem torneadas pelos agachamentos na oficina. Ela caminha, nessas pernas, em torno da mesinha azul de madeira. Quando senta, as mãos ficam próximas das mãos de Andrei. Ele brinca com o garfo, ela segura com dois dedos da mão esquerda a taça de vinho, a direita segura o joelho esquerdo. Leva a taça à boca.; ato contínuo, espalma a mão para frente. De súbito, levanta-se e se aproxima dele.
— Seu olho está inchado. Deixe-me fazer uma compressa
— Não precisa se incomodar.
— E está com um corte na cabeça. Olhe, um galo enorme. Vou fazer um curativo.
Ela escutou "obrigado" em meio a um suspiro.
Depois de guardar as outras coisas, restou a rosa sobre a mesa. Vermelha e aveludada, translúcida, em uma embalagem de celofane. Suas pétalas respiravam conforme o movimento modificava a luz embora parecesse que ela própria a propagava. Discretamente inclinada, de pé diante dele, na pequena abertura entre seus joelhos, ela fez o curativo, bebericando da taça sobre a mesa. Apanhou a flor e colocou-a num vaso de porcelana, com os Vosges pintados perto da borda. Levou o vaso até a janela e colocou-o no parapeito, largo, quase uma sacada. Andrei a seguiu e se debruçou no garde-corps. Além dos telhados, na copa de uma árvore, folhas tremulavam, muito verdes e pequeninas. Ela conferiu o resultado do curativo depois disse:
— Vou pegar a garrafa. Tinha esquecido como este vinho branco da Alsácia é maravilhoso. Você realmente não quer me acompanhar?
— Melhor não — disse ele Então apontou para a árvore na janela e perguntou — É um castanheiro?
Ela acha que sim. Pelo menos se parece com um castanheiro. Sim, a janela do andar de baixo está bem próxima da praça. Ela acha que que sim, alguém se quisesse poderia subir escalando a porta da sorveteria. Mas esse tipo de coisa não acontece por aqui. Bem, pode acontecer, mas não seria comum.
Ele devia estar pensando “casa de ferreiro, espeto de pau”, comentou ela, rindo quando, passando de novo em frente à janela, viu a abertura gueule de loup danificada. Ele sorriu de leve e respondeu que nem sabe o que é isso. Agora ela se inclina para tocar o parafuso de cremona, acariciando o metal onde o branco estava riscado. O início dos seios casualmente alongou a abertura do pijama no pescoço. A esse movimento se seguiu um outro, acompanhado de um olhar baixo e envergonhado.
— Preciso ir — disse ele
— Il est tard — disse ela. — Além disso, as roupas molhadas vao fazer as outras roupas cheirarem.
Aliviado, ele disse: — Faz parte. Já aconteceu antes.
— Durma aqui — disse ela, inclinando-se a seu lado, cuidadosamente. Ele não a olhou. —Vá amanhã
Ele não respondeu. Talvez tenha sorrido.
— Andrei — disse ela. — Eu só quero que você fique bem
— Vou ficar, graças à senhora.
— De certo modo, estou lisonjeada.
— Se me permite, deixe-me experimentar o vinho.
— Tive a primeira crise antes da panha, quando ainda trabalhava em um jornal de outra cidade. Nunca tinha trabalhado no meio das pessoas. Trabalhara no telex, com redação, revisão, sempre em ambientes isolados, e um dia me mudaram para a reportagem. Quando entrei na redação, foi como se tivesse saído do corpo e visse a mim mesmo, paralisado e oprimido, entre a multidão de pessoas alegres, sagazes e barulhentas. Suava, o coração disparado, as mãos geladas. Tinha certeza de que estava a ponto de ter um infarto ou desmaiar ou ter uma convulsão. Tinha uma colega que trabalhava na prancheta em frente à minha no past-up, onde eu fazia horas extras. Ela trabalhava em pé, de costas para mim. Eu sequer a olhava, mas não adiantava. Naquele dia, eu entrei transtornado, mal a cumprimentei, fui para o meu lugar e fiquei ali, com os sintomas. Não conseguia respirar, não conseguia me manter de pé, parecia que meus joelhos iriam dobrar a qualquer momento. Náusea e muita dor no estômago. Os músculos entrelaçados nos nervos, os ombros retesados, palpitação, sensação de desmaio, de morte. Como eu trabalhava em pé, era constrangedor.
—Certamente tem a ver com o fluxo sanguíneo. Atualmente há pesquisas com inibidores da enzima da síntese de óxido nítrico. A força de cisalhamento desenvolvida pelo fluxo sanguíneo é um estímulo fisiológico para a vasodilatação dependente do endotélio.
— O que significa?
— Talvez seja uma compensação natural para a pressão alta. Parece que você é muito tenso e provavelmente hipertenso ou a caminho de se tornar um. Estresse é o pior veneno. Tambem precisa parar de fumar e diminuir o sal da alimentação, o açúcar também. Sorte você caminhar tanto, por isso não está pior. Não é normal na sua idade.
—O que?
—pressão alta.
—a senhora é médica
—não concluí o curso. voce foi a um medico?
—sim
—ele receitou alguma coisa?
—diazepan.
—diazepan?
—sim
—vc tomou?
—parei.
depois de quanto tempo?
—um tempo
— Mas tomou.
— Sim
— E parou por que?
— bem...
— entendi
— nao tomo remedio. nao gosto.
— considere se as crises não sao sindrome de abstinencia.
— Do diazepam? Foi tão pouco e tão pouco tempo.
Quanto tempo.
Para falar a verdade, minha avo e minha mae tomavam e eu tinha acesso facil. Mas nunca abusei.
— Benzodiazepínico, Andrei. A mais traiçoeira das drogas. então?
— Então?
— O que aconteceu depois?
— Quando?
Na prancheta.
Ah. Não estava frio mas fiquei de japona. Em algum momento fui ao banheiro. Depois o ar voltou, fiquei calmo, conversei um tempão com a moça, rimos, nos dias seguintes saímos juntos e quando fui para a roça estávamos namorando.
—Voltou a vê-la ?
— Não.
— Sente saudades ?
—Mal a conhecia.
— Pas même au sens biblique ?
—Mal a conhecia.
— não é preciso conhecer bem uma pessoa para sentir saudades.
Estavam agora de novo sentados na poltrona. — andrei. você está tremendo.
— Se a senhora estiver certa, é sintoma comum em abstinências.
— inspire pelo nariz e segure pelo mesmo tempo que você levou inspirando, depois solte durante esse mesmo tempo. Talvez fosse bom você fazer uns exames para descartarctar alguma coisa no coração. Posso te levar, se quiser.
O que tiver que ser será.
Tb sou contra o médico ir a medico por qualquer coisa, mas a surra que você levou não foi qualquer coisa.
Foi por uma boa causa. A senhora é um anjo
Não exatamente. E você foi quem foi o meu anjo hoje; estou muito agradecida;não sabemos o que poderia ter acontecido. Paris está ficando estranha. quando eu cheguei aqui, isso seria impensável um assalto assim em pleno Marais. Ainda dói?
— Um pouco onde chutaram.
— vou buscar uma pomada.
— Não precisa.
—Precisa sim.
— Deita aqui nessas almofadas. Melhora?
—Na verdade dói um pouco quando aperta
—É o esperado. Com licença, vou tirar suas meias.
—Fique à vontade.
—E o braço está ficando inchado. Por Deus, Andrei. Você está mesmo bem? Olhe os músculos de seu ombro estão pura pedra.
— O que é isso, senhora?
— É um tipo de massagem. Acupression. Respire, andrei.
—É mesmo muito bom.
—Que bom. Descansa, então. Deita na minha cama.Vou terminar um trabalho.
— Onde?
— Na escrivaninha aolado da cama.
— Que tipo de trabalho?
—Revisão de umas peças.
— Estão aqui?
— Claro que não, seu bobo! Ver no computador.
— Sério? Peças que estão na oficina?
— Sim.
— Os computadores do jornal onde eu trabalhava não eram nem parecidos.
— É um Amiga 500. Parecido com o Commodore 64 e com o Apple II, mas melhor e mais rápido. CPU de 32 bits e 7 MHz de velocidade. Tem 512 KB de RAM, suporte a mais de 4096 cores e um drive de disquete interno de 3,5 polegadas.
— Muito caro?
— Não sou rica, Andrei. Trabalho muito.
— Que tipo de peças vai revisar?
— Dá para ver daí?
— Dá. O que é?
— é o teto da parte de uma cristaleira onde vai o espelho.
— Rachou.
— Em dois lugares.
— É só colar.
— Não é bem assim. Ao colocar o serre joint, uma das partes levanta, está vendo?
— Sim. Se colocar um grampo na outra extremidade não cola?
— Colar, cola. Mas cola empenado.
— Então precisa fazer algum tipo de cálculo no computador?
— Não chega a tanto. A gente pega uma madeirinha, prende com um grampo de cima para baixo (não lateralmente, como o grampo-sargento), depois faz o mesmo do outro lado da rachadura.
— Entendi! Fica retinho…
— Oui.
— Que legal. Mas por que o computador?
— Por causa da cor. Essa peça sofreu o que chamamos de “fingimento”. É pinho mas sofreu fingimento para passar por mogno. Então, antes de envernizar, preciso homogeneizar o móvel, envelhece-lo, para não haver diferenças. E para isso, sim, faço cálculos de envelhecimento.
— O que vai usar?
— Dependendo desses cálculos de que falei, betume, com mais ou menos thinner, ou extrato de nogueira, ou hidroasfalto. Você está bem?
— dói um pouco onde chutaram.
— Se a senhora não se importa, se vou mesmo pernoitar aqui, vou tentar cochilar um pouco agora.
— Tudo bem. Qualquer coisa me chama.
Estavam espalhadas sobre a escrivaninha algumas folhas em branco e um tinteiro. Ela puxou a cadeiraderodinhas, sentou-se, apanhou a caneta e mergulhou a pena no jarro de peltre. Andrei tinha fechado os olhos e procurava na almofada uma posição para a cabeça. Ao adormecer, ouvia o ruido de papel amassado e jogado no cesto. A contração involuntária das pálpebras não se refletiu no semblante quando o telefone cinza tocou alto e ela atendeu rapidamente.
— Non.
— Toujours pas.
— trois jours maintenant
— Merci. Au revoir.
Ele esteve perto de chorar. Esticou os braços e olhou as mãos. Era um tremor apenas interno, imperceptível. Agora não poderia lançar mao da solucao facil mais do que nunca paliativa. Acabou adormecendo. Aqui e ali ouviam-se sirenes que dobravam a ruela pela qual tinham chegado. Depois a porta de entrada do predio se abria para vizinhos gracas a Deus sem rosto. Entravam ou saiam e logo desapareciam no subito silencio de seus apartamentos ou se misturavam ao burburinho da praça. Correndo apos o quique de uma bola, a crianca de repente parou e ficou rindo por muitos segundos antes que o pai chegasse e dissesse "Mon fils, Je t'ai dit"... Esteve um tempo enorme de olhos fechados ouvindo as vozes da praça e os cantos de um e outro pássaro na árvore em frente. Depois de uma ambulância ao longe, os passos sairam da calcada e pisaram consistentemente a terra — se bem lembrava, era um espaco em torno da outra arvore, a mais proxima da janela, o castanheiro, como haviam concordado chamar. Ouviu castelhanos cantados, frances de biquinho; elegante acento britanico de quando em quando se intrometia nos registros. Alargou-se discretamente na cama.
Nesa hora nos cafes de Lisboa se escutavam tilintares descascando o burburinho e risadas eternas como marolas lamacentas contra a consciência do sem-teto; mas agora ele foi honrado como hospede e as conversas da praca vao se tornando familiares como as vozes de amigos em uma festa abordam assuntos dos quais ja se esta ciente. à vontade deslizava pelos sons, como se a sua respiração habitasse o mesmo universo, e na verdade habitava. A dor é não mais que uma consciência. Quando adormecera com tamanha paz no ultimo ano ou talvez ao longo de toda a vida?
Quando abriu os olhos, solas brancas e cascudinhass de pes dobradas sob o assento da cadeira, conforme a luz do sol arrefecia na janela e um possivel raio de luar se imiscuia para ocupar o mesmo espaco, tornavam-se rosadas e a curva dos dedos se avermelhava. Chegara a se esquecer de que a mulher continuava trabalhando, a poucos metros e, segundo o largo raio de luar que agora entra no aposento, a casa do ultimo botao realmente estava com defeito. O vulto na parede acompanhava e aumentava no sentido do teto os movimentos da generosa cabeça. Eram duas na verdade as sombras da mulher, uma projetada pela lua e outra por uma luminária sobre a mesa. As luzes tambem se encontravam em seus cabelos, realçando-lhes a textura, e na penugem das alvas mãos sobre o moderno teclado M F1 XT.
— Olá, nem percebi que tinhas acordado. Tudo bem?
—sim.
— tem certeza, parecia realmentemalagora há pouco.
— sim, estou bem, senhora, obrigado.
— Bem até demais, parece…
—Obrigado por tudo, senhora. vou para a estação
—Desculpe Andrei, foi um comentário infeliz.
—Estou realmente bem, por isso vou. Obrigado por tudo.
—deixe de ser criança, não pode ir assim
—já passa
—quero dizer todo machucado e sem dormir
—amanhã ainda estarei machucado. dormirei no trem.
—afinal resolvi um problema e criei outro
—desculpe.
— Posso resolver também esse outro?
—Como assim?
—resolver. devo-lhe isso.
—não me deve nada
—posso?
—o que?
—Não seja sonso.
— Não seria boa ideia.
— acho que seria sim.
— Melhor não senhora
— Na verdade nem sei se posso fazer isso.
— Não precisa fazer.
— Você não pode viajar assim
— A senhora disse que eu poderia dormir aqui
— Não vai dormir assim
— Já passa.
— Tadinho, não tem descanso.
— Senhora…
—Psiu…
—senhora, por favor
— Respire…
— Assim vai demorar.
— Está com pressa?
— Falei pela senhora.
—Sempre demora?
— Às vezes
— Ok, Take your time
—a senhora tem uma tatuagem
— C'est tena.
—o que é?
—tatuagem temporária.
— é um cachorrinho?
—sim.
—teve um cachorro?
—até hoje nao
—a senhora é uma mulher maravilhosa
—Não vai acontecer nada além disso, Andrei.
— pelo menos desabotoe a blusa.
—Ajuda?
—Sim
— Só um botão
— Mais unzinho.
— Non. Desole
—Por favor...
— d'accord
— Por que não tira?
— Está se aproveitando
— por favor.
— Está bem.
—obrigado
—assim está bom?
—mais depressa um pouco
—assim?
— Um pouco mais.
—assim?
— Mais um pouquinho.
— Não quero te machucar.
— de outro jeito não machuca
—Nao compreendo.
—Deixa pra la
—Que jeito?
—Esquece.
—Oh no! Mon Dieu... Não seria apropriado.
—Eu sei, desculpe.
—Eu nem teria coragem.
—Esquece, senhora.
— Sei que vou me arrepender.
— certamente, senhora, e eu também. me perdoe por ter dito isso.
— daqui a vinte anos não fará diferença.
— senhora…
—Mas nao me toque. Teu romance é sobre o quê?
— Eu te disse.
— Conte-me de novo.
— Agora?
— Sim. .
— Bem...
— Conte...
— Em uma manhã de agosto, um rapaz estava à beira do rio Tejo com os pés imersos na água.
— Fazia calor?
— Muito.
— Por que estava ali?
— Tinha recebido um postal do Brasil e uma carta da Italia e estava lendo.
— Continue...
— Não posso...
— Precisa continuar ou ficarei muito constrangida.
— À noite ele iria para Madrid.
— Onde ele estava?
— No Cais das Colunas.
—Para onde olhava?
—Olhou para os pés imersos e viu que pareciam dois peixes.
— Onde ele passou a noite?
— Na rua. Nas ruas do bairro Alto de Lisboa.
— Como é Lisboa de madrugada?
— Tem o vozerio das mesas na rua e a ladainha dos bêbados e o canto do oiseau de nuit às três e meia da manhã.
— Oiseau du nuit...
— Não tem em Paris?
— Tem. Conheço como grive-solitarie, ou tordo-eremita. Sua série harmonica, como a humana, decorre de uma nota básica a que se seguem notas que aumentam de tom com base em múltiplos inteiros da nota original.“Tuck”, “wuck”, “chuk”, “chup”, “choop”. Mas boa parte do tempo é só "prrrrt".
— Como?
— Prrrrt...
— hahaha…
—se voce ficar rindo vai demorar mais.
—desculpe.
— tudo bem
—é melhor parar mesmo.
—E depois?
—Depois?
—Ele foi para onde?
—Santa Apolonia.
—uma igreja?
—a estação
—pq?
—Á meia-noite ia pegar o trem para a Espanha.
— Demora ainda?
— É um romance.
— Não me referi ao livro.
Deixe que eu termino.
— não ne importo de terminar, só perguntei.
— tire a calça que eu termino
—Non.
— só para eu terminar,
—Désolé
—rapidinho.
— Ce ne serait pas approprié.
— Tem razão.
— tu es vraiment un manipulateur.
— Agora vire
— Prometeste...
— So toquei no fecho.
— nao imaginei que eras assim.
— Ponha as mãos na cabeça.
— Já te disse que…
— Não vai acontecer nada além disso
— Sim
— eu ouvi.
— Que bom que ouviu.
— A senhora é maravilhosa.
— Obrigado
— Preocupou-se comigo, cuidou de mim.
— Voce merece. É um bom rapaz. Só precisa parar.
— outro dia me disseram isso.
—Deus usando pessoas
—o que será de mim?
—você é jovem, vai se curar,.
—estou cansado de tudo isso.
—se quiser, pode ficar. pode trabalhar comigo.
—não posso, senhora.
—por que?
— Não disse que você podia desvirar.
— Desculpe.
— Só por essa vez.
— Fique, Andrei
— Realmente não posso, senhora.
— Terminou?
— deixa só um pouquinho
— Não.
—por favor.
—tudo bem. Só o necessário.
— oi?
—Eu disse tudo bem.
—śerio?
—Anda logo antes que eu me arrependa.
— nao.
— Ah meu Deus, Andrei!
— é errado.
— sim, muito errado.
— me perdoe ter pedido.
— está perdoado
— obrigado
— Posso desvirar entao?
— Desvire.
— Deixe-me terminar.
— Termine.
— Só prometa que não vai me tocar.
— Já prometi.
—não sei se cumpriu.
—Por que não podemos fazer direito?
— não seria direito.
— isso também não é.
— isso eu posso fazer para te aliviar.
— Não faz muito sentido, senhora.
— É o que temos para hoje, rapaz.
— Está bem.
—Se ficar, posso acordá-lo assim para sempre.
—Não posso.
—Nunca mais teria esse problema
—Seria uma honra, mas não posso
—Não quer.
—Acabamos de nos conhecer.
— Oui. Somos duas pessoas livres que acabaram de se conhecer. Ao contrário de voce e Francesca, por exemplo.
—De certa forma me tornei responsável por ela.
—E Blandine?
—Falo demais.
— Desculpe.
— Tudo bem.
—Olhe para mim, andrei. Sério, me perdoe. Perdi o timing.
—Não há nada a perdoar
—Deixe-me continuar.
—Não precisa.
— deixa de ser bobo
—Vou me arrumar.
— Je suis désolé, Andrei. De verdade,.
— Vou ficar bem.
—Deves ter uma impressão péssima de mim.
—Jamais me esquecerei do que fez por mim.
— Se tinha alguma virtude, acabei de destruir. Meu Deus, que vergonha!
—Foi o vinho.
Nao foi. mas foi melhor assim. Ainda bem que nao quis ficar. Se ficasse, eu teria de cuidar de você depois, e mal dou conta de cuidar de mim mesma.
E jesus?
isso nao teve a ver com jesus
tudo tem a ver com jesus.
Oh Deus…
Fui um canalha, me aproveitei.
—Quem sou eu para te condenar.
—A senhora é uma pessoa maravilhosa.
Fiquei muito tempo sem ir à igreja, Andrei. Hoje resolvi ir porque estava me sentindo muito mal. Estava me sentindo muito doente, muito sozinha.
Logo a senhora encontrará alguém. Um homem com um futuro
— Você tem um grande futuro.
— Não daria certo.
— Qd um homem e uma mulher firmam um compromisso diante de Deus, não tem como dar errado. Não se trata de dar certo, mas de honrar o compromisso.
— Realmente não posso, senhora.
— Tudo bem. Deixe-me terminar.
— Realmente não precisa, senhora.
—É tudo o que precisamos saber acerca do amor.
— Não. Amor é muito mais.
— Voce acha?
— Com certeza
— Afinal, és um romântico.
— A senhora está chorando?
— Não estou chorando. Deixa-me terminar.
melhor não, senhora, estou bem
você não pode viajar assim
—A senhora disse que eu não preciso ir hoje
—Não vai conseguir dormir assim. Com licença. Deixa primeiro eu tirar essa chuca. Há quanto tempo usa o cabelo preso?
— Por favor, senhora.
— Foi o marido daquela atriz que lançou essa moda
—Devagar!...
— Depressa, devagar, afinal o que?
— Por favor pare!
E melhor voce ir para o colchonete.
—Desculpe ter gritado.
—Voce gritou?
— Ah senhora…
— Deixe-me sozinha agora
—Nao posso ficar?
—Melhor não.
—Nao precisa acontecer nada.
—Ja aconteceu.
— A conversa estava boa.
— "A conversa"
— Sim, antes.
— pode ficar se adiar a viagem
— Não posso.
— Pourquoi?
— Minha vida está cheia de pontas soltas.
— Mais uma razão para ficar.
— Agora sabe o tipo de homem que sou.
— sim, um aventureiro!
— Eu sei.
— un manipulateur.
— acabei te magoando.
— Como poderia magoar-me? És apenas um rien, persone, sem uma vida, sem lugar para morrer. Trabalho duro desde os 15 anos, rapaz. Nunca dependi de ninguém.
— Cuidado, senhora. Deixe-me ajudá-la.
— So estou um pouco tonta. Estou bem.
—Está mesmo?
— Acha mesmo que alguém como vc poderia magoar?
— Sei que não.
— Donc bonne nuit.
— deixe-me ficar Não estou muito bem
—O que está sentindo?
—Tremores.
—Suas maos nao estao tremendo.
—Tremores internos.
— Está com frio?
—Sim.
— Está bem. Só um pouco. alguma vez vc teve convulsao?
Nunca.
Desde que parou com o remedio nunca voltou a tomar?
Algumas vezes, aqui e ali. Nunca mais diariamente.
E as receitas?
Tenho muitos comprimidos. Um vidro hospitalar. Nunca mais peguei, mas sao muitos. Dei desses para Katia.
E resolveu para ela?
Pareceu ajudar.
E ainda tem.
Sim. Muitos.
Muitos quantos?
Uns cem. A senhora quer ficar com eles?
De jeito nenhum.
Podemos jogar fora, se é tao ruim.
Seria perigoso suspender de repente sem ter. Tome meio agora para os tremores.
Nao quero. Detesto o efeito. Esta melhorando.
Detesta por que causa disfunção?
nao tem a ver com sexo.
Nunca esteve tão desperta mas em alguns momentos é tanto o peso das pernas e a nevoa no cerebro que parece vai desmaiar. Como estivesse escuro para ver, vê o rosto triste do rapaz ao sentir o seu calor. Sabe exatamente do que ele esta falando quando fala em tremores internos. Mas não cre completamente. Ele é tão manipulador…
— E como foi parar no hospital como cobaia daquela pesquisa?
— Eu jogava xadrez com a filha do dono do jornal, e ela reclamou de mim com o pai
— tenho medo de perguntar o que vc fez
— nao fiz nada. Talvez a olhasse mas nao nada alem disso
“Como me olhou há pouco decerto”, pensou Beatrice. — Ela era casada?
— Era. Eu disse ao pai dela que ia ao médico. Foi quando eles fizeram aquele diagnostico e pergutaram se eu nao queria participar do estudo de caso.
De certa forma eu é quem estou fazendo esse estudo de caso agora.
Tem um diagnostico?
Sim. Seu problema é o mesmo que o meu.
—A senhora me disse que tonou o remedio porque teve um terrivel ataque de pânico quando soube que estava gravida.
— Eu disse?
— Disse.
— Bem, é verdade, você é um bom ouvinte; mas nosso verdadeiro problema é o pecado.
Era dificil entender por que ele nao queria ficar. Juntos, seriam a solucao de todos os problemas. Beatrice o ajudaria com suas abstinencias e ele faria o mesmo por Beatrice. Exceto claro se ela fosse repulsiva. Ela era? Deus, que pensamento horrivel! Não podia ser pela diferenca de idade, nao era tanta. Talvez ele pensasse no futuro, e no futuro certamente ele ainda seria um senhorzinho sedutor e ela apenas uma mulher caminhando a passos largos para a velhice total. Ha poucos dias, quando voltava do jardim de luxemburgo, vira um casal assim, ela uma idosa e ele um senhor garboso; estavam de maos dadas e ele nao parecia se importar com nada alem da mulher. Talvez fosse uma mulher virtuosa, o que Beatrice acabara de mostrar que nao era. Tinha vantagem sobre Blandine e Francesca por ser solteira mas toda desvantagem com relacao a Katia e Rachel. “Tenho que me por em meu lugar”, pensou Tenho uma filha quase da idade dele”.
— Estou nesmo com muito frio, senhora
—Estou com sono, Andrei. Amanhã nos falamos.
preciso te contar uma coisa. tenho uma amiga, uma conhecida na verdade, que tem uma irma que em 1987 morava em veneza. eu a vi dia desses, ela queria que eu lhe emprestasse um dinheiro. culpou a irma por estar precisando daquela quantia. disse que a irma se prostituia e ela teve de pagar o tratamento de desintoxicacao dela em milao. eu nao ia emprestar tanto dinheiro sem antes me certificar que era mesmo para o que ela estava dizendo. de fato ela tinha uma irma na prostituicao. a moca morava em veneza. tambem era verdade que ela voltara para a cidadezinha em que elas nasceram e que estava se desintoxicando. mas quando ela pediu o dinheiro a irma ja nao precisava de nada. tinha sido assassinada pelo gigolo dela, de quem fugira. sabe o nome da irma nao sabe? é com essa realidade que estamos lidando. direta ou indiretamente. o pecado. diz respeito a todos e a unica solucao nao tem a ver com cada um mas com um Outro. com cada um apenas na medida do arrependimento de cada um. sabe quem foi minha fonte definitiva? era um arquiteto italiano que foi cliente da moca. nos correspondemos durante meses, recebi sua última carta no começo deste ano. talvez eu estivesse ate me apaixonando por ele, o que seria estranho pois era bem mais velho que eu e sempre me apaixono por rapazes mais novos. na verdade aconteceu duas vezes, mas eu só me apaixonei duas vezes na vida e uma pelo pai de Isasbelle. ele me batia no fim. me estuprou quando cai na loucura de leva-lo à minha estudette. nao o culpei sabe por que? Porque tive minha grande parcela de culpa. Sao os lugares para onde a luxuria nos leva.
milao, 1988
“Olá, madame Huet.
Seu advogado falou com o meu, e nem seria necessário, para que eu contasse à madame sobre aquela moça. Por isso lhe escrevo essa carta. Não aguento mais a vida depois de Kátia, quando soube o que lhe aconteceu. A culpa e a vergonha estão me destruindo. Não tenho amigos nem família, exceto minha mãe. Sim, tenho sessenta anos, madame, e minha mae ainda esta viva e eu ainda moro com ela. Não posso contar tudo a ela porque ela nunca mais me olhará da mesma forma. Eu me sinto tão mal por ela. Ela me deu uma infância perfeita e uma vida ótima e eu estraguei tudo. Sou tudo o que sou profissionalmente gracas a ela.
Eu era viciado em pornografia e portanto contribuia para a exploração humana da indústria pornográfica. Desde que parei, meu cérebro desenterrou coisas reprimidas. Tive muitas acompanhantes. Em 1987, eu estava morando na Europa. Encontrei um anúncio e conheci essa garota. Acabei gostando dela. Então, ao longo de um ano, alguns meses depois da última vez que a vi, o número dela foi desligado. Achei que ela se mudou da cidade ou algo assim. Ela me disse que estava noiva e prestes a se casar, então pensei que talvez isso tivesse acontecido. Eu tinha armado um plano com o traficante dela, que tambem era seu gigolo e entrei em desespero quando ele nao quis comprir o acordo que fizera comigo. Pensei em mata-lo mas nao tive coragem e, oh. cono me arrependo! pois ela havia me convidado para passar uns dias na casa dela, me apresentar para a mae. quem sabe levarmos adiante uma ideia antiga de casarnos. Mas quando cheguei, dias antes do que combinamos, para lhe fazer uma surpresa, cheguei no dia de seu enterro.
Tenho culpa e vergonha constantes, não consigo me olhar no espelho. Madame falou sobre Deus e sim, tenho medo de que Deus não me perdoe e eu vá para o inferno. Não posso continuar vivendo assim.
Mas por que a senhora queria saber tudo a respeito de Katia? Quando a conheceu? Por que se interessou pelo seu destino?
Paris, 1988
Sentada na beira da cama, prestava atenção aos ruídos da sala. Saiu de novo do quarto, de roupão, passou pelo sofá sem virar o rosto e entrou no banheiro. entrou na banheira e afundou até o pescoço. Não tem certeza se deixou as chaves na porta. Está atenta aa fechadura mas a porta que se abre é a do banheiro. O rapaz entra sem olhar para ela. Senta-se no banquinho de tampo redondo. Ela nao olha para ele, continua com os olhos fixos na lâmpada acima do espelho.
— Eu voltarei — disse ele.
— Quem disse que quero?
— Se a senhora quiser.
— Não quero.
—Perdoe-me.
— Deveria aspirar à grande oportunidade que o garanhão me teria proporcionado, se o senhor voltasse? Esquilo aventureiro!
— Por favor, Beatrice.
— As outras também…
O apartamento real havia desaparecido. Habitavam um limbo entre a vida real e a memória. Em algum momento deveriam acordar, o efeito deveria passar, pois era naturalmente um efeito; mas não: não despertaram. Um escritor lerá assim um romance. Ele lembrou então que era agosto. Quando acordar, ela terá esquecido· Então o avião os surpreendeu; quando terminou de passar, ela concluiu:
— … uma segunda vez?
— Não seja grosseira! Não combina com você!
— Não seja hipócrita!
—Não sou hipócrita!
—Sim é! Só falei um palavrão e sua vida é todinha um palavrão.
— a senhora é cristã.
— Não respondeu minha pergunta.
— Não se equipare as outras
— Porque sou melhor, bien sûr.
— É muito melhor.
—Sou a mulher virtuosa, mas corres atrás de outras.
— Por favor, Beatrice. Acabamos de nos conhecer.
— Je suis juste une Avicia dans le chemin.
— Não faça eu me arrepender de ter feito confissões.
— Não me diga o que posso ou não fazer!!
— Não estou mais atrás de nenhuma outra
— Oui, está.
— Não prometi nada.
— Acabou de prometer
— Você acabou de recusar.
— como manteria a promessa perseguindo as outras? Mulheres casadas!
— Eu cumpriria. Só não posso ficar agora.
— É agora ou nunca.
— Não posso.
— eu sobreviverei
— Logo poderei.
— De combien de temps você precisa?
— Um mes.
— Então di-me mais uma coisa.
— Por favor, Beatrice.
— Não, serio, je suis curieux.
— Pare com isso.
— Di-moi.
— Por favor, Beatrice.
— Une dernière chose.
— O que é?
— Os originais de seu livro estão à mão?
— Sim.
—Me espere na sala.
Depois de alguns minutos, ele estava recostado nos almofadoes do tapete, ela sentou-se na extremidade de antes no sofá. — leia para mim.
— “Diante do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade”...
— Mais devagar.
— “evocou o dia em que conheceu Francesca, levado pela relação entre a reminiscência e os dois sóis"...
Ele dorme com a cabeça nas almofadas encostadas na poltrona onde Beatrice está agora inclinada sobre os calcanhares, enrolada num cobertor. As listras prateadas provocadas pela persiana separam as cores da