Perto do fim da safra, de uma ótima safra, o futuro sogro chamou o namorado de Blandine para jantar na casa principal. O café alavancou o sul de Minas na direção da ferrovia, da modernidade urbana, do progresso. A própria fazenda é um retrato disso. É uma propriedade de 1860, uma beleza, não é? As principais lavouras eram o milho e a cana; muita gente plantava café para consumo da família, daí instalaram na fazenda do Capitão Jean Marques de Gruber, em Piumhi (a fazenda Donda Senhora das Serras), uma máquina a vapor para beneficiar o café.
— Se você vai se estabelecer aqui, precisa conhecer nossa história.
O casalzinho chegou pela ponte de pedra, em passos lentos, conversando baixinho. Talvez ela estivesse adiantando a história que seria contada à mesa. Seu bisavô havia chegado na região em meados do século 19. Acompanhava o tio Maxime, que tinha ido verificar a viabilidade de uma ferrovia. Já havia formações urbanas em torno das minas de ouro e diamante. Erigiam-se igrejas nesses lugares e então o comércio se desenvolvia. A agricultura e a pecuária se estendiam em Minas e desenvolvia-se a rede de abastecimento que desde o século anterior mantinha exportação interprovincial de tabaco, carne e queijo.
— Considerando que na conexão com a Corte são poucos os rios navegáveis, urge a construção da ferrovia — dissera Maxime ao sobrinho. O sobrinho passou então a assumir aquilo como uma missão de vida.
Após terem prestado contas, antes de voltarem para o Rio de Janeiro, o rapaz, então com 17 anos, maravilhado com a exuberância e a fertilidade das terras, decidiu ficar; quando comunicou isso, o tio concordou; mas, com a condição de que ele se casasse com a prima, Catarina Sonia Bruguer Almeida. O dote foi um lote de terras.
— As terras em que pisamos.
— As terras em que pisamos. Mas a Fazenda Donda Senhora das Serras era só um nome. Não tinha nenhuma construção.
— Então ele constrói a casa que vemos.
— Então construiu essa casa.
— Olá! — disse Donda Maria ao vê-los. — A janta está quase pronta!
Entraram.
A porta de entrada veio de Ubá, de uma igreja demolida. No hall, Donda Maria orientou-os para virar à direita. No lado esquerdo eram recebidos os mascates, os tropeiros, todo tipo de pessoas que vinha negociar, e muitas vezes precisavam pernoitar; como você acomodaria, no íntimo de seu lar, pessoas que não conhecia? Para isso havia alcovas, pequenas e sem janelas, bem aqui, onde hoje é a capela. Tem um altar do período barroco ladeado por dois candelabros italianos; no púlpito há um missal de 1789 e diante dele um genuflexório.
Acima de uma grande cômoda entre os acessos, havia um prato com motivos ferroviários, sobre o qual estava um espelho bisotado francês; na direção do lustre, do ponto de vista de quem entra para a parte nobre, repousa na parede uma tapeçaria de gobelin. Ao lado da janela, dois quadros da escola de Cuzco.
— Meu bisavô era um homem de família — disse o sr. Jean, sentando-se à cabeceira da mesa comprida — interessado no progresso de sua cidade. Não foi só um cafeicultor, pode se dizer que seu escritório era uma espécie de entreposto de factoring. Comprava café de várias fazendas e intermediava sua venda para a Europa.
— Ele viveu aqui dez anos com a vovó Cristina— disse Blandine.
— Tiveram oito filhos. Ela morreu quando ele tinha 50 anos. Menos de um ano depois, ele casou com uma moça 30 anos mais jovem e teve outros 9 antes de morrer, aos 80.
— A imagem no corredor é de Santo Isidro, o espanhol protetor das colheitas — disse a senhora Donda.
— Depois do jantar você vai conhecer a sala dos homens. Uma sala com confortáveis cadeiras dispostas em torno de uma mesa redonda onde ocorriam as negociações. Terminadas as refeições, os homens iam para lá, como ainda faço em jantares maiores, para falar de política, acender os charutos, antever as possibilidades de negócios, mascar o rapé. Vai ver o piano onde as damas, quando tinham acesso, nos deliciaram com suas performances
— A dona da pensão do Andrei não pôde vir, papai?

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