O coração disparou. Ela sentou-se ao seu lado no vagão. Seus olhares tinham se cruzado denovo um pouco antes por sobre a aglomeração. Ao empurrar a porta de vidro da estação, ele se assustara com a própria magreza. Dois homens conversavam alto na fila.
— Yo te digo, cuando el balon viene de un jugador contrário no puede ser off-side.
— Naturalmente. Este árbitro es un retardado mental o es ciego.
— Eso o algo peor. ¡Oye, no me empujes!
— Perdoname senor, ha sido sin querer
— Ni sin querer ni nada! tenga más cuidado!
— No digas "Perdoname" - disse a moça logo atrás, rindo. — Di "lo siento".
— Deja! — disse o homem do off-side. — el es un portugues, o peor; un brasileño!
— Brasileño? no eres bienvenido y si tienes tanta prisa corre a coger un taxi.
O vagão rangeu e um soco inclinou os passageiros. O braço macio o pressionava enquanto a mulher lia sem cerimônia as anotações em seu caderno. Ela se ajeitou como que para passar muito tempo ali sentada mas logo se levantou e parou o trem. As portas se abriram e ele a seguiu.
—Hablas espanol? — disse ela.
— Apenas hablo
— Apenas hablas espanol?
— Apenas hablo. Hablo poco en cualquier idioma.
— Las escaleras de la plaza de espanha me dan vertige — disse a moça quando se aproximava da saida.
Não será imediatamente. Levará um tempo até que tenha consciência do quanto estava perdido e o quanto sem rumo. Do dano que uma mulher pode causar a um homem perdido e sem rumo que causa danos a si mesmo.
Tinham passado por um palco montado na Plaza Mayor para a festa de San Isidro. Numa ruela de pedestres, passaram por uma banca onde estavam expostos long-plays dentro de dois caixotes. O sol atravessava a Calle de San Martin. Fumaça nas ruas, cheiro de cigarro. No burburinho distingue-se a ave-maria, num sax, um violão desafinado, um tilintar de copos e o arrulhar de pombas. Dizem que o verão deve ser mais quente do que o normal. Sobre o pedaço de trilho cortado e chumbado na calçada, a menina de tranças ria para o pai. Madrid parece um lugar seguro para se morar. As varandinhas com guarda-corpo mais claro eram do apartamento para onde iam.
Entraram no prédio.
Era o terceiro apartamento interno, à esquerda.
A moça tinha simplificado a identificação: colocara seu nome em caligrafia grosseira numa fita na caixa de correio.
"Soy yo", disse ela. Oleana. O velho elevador estava parado, embora os cabos balançassem. Não havia número na porta. Subiram, ele um degrau atrás. Ela girou a chave e abriu a porta no mesmo movimento; tocou o interruptor.
— Esta es mi casa. This is my place.
— Ahora me senti como si estuviera en una película subtitulada
—¿Una película erótica?
No pequeno hall, o lustre de imbuia redondo com quatro lâmpadas pairava no nível de suas cabeças. O tampo superior era de madeirite. O proprietário trocara por uma tampa de acrílico branco, o que aumentou a já excelente iluminação gerada pelos grandes espaços entre as ripas. Havia três flores sobre a portinhola da caixa de eletricidade ao lado da qual estava a caixinha menor, da campainha. A porta rangeu ao ser aberta. Ela entrou e não se virou para fechar; ele o fez. Numa mesinha debaixo do lustre havia miniaturas de palhaços.
No son payasos – disse ela. –Son mimes. Ricardo!
–¿Tienes un hijo?
–Un gato.
–Nunca he visto gatos en películas eróticas
– No pareces alguien que haya visto alguna vez una película erótica. No necessitas.
Ao lado da poltrona, uma pilha de jornais velhos. Portugal y España integrados en la CEE deben — Unser blev den sista föraren från något annat än NASCAR.
Nascera numa casinha de madeira em Linkoping. Seu pai era um medico formado pela LiU mas acabou montando clínica em Madrid, onde se casou com a enfermeira que trabalhava para ele; divorciaram-se antes que se mudasse para Londres, onde vive agora com uma moça da idade de Oleana. Quando fez 21 anos, ela decidiu se mudar para a Espanha. Gosta dos espanhóis. Não se adapta a lugares frios.
Havia tirado as sandálias. O dedo ao lado do dedão se projetava em relação aos outros. O esmalte vermelho descascava. A sola era grossa e no tornozelo havia a tatuagem de uma rosa cujo caule era um nome de homem. Não falaram durante o pouso de uma pomba no parapeito da janela; depois ela continuou. Deixara, é claro, amigos na Suécia; mas decidira ficar por causa do calor humano, dos valores que o conforto sufoca, na Escandinávia ou no Reino Unido. E isso, nem parece, fazia um tempo. Dois anos. Ele viu um biquíni a partir das marcas na roupa e esboçou um sorriso que ela devolveu.
Não havia nuvem no céu. O sol, que tinha nascido antes das oito, só iria se pôr depois das nove. Um apito insistente de betoneira rasgava o ar. A sombra de sua mão se define no mármore ao pousar o copo.
— Soy bibliotecaria pero nadie me conoce como bibliotecaria. Quizás porque no tengo anteojos ni el pelo recogido.
Ao lado do sofá havia duas poltronas; o telefone estava sobre a mesinha de mogno no centro da sala. Na parede à esquerda, no limite com o corredor, surgiu a curva escura de um abajur. Sobre uma arca, também à esquerda, reluzindo ao sol que atravessava a sala desde a janela da cozinha, havia um peso de metal sobre um envelope pardo. As paredes são brancas, talvez gelo; concedem nitidez a seu perfil. Ele não fica sentado um minuto. Pisa sobre uma felpuda nave viking. Eram muitos móveis e pequenos os espaços para se deslocar. Oleana disse para ele ficar à vontade. Ela não ia demorar. Abriu a porta do quarto e a encostou atrás de si. Ele assentiu com a cabeça e foi para a varanda. A mancha azulada ao longe se transformou no numero 18 sobre o parabrisas de um onibus. Das mesinhas na rua subiam risadas e súbitos gritos. É um bairro cosmopolita. Escuta-se todo tipo de idiomas: inglês e Francês sobretudo, mas também línguas nórdicas. Após o espaço de uma praça, entre duas ruelas, apareceu o sol sobre as torres de uma igreja branca. São dez para as dez no relógio de um centro comercial. Se estivesse num hotel com Blandine, e não na casa de outra mulher, ou se essa varanda fosse a varanda da casa onde viverão após fugirem de Trieste, a posição dos ponteiros significaria que está atrasado para o trabalho e precisa, portanto, se apressar. Esta varanda, vista lá de baixo no final do dia, entre tantas e igual a todas, seria única. O que pode estar errado em uma esperança assim?
Agora ouve vizinhos exaltados, portas de armário e patas de um cão derrapando no andar de cima. Oleana levantou a voz, arrastando a primeira e a última sílaba sobre os demais sons; disse que, se ele quisesse ler, havia ótimos livros. Ele relanceou os olhos na direção da estante e ela continuou falando.
– Te gusta leer, me imagino.
Ele se levantou e andou até a porta entreaberta. “Onde?”, começou a perguntar.
Lá embaixo o sol atravessava a copa piramidal de um abeto. As folhas elípticas reluziam. Ele encostou a persiana; quando a claridade arrefeceu, sentiu-se à vontade. Atravessou a sala e se aproximou da porta do quarto. Oleana estava de frente para o armário; os braços se moviam entre os cabides. A luz da manhã à janela molhava sua pele e o assoalho a multiplicava. A cama é um ninho de cobertas. Há dois travesseiros junto à guarda e um do outro lado, como se alguém tivesse dormido atravessado, com uma das pernas para cima. Na cabeceira, “La recherche du temps perdu”, um maço de cigarros, um exemplar da Time e um exemplar da Life. Um prato com a sobra de um bolo. Uma garrafinha plástica azul com água. Uma bermuda de lycra amarfanhada. Atrás, na parede, quadrados em quadrados, retângulos em retângulos e triângulos em quadrados, impressos no papel vinílico creme.
Quando ela se curvava para pegar as sandálias, ele evitou olhar. Sentada na cama colocou as meias. Era um par axadrezado que parecia de criança e não se harmonizava com sua cara muito adulta. Então se levantou contra a luz e, se estivesse vestida e a roupa fosse clara, teria nesse momento ficado transparente. Suas mãos inquietas acompanhavam um ritmo a que ele não tinha acesso. Removeu o sutiã que acabara de colocar, vestiu a camiseta vermelha e, supostamente para consultar o céu, olhou por cima do ombro do homem como se ele não estivesse ali, como se fosse um móvel. Apanhou o jeans surgido do nada e o colocou, com alguma dificuldade. Colocou as sandálias e se virou novamente de costas para ele. Estava pronta. Quando ele se conscientizou de que ela estava novamente vestida, quis guardá-la na memória assim, quase recatada, como são guardados os autógrafos.
Na sala, ela tornou a se curvar, abriu a bolsa que estava sobre a mesa de centro, retirou as chaves e entregou-as. Saíram para o hall. Depois que ela apertou o botão, ele passou a acompanhar o som enferrujado, como que tentando entender o mecanismo do velho elevador. O eco das vozes que ouviam no vão era de um casal de meia idade. “Buenos dias!” disseram em uníssono assim que a grade abriu. Oleana sorriu para Andrei antes de entrar, falando com eles num castelhano mais rápido. Ele ainda não parecia entender que a mulher havia descido e agora estava sozinho no apartamento por pelo menos uma ou duas horas.
Quando entrou de novo, ficou olhando a lâmpada da sala. O ar começou a faltar. Tentou nomear o objeto que olhava. Lustre. Lustre. Mas não pensava na palavra”lustre”, era outra coisa. A porta permanecia aberta e ouviam-se conversas em outros andares. Mediu o assoalho com um passo cauteloso. A betoneira silenciara. Fechou a porta; foi para o quarto. Na cabeceira apanhou a revista, apertou-a contra o peito e a seguir se deitou…

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