mercredi 12 avril 2023

Lisboa, 1988




DIANTE do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, evocou o dia em que conheceu Francesca, levado pela relação entre a reminiscência e os dois sóis, relacionando Francesca com sua ida de um para o outro. Na margem do Tejo, o vendedor de haxixe abordava os estrangeiros. No outro envelope, a carta de Katia falava de trabalhos e estudos em Milão, de sua vida solitária, de todo o seu tempo tomado, mas dera assim mesmo um pulo até Moscou após um giro pelas capitais da Comunidade Europeia; mais um pouco teria visto Reagan e Gorbachev. Falava. Ele podia ouvir a sua voz. Soava com a naturalidade de quem diz ter visto o crepúsculo da varanda de casa. É o mundo de camponeses e reis, dos pedestais da aristocracia feminina e ternos vagabundos sob o sol.

Os pés no rio são peixes. Gaivotas no Cais das Colunas. Um senhor as alimenta com pão. Sempre venta muito aqui. O crepúsculo avermelha os frisos molhados na pedra do piso.

Viram que ele abria a seda e pensaram em pedir. De bermuda e camisa floral, um rapaz alto e ruivo chegou a se levantar, mas desistiu ao perceber a caligrafia de Katia, inclinada e tensa de sua síndrome. Letra elegante e bonita como ela própria a se movimentar pela Praça de São Marcos entre homens ávidos, como se estivesse em Piumhi, conversando com a velha senhora que foi para ele uma segunda mãe. Carta e postal próximos como se houvesse ligação entre as ruas de café e o percurso das gôndolas.

Então se viu na carta. O papel fino o reflete contra o trânsito que flui para o Porto. Acinzentado brilho imperial cobre o casario nas ladeiras ao redor. Cheiro de vinho no ar ao de grelha e rio se mistura. Francesca na memória de sua língua. Tamborilam as águas da fonte nos ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio na esquina do paço ergue-se triste em cicatrizes e olhos duplicado ao longo da água no meio-fio. A gola azul de zuarte levantada até as orelhas. As sobrancelhas se encontram na glabela.

Ergueu os olhos. Dragas empurram as ondulações contra a superfície pétrea que margina a avenida Ribeira das Naus. A moça não sabe o que são aquelas coisas ou a sua utilidade; sua amiga ia dizer que desassoreia a via navegável e reaproveita o lodo, mas a outra ia achá-la pedante.

— Acho que tira areia do fundo do rio — disse a amiga. — Vi uma dessas em Valada do Ribatejo quando fui acampar no ano passado.

No sol, miríades de diamantes. A cidade na largura do rio. Conforme desce a noite, o tráfego na ponte aumenta — imensa lagarta iluminada. As linhas douradas na outra banda se dissiparão; mas, na perda do fulgor, as pessoas estarão em casa. Quando as luzes da cidade começam a aparecer, dizem, é a altura em que a ponte é mais bonita.

      Lisboa, repartida entre portugueses, turistas à vontade em leves roupas coloridas e negros provenientes das ex-colônias africanas (esses fazem rodinha atrás da igreja de São Domingos, logo depois da Praça da Figueira, ou defronte da estação Restauradores do metrô). A primavera traz o humor de seus dias tanto do inverno que passou quanto do verão por chegar. Estamos num desses últimos.

— Give me light? — pediu a jovem cujo vermelho da pele acusava a palidez congênita. Os mochileiros se movimentam como em uma festa íntima; sua indolência contrasta com os lisboetas fardados de sobrevivência na Praça do Comércio.

Calçou os sapatos e desceu do muro de onde sentado via os cacilheiros. Apanhou a mochila preta de poliéster e jogou as alças no ombro. Está cedendo na costura. Dá para ver uma camiseta azul desbotada e um desodorante em bastão. O ruído dos tecidos é como o chiado de um disco velho, chiado de um disco velho, chiado de um disco velho. Caminha no sentido de Santa Apolônia. À meia-noite pegará o trem para a Espanha. As semanas imediatamente anteriores não se ligam às imediatamente seguintes porque nunca teve memória ampla o bastante para lembrar fatos antigos nem esperança tão grande que compreendesse um futuro distante.

— A estação está longe, senhor?

—Ali, depois daquele prédio.

Descera da Graça para a Baixa no começo da noite anterior, quando se decidiu pela viagem. Subiu depois para o Bairro Alto. Encolheu-se sob a estátua no Largo do Camões; passou a madrugada ouvindo distantes os ecos do além em que as vozes de júbilo humano tinham se tornado. Dessa vez não é por não ter para onde ir: a pensão esta paga, com café e almoço – fica perto da praça do coreto. Há ali desde o natal uma  assim chamada "mercearia solidária” onde apanhava pacotes de bolacha que comia na descida para o centro. O bonde passava perto mas ele nunca pegava. Se era muito de manhã, a névoa espessa ocultava as placas indicativas do miradouro e da igreja. Logo ao lado do ponto de táxi havia um colorido carrossel. Faz tanto tempo, o natal e o ano novo solitário. Não era uma novidade a solidão, mas agora é diferente, agora tem alguém, que porém tem outra vida. Quem sabe encontre outra vida em Madrid. Dinheiro, tem para o trem e algumas refeições espartanas.

Ao amanhecer desceu direto para o Paço, o rio lá longe. Francesca teria de passar as festas com o marido. Num primeiro momento sentiu alívio. Ali nasceu a ideia da viagem. Os azulejos da Graça tinham virado caleidoscópios. Faz um mês que usa o mesmo tablete de ganza; diz para si mesmo “é o último” e economiza, para o caso de mudar de ideia.

Quando descia a Rua Ivens, o asfalto brilhava, mais escuro que o normal, embora ele não tivesse percebido chuva enquanto esteve no largo. O reflexo do sol o acompanhou pelas janelas desde o Teatro Nacional de São Carlos e na esquina da rua do Carmo iluminou a fachada do prédio à esquerda. No início da Rua do Alecrim, a vendedora de flores arrumava em sua banca os vasos de nêvedas e heucheras e os arranjos de miosótis e margaridas amarelas. O prédio em frente, de dois pisos, tem uma fachada feia, enegrecida. No buraco sem vidraça da última janela à direita, um pombo em círculos bicou duas vezes um papel, antes de se jogar em voo desengonçado. A corpulenta lavadeira, com imensa trouxa à cabeça, desviou-se do carro e atravessou a rua, tranquila, como se estivesse no século dezenove.

Se o olhar não estivesse impedido pelos prédios, veria duas gruas ao norte. Grupos estrangeiros começaram a financiar projetos imobiliários de todo tipo. Há condomínios de luxo para os lados do monte Estoril, mas também em Alfama e Tramela.    Os preços dispararam inclusive no Centro Histórico.  A dona de uma pensão no Camões, muito procurada por brasileiros  e angolanos, mora ali. Morava com a avó até os 21 anos, depois a aposentadoria da senhora não deu mais para pagar a casinha e tiveram de ir para a Grande Lisboa. Ela voltou;a senhora faleceu por lá. Quando o rapaz lhe perguntou como fazer para ir para Madrid, pensou em voltar para a Espanha. Tinha ficado contente porque ele lhe elogiara a voz e o sotaque.

Isso tinha sido de manhã.  Anoitecia agora. A estação apareceu ao longe. Esfriava. Ele sequer frequentou uma universidade e não faziam sentido seus escritos dispersos. Aceitou porém a encomenda do texto sobre a passagem dos vinte anos do Maio de 68 e vai entregá-lo na revista espanhola. Depois sentirá a respiração de uma mulher de fala cantada e longos cabelos negros. Pele clara, branca por assim dizer. Coxas brancas, exceto pelos arrepios e as veiazinhas entre o azul e o vermelho — sol em uma cortina de tule. Tem desejo da Espanha e das pessoas e coisas da Espanha, porque não está na Espanha.

Entrou na nave do terminal. O sol inclinado morria na fachada oeste; seus passos ecoavam na abóbada. Burburinho. Frio e fome. Sangue aquecido e preparado, grosso. Não voltará ao mundo. Não voltará. E, se não voltará, por que olha tanto para o céu e se importa tanto com a opinião das pessoas? De nada valeu a vivência, exceto para descrevê-la? Estava cansado de palavras. Não voltará. O que é o tempo? O sopro de vida lhe será tirado como esse trem da plataforma 1.

 A locomotiva resfolegava. Era um modelo alemão projetado para ter potência nos trens de passageiros (caso fosse de carga, deveria ter torque de partida).   Com lábios trêmulos chegou a dizer "Estou com frio" antes de embarcar. O homem a seu lado não estava com frio e sequer o olhou.

Aucun commentaire:

Enregistrer un commentaire

em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma f...