Era uma quinta-feira de setembro e a lua estava cheia. Era o aniversário de Andrei. Fiquei lembrando como ele trabalhava duro e como era bondoso! Dava o dinheiro todo para minha mãe! Puxava as cerejas com as grandes mãos cujas palmas não mais ficavam em carne viva embora fossem de certo modo carne viva. Com a dedicação com que qualquer monge faria, caso o café guardasse o significado da vida. Só de lembrar me acalmo.
Nessa época eu tinha fundado, com vizinhas e outras filhas de cafeicultores de Piumhi e Capitólio, e até duas irmãs de Altinópolis, uma associação de mulheres, para aprender tudo sobre cafeicultura e administração de propriedades rurais. Eu era responsável pela produção de setenta hectares. Orientava os colaboradores e ajudava com o trator, agora que Kleber ia assumir a fazenda do Espírito Santo; como pensava em fazer uma grande viagem pela Europa, queria ajudar a capacitar as mulheres da região, antes de ir. Reuni os fornecedores e expliquei a situação, eu ia casar e me ausentar por um tempo; assim como eles aprenderam a me respeitar, como mulher e administradora, que fizessem o mesmo com as outras. Sempre ouvimos “quero falar com teu pai”, embora pudéssemos tomar a frente nas negociações. Um levantamento da Embrapa apontou que mais de 40 mil estabelecimentos agrícolas com produção de café são dirigidos por mulheres, setenta por cento aqui na região. Nosso intuito era agregar valor nas fazendas. Eu acho que mulher tem um cuidado a mais que homem. Temos de quebrar paradigmas todo santo dia, provar que podemos fazer tudo o que os homens fazem e até melhor. A mulher precisa se sentir valorizada dentro da cadeia do café. A associação visava dar oportunidade para produtoras, baristas, arrendadoras, ou simplesmente as que gostam da arte do café. Tenho orgulho de que muitas só chegaram onde estão hoje, inclusive as responsáveis pelos setores administrativos das fazendas, graças à associação. As meninas eram muito acolhedoras, sempre uma ajudando a outra. Se a gente somar as dirigentes com as que estão em co-direção com seus parceiros, tem mais de 80 mil mulheres nos estabelecimentos produtores de café no País. Um café que tem alcançado pontuação no mercado. Eu estava muito animada, mas quando Andrei chegou dei uma bela duma distraída. Não me arrependo não. Fico mais calma ao me lembrar daquele tempo.
Ao reencontrá-lo hoje me lembrei de mim mesma com a palha do chapéu preso à cabeça pela fita vermelha quando fui levá-lo para ver o cafezal. O contorno dos montes do sul de Minas na linha do horizonte, o frescor azulado do inverno. Lembrava e pensava "encontrar alguém depois de anos, numa cidade desse tamanho, no mesmo dia em que se está pensando tanto na pessoa” ... e me via como num filme, a cesta que eu levava resvalando na parte externa de meus joelhos, desconforto de palha tornado simples sentir, como dores crônicas. Ele pegaria aquele mesmo caminho quando partiu, um ponto na estrada, menos que um ponto, um fio serpenteante de luz, um rio luminoso e calmo na distância.
Ele estava saindo do cinema e eu entrando na loja de ferragens do shopping. Não falamos. A gente só se olhava e ele se aproximou. O que está fazendo aqui, pensei, mas mal conseguia pensar, havia um bloqueio entre consciência e pensamento. E assim, do nada, nos beijamos porque não havia nada mais a fazer exceto se a gente tivesse falado e não falamos, como se há três anos tivéssemos perdido a voz, como quem se desfaz deuma coisa que não serve mais. Porém alguns dias depois abrimos as bocas e usamos as vozes, sobretudo um pouco antes de nos separarmos de novo. Então falamos, falamos montes de coisas.

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