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vendredi 14 avril 2023

Piumhi, 1983



O KLEBER parece que gostou do rapaz e isso para mim sempre é um bom sinal porque eu tenho essa proximidade com ele desde pequeno e sempre o que ele sente é o que eu sinto ou vou sentir, então estou contente por causa de Blandine porque se continuar assim essa menina vai dar muito trabalho ainda e esse rapazinho de Belo Horizonte pode ter lá o seu dinheiro e dar o conforto que ela quer mas, está na cara, passado um tempo, ela vai achar um motivo para largá-lo e levantar outros voos, até porque esse tipo de emprego do menino, em uma empresa pública, segurança e tudo mais, pode ser bom para ela na parte financeira mas na hora agá de viajar, que é o que essa menina tem no sangue, como o pai, com certeza ele não vai ter disponibilidade e aí já viu o que acontece, ela acabará indo de um jeito ou de outro ou não irá, e uma mulher frustrada eu sei bem do que é capaz. O Kleber me contou que demorou para voltar e quando voltou eles estavam em pleno clima, queria ter sido uma abelhinha lá e ter visto, porque clima é algo de que Blandine nunca precisou para chegar a seus objetivos, embora seja uma menina decente, você não me interprete errado por favor, ela é sim uma menina muito sensível e decente; mas tem o seguinte: sim, gostei do rapaz e o Kleber também e parece ela mesma, que no fim das contas é o que interessa; mas há uma distância entre a gente gostar e ele ser mesmo o que aparenta ser e ainda que seja é outra distância ter caráter e a melhor das boas intenções e a coisa dar certo, é só ver o caso do pai deles e eu: ele era um homem bom e compassivo, trabalhador e até onde eu sei fiel, e aí está, a dias de se casar com outra, porque realmente não deu certo e não adianta perguntar por que não deu, ninguém pergunta quando as pessoas se juntam por que se juntam.

 


    O senhor Jean e a madrasta faziam planos na cozinha; debruçada na janela da sala, Blandine esperava. Quando papai os apresentou, Andrei comentou como era um nome bonito e o pai explicou que amava Liszt; se eu tivesse nascido primeiro, teria me chamado Franz. De noite, antes da viagem para cá, foram jantar e convidaram Andrei. Ele confessou  que estava bebendo demais. 

    — São os males da cidade grande —disse o senhor Jean. —Por que você não vem conosco e passa um tempo na roça, lá em casa? 

    — Pode trabalhar na “panha” —disse Blandine, sorridente. — Será uma ótima terapia.

    Ela costumava levar a comida quando a gente estava no milho. Nesse dia, levou também uma garrafa de café. Disse a ela que ia ver uma coisa e já vinha. Então peguei o trator. Eu não gostava nada do cara bonito e rico de BH. Estava na cara: em um ou dois anos estariam separados. Daí demorei o suficiente. Ia medir o tempo pela temperatura do café.

 


  Ah quando ele chegou da lavoura com os olhos caídos e cheios de si!... As feridas da mão como medalhas e suportando meu olhar com uma expressão altiva e cansada, como um menino que tivesse passado de ano com média cinco diante de sua mãe.

    —Você está bem? Deu tudo certo? Vai conseguir voltar amanhã?

    — Sim e sim —respondeu ele. —E sim.

    — Que bom. Arrumei teu quarto

    —Não precisava se incomodar.

    —Não foi incomodo algum — eu disse, quase completando: —Foi um prazer — mas não ia pegar bem. 

 


    Blandine era uma menina quando entrou pela primeira vez na edícula que agora serve de moradia para os apanhadores de fora da cidade. Na época era uma casa de hóspedes, conjugada com a garagem. Agora, uma mulher, está pela sozinha com o rapaz, sem o perigo de alguém entrar a qualquer momento, como na casa grande. Há uma pia na frente da janela. Ali, diante das copas frondosas, ele enche uma garrafa plástica com água da torneira, ignorando o filtro de barro na mesinha ao lado, quando ela chega com as marmitas. Estava com um vestidinho de alça e ao aproximar o copo que apanhara na estante, ela encostou o ombro nu em seu peito. Falava como se contasse um segredo. Vinha em geral a mando do pai para saber se os tios de Belo Horizonte estavam bem acomodados, se precisavam de alguma coisa. Ele continua fazendo o que está fazendo, sem olhar para ela. Mariposas esvoaçam em torno da lâmpada de vinte watts que não fazia mais que impedir a completa escuridão.  Apanhadores do norte de Minas ficavam todos os anos na peça; este ano, contudo, ano parece que não vêm ou, se vierem, podem ficar num dos dois lofts de madeira ao lado do estábulo.  Ela havia abaixado a voz um pouco mais. Andrei respirou fundo e enfim a olhou. Ela o olhou de volta tentando não demonstrar ter percebido o quanto o toque de seu ombro o havia afetado. Hesitou antes de sugerir que comessem lá fora. 

    – Eu mesma fiz essa churrasqueira com blocos, a sobra de um piso e a grelha de um fogão velho. 

     – Já pode casar – disse ele sorrindo. 



  Estavam juntos havia uma semana e eu e minha mãe felizes. Pareciam feitos um para o outro. Parecia que seriam felizes para sempre na casa que papai prometera. Andrei não sabia. Blandine a princípio não contou. 

    Uma e outra coisa e o casamento e a nova vida iam ficando para mais tarde. Minha irmã um dia disse para ele: "—É que você está dividido porque gosta da roça, mas não esquece as coisas da cidade". Pode ser. Ou era ela que queria escapar da roça e eu isso eu bem posso compreender. 

    O ciúme tinha crescido. Ele era um cara trabalhador, mas muito inseguro. A mãe adorava o genro atencioso, mas ele não ia casar com a mãe. Quando ele partiu, o pessoal começou a perguntar por que isso e aquilo, mas eu acho que nesse tipo de coisa não há resposta, e nem pergunta devia haver, porque ninguém pergunta por que as pessoas se juntam, dias atrás a gente falava sobre isso.

    Ele adorava uma santa mas Blandine nunca foi santa, e ele não tinha aquela atitude máscula e meio canalha que atrai as mulheres.  No começo ela se deliciava com a presença dele e ainda mais com a ausência, a presença imaginada, é o que me dizia. O homem não era mais uma espécie hostil e isso de algum modo me aliviava. Ela até ficava meiga ao lado dele.

    Quando dava seis horas da manhã ou da tarde, eu começava a ouvir as vozes dos apanhadores e sabia então que eram seis horas e o sino tocava. Ele foi um apanhador calado , deslocado no canto da carreta. Era chamado de "jornalista". Torcia para que não puxassem conversa, ciente de que iam puxar. A gente imaginava o que ele teria feito para terminar assim, empoeirado e suado como todos e mais pobre do que todos, sem casa para morar e sem parecer ter morado em uma casa algum dia; sem amigos e sem parentes, como se a vida tivesse se desfeito dele e por alguma razão o tivesse lançado no mato, para menos que morrer.


 

Saiu da rua que lhe fora destinada e os apanhadores da rua de trás pensaram que tinha ido ao banheiro. Foi para uma rua em que o café não seria colhido naquele dia.  Seus pés pegavam fogo dentro do tênis e ficou descalço.  Havia um ardor gelado em sua costela, pungente, definitivo. Recostou a cabeça no chão. Não conseguiu ficar um único instante e se levantou. A vida exuberava ao redor, na mesma proporção com que o horror o sufocava. Algumas plantas estavam encolhidas pelo calor da tarde; do outro lado, tudo normal. Sobre sua cabeça as folhas muito verdes reluziam e o café parecia cereja. Prazer algum deveria habitar nesse cenário de perfeito pavor que precede a morte dos perversos; todavia, prevalecia um estranho desejo.   

    Enquanto apanhadores apontavam a poeira de um carro na estrada, outros olhavam para o lugar onde Andrei devia estar Ele podia ouvir os comentários. Havia alívio em escutar, uma vez que o silêncio tinha se tornado insuportável. Imaginou se o mal-estar teria passado,  poderia fechar os olhos um pouco e descansar; não soube, porque não conseguia fechar os olhos.  Lembrará disso por toda a vida.  Não raro fechará os olhos no futuro e se sentirá abençoado por conseguir fazê-lo. 

 


 Passos de Minas, 1983

 


Tamanha era a felicidade de minha filha que eu precisava fazer alguma coisa. Dia desses   a gente vinha lá do sítio   e quando passamos por aqui eu vi de relance uma casa para vender. Estava ficando tarde e passamos mas agora vamos até ali adiante onde a gente possa manobrar e ver se a gente fala com o dono. 

Essa região é muito bonita, acho que ela vai gostar.  Serra para tudo quanto é lado. Ontem falei com o Kleber  que queria vir e aqui estamos.    Vamos fazer a manobra aqui, com cuidado porque logo ali tem uma curva. Já parou para pensar que você o conheceu antes de nós? Seremos uma espécie de família dele no casório. O que será que aconteceu para ele não ter ninguém no mundo? Como alguém chega nessa situação?

Aqui existem algumas casas muito muito antigas. Fim do século passado, começo deste século. Olha só aquela. Ali na margem do asfalto, escondida pela vegetação. Quatro janelas frontais. Posso estar enganado, mas acho que essa casa é do senhor Josias. Josias do Rego. Gente muito boa. Muito alegres, muito bem quistos em Capitólio.


 





 

Piumhi, 1983 

 




Perto do fim da safra, de uma ótima safra, o futuro sogro chamou o namorado de Blandine para jantar na casa principal. O café alavancou o sul de Minas na direção da ferrovia, da modernidade urbana, do progresso.  A própria fazenda é um retrato disso. É uma propriedade de 1860, uma beleza, não é? As principais lavouras eram o milho e a cana; muita gente plantava café para consumo da família, daí instalaram na fazenda do Capitão Jean Marques de Gruber, em Piumhi (a fazenda Donda Senhora das Serras), uma máquina a vapor para beneficiar o café.  

— Se você vai se estabelecer  aqui, precisa conhecer nossa história. 


O casalzinho chegou pela ponte de pedra, em passos lentos, conversando baixinho. Talvez ela estivesse adiantando a história que seria contada à mesa.  Seu bisavô havia chegado na região em meados do século 19. Acompanhava o tio Maxime, que tinha ido verificar a viabilidade de uma ferrovia.  Já havia formações urbanas em torno das minas de ouro e diamante. Erigiam-se igrejas nesses lugares e então o comércio se desenvolvia.  A agricultura e a pecuária se estendiam em Minas e desenvolvia-se a rede de abastecimento que desde o século anterior mantinha exportação interprovincial de tabaco, carne e queijo. 

— Considerando que na conexão com a Corte são poucos os rios navegáveis, urge a construção da ferrovia — dissera Maxime ao sobrinho. O sobrinho passou então a assumir aquilo como uma missão de vida. 

  Após terem prestado contas, antes de voltarem para o Rio de Janeiro, o rapaz, então com 17 anos, maravilhado com a exuberância e a fertilidade das terras, decidiu ficar; quando comunicou isso, o tio concordou; mas, com a condição de que ele se casasse com a prima, Catarina Sonia Bruguer Almeida.  O dote foi um lote de terras. 

— As terras em que pisamos. 

— As terras em que pisamos. Mas a Fazenda Donda Senhora das Serras era só um nome. Não tinha nenhuma construção. 

— Então ele constrói a casa que vemos.

— Então construiu essa casa. 

— Olá! — disse Donda Maria ao vê-los. — A janta está quase pronta!

Entraram. 

A porta de entrada veio de Ubá, de uma igreja demolida.  No hall, Donda Maria orientou-os para virar à direita. No lado esquerdo eram recebidos os mascates, os tropeiros, todo tipo de pessoas que vinha negociar, e muitas vezes precisavam pernoitar; como você acomodaria, no íntimo de seu lar, pessoas que não conhecia? Para isso havia alcovas, pequenas e sem janelas, bem aqui, onde hoje é a capela. Tem um altar do período barroco ladeado por dois candelabros italianos; no púlpito há um missal de 1789 e diante dele um genuflexório. 

  Acima de uma grande cômoda entre os acessos, havia um prato com motivos ferroviários, sobre o qual estava um espelho bisotado francês; na direção do lustre, do ponto de vista de quem entra para a parte nobre, repousa na parede uma tapeçaria de gobelin.  Ao lado da janela, dois quadros da escola de Cuzco. 

— Meu bisavô era um homem de família — disse o sr. Jean, sentando-se à cabeceira da mesa comprida — interessado no progresso de sua cidade. Não foi só um cafeicultor, pode se dizer que seu escritório era uma espécie de entreposto de factoring. Comprava café de várias fazendas e intermediava sua venda para a Europa.  

— Ele viveu aqui dez anos com a vovó Cristina— disse Blandine.

— Tiveram oito filhos.  Ela morreu quando ele tinha 50 anos. Menos de um ano depois, ele casou com uma moça 30 anos mais jovem e teve outros 9 antes de morrer, aos 80. 

— A imagem no corredor é de Santo Isidro, o espanhol protetor das colheitas — disse a senhora Donda. 

— Depois do jantar você vai conhecer a sala dos homens. Uma sala com confortáveis cadeiras dispostas em torno de uma mesa redonda onde ocorriam as negociações. Terminadas as refeições, os homens iam para lá, como ainda faço em jantares maiores, para falar de política, acender os charutos, antever as possibilidades de negócios, mascar o rapé. Vai ver o piano onde as damas, quando tinham acesso, nos deliciaram com suas performances 

— A dona da pensão do Andrei não pôde vir, papai?  

 

 






 Piumhi, 1983



Veio o fim da safra e ele quis partir. No dia em que  ia, segundos antes de pegar o ônibus que leva dos cafezais ao centro, ela apareceu na porta da edícula. Seus olhos molhados o acusavam, cheios de dor e altivez.    Tarde demais, caiu em si. O calhambeque da empresa mineira de transportes buzinava ao longe, buzinava, para trazer a morte revestida de saudade e vocação literária. Trazia um epílogo ao descer, pontual, a sinuosa encosta ladeada de ravinas, buzinando e buzinando. Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve? Por que o governo não proibiu o êxodo rural?

O queixo dela adquire um contorno duro. A manhã tremeluz em seus lábios.Em suas olheiras habita a noite. Não poderia ter vindo antes e dete-lo? Amor pode ser apenas isso. Alguém que se antecipe ao erro contra o qual será o futuro implacável. Mas não, não quis. Preferiu puni-lo assim, segurando o vestido de popelina contra o peito. Enquanto ele viver, guardará aquela lembrança; enquanto viver, ela estará ali.

 



Ele foi embora de Piumhi no final da panha de 1983, em setembro. Foi para o Rio de Janeiro. Um dia minha irmã apareceu lá por lá. Tinha ido fazer faculdade. Trabalhava num Curso de Idiomas. Era atendente. Um dia ele se matriculou no curso e ficaram juntos de novo. Então ele começou a trabalhar num jornal em São José dos Campos e passava os finais de semana no Rio.

Um dia ela disse que ia para a Europa. Um aluno do Curso de Italiano pagara a passagem. Ofereceu a casa dos pais para que ela ficasse durante um semestre. Ela precisava descansar. Qualquer homem desconfia de um gesto desses, mas a mulher dirá que é sem segunda intenção. Andrei chegou na sexta para passar o fim de semana e ela contou. Estava com a viagem marcada. Minha irmã…

Em 1987 ele pediu a conta e foi para Luanda, mas só soubemos mais de um ano depois, quando chegou sua primeira carta de Lisboa.

 





mercredi 12 avril 2023

Piumhi, 1983

 

 

 

 

        Eu disse ao Sr. Jean: "Pai, precisamos fazer alguma coisa. Ele parece tão boa pessoa e assim vai enlouquecer". Talvez eu já estivesse apaixonada e fosse um pretexto mas talvez não e só estivesse se manifestando o forte instinto maternal que eu não imaginava viesse a ter um dia e talvez nem precisasse porque não queria ser mãe mas depois que dei à luz entendi o que significa o ditado "do homem são as disposições do coração mas Deus direciona os caminhos". Acho que o sr. Jean me atendeu porque no fundo temia que eu tivesse puxado a ele e logo sumisse no mundo e, quando me arrependesse, fosse tarde como foi para ele e acho que estar ali diante de mim de um lado e de sua noiva do outro deixava isso bem evidente e é possível que ali tivesse tido a ideia de me dar o apartamento de presente, se o que ele imaginava estivesse certo, como estava, porque tanto me segurava perto quanto protegia o patrimônio. Foi mais ou menos o que fez quando entregou a administração da fazenda ao Kleber. Acho que todo pai é assim. 


 Forasteiros na região do canyon e das cachoeiras eram sempre turistas. Quem senão os locais ou, no máximo, de Belo Horizonte, iria ali à procura de trabalho? Nos últimos anos começaram a aparecer pessoas do norte, mas eram exceção; e o que dizer de um jornalista de Ribeirão Preto? O rapaz de aparência irregular,  com um topete tipo crista amalucada, magro de ombros largos, fazia as trilhas entre as montanhas com grande desenvoltura. Num primeiro momento recusara o convite do noivo da senhora Madalena, a dona da pensão em que morava; mas duas noites depois sonhou com a filha do homem e ao acordar estava decidido e pegou o caminho dos cafezais do sul de Minas.  



em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma f...