jeudi 13 avril 2023

Madrid, 1988

Durante os cinquenta e quatro segundos em que as portas ficaram abertas, entraram no vagão ele e uma moça loura calçando botas de salto; por um triz, ela não caíu na escada rolante; quase foi espremida ao soar o alarme de fechamento.  Pelos labirintos do metrô,  chegou à região do Callao no princípio da noite. Subiu a escada da estação temeroso de tamanho movimento. Um pouco depois, arrefecida a hora do rush, restou a oferta de corpos, o burburinho dos bares, adolescentes discutindo qualidade e preço. A noite em Madrid começa com a janta, mas pulará essa parte. Sentado sob um toldo verde, no degrau diante de uma porta rollup, rabiscava. Os putos e as chicas, encostados nos carros em torno de um café, têm nas mãos copas largas com gim; nas mesas próximas e nas capotas, há pratinhos de tapas — calamares fritos, tortillas e espetinhos. Apertos de mão em código. Socos de camaradagem e beijinhos. Ao se dispersar um grupo, alguém deixa um embrulhinho prensado como prova de amizade. Ao longo da noite, de bar em bar ou em botelões, muitos se reencontrarão. Pouco depois ventava na avenida de Daroca. De Vicalvaro a Las Musas, incorporava-se ao mundo que nasce quando morre o mundo diurno e sua normalidade. Apanhou a linha sete até Pueblo Nuevo e a cinco até Ventas. Sonhava? — perguntou-se ao ver, diante do cemitério fechado, um cortejo de turistas. Pareciam guiados por um homem charmoso que lhes contava anedotas. Você se atreve?, perguntou-se ao dar um passo. Sim, respondeu, aproximando-se num rompante da jovem tímida que acabara de ocupar o último lugar na pequena fila. Como os outros, recebeu uma vela amarela e fones de ouvido. O portão rangeu antes de entrarem. Uma mulher de rosto brilhante dançava entre as tumbas diante deles. No final da performance, vendo a moça agachar e depositar sua vela num dos túmulos, teve de repetir para si mesmo “você precisa sair daqui”, antes de efetivamente se afastar do grupo. Então voltou para Callao. Viu o cartaz e entrou. A inverossimilhança do castelhano perfeito de Sting e Kathleen Turner fez da sessão um tipo estranho de terapia e saiu sereno e bem disposto. Não lhe ocorreu associação entre o filme e Blandine, mas havia Trieste. Se relacionasse os cenários com os arredores da Via della Sorgente, onde ela vivia e caminhava ao sol, e o mar do filme com o mar que agora a extasiava, teria ficado triste; mas isso não lhe ocorreu e saiu ileso, graças a esses complexos mecanismos mentais que nos protegem de nós mesmos. Meses depois, quando voltasse a assistir ao filme em Lisboa, numa sessão reservada a jornalistas, para ilustrar um debate sobre o cinema no advento da tv de alta definição, por causa do castelo da abertura, quando o velho lê o poema, pressentirá Trieste e confirmará a intuição. Nessa sessão, em que os cuidados técnicos subtrairão do filme o halo de magia, substituindo-o por tipo um vídeo-tape (algo como trocar a pintura de um mestre pela foto da paisagem que o inspirou), nessa outra sessão, quando Sting falava com sua própria voz o inglês original do filme, ele experimentará imensa angústia. Não era assim após o filme em Madrid. Não sentia nada. Com postura e respiração de peito, caminhava para a região das tavernas. Um rapaz pediu um cigarro e, depois de acendê-lo, propôs um "chocolate". Chamava-se Michel. Foi até um vulto do outro lado da rua, sem dizer palavra; ao voltar, preparava o baseado. Era inglês, embora tivesse nascido na Suíça. Os avós eram bascos franceses. Pronunciava o espanhol tão corretamente quanto Sting no filme, porém ele é real como minha alma dilacerada. Cantava o “lhú” de lluvia (começava a chuviscar) e o “lhê” de calle (convidara-o para um clube noturno e agora explicava o caminho), diferente dos latino-americanos, que dão aos eles som de jota. Juntaram-se no percurso, por causa do cheiro, um italiano e um português. Um veículo pesado picoteia o ar e faz com que a avenida estremeça. Um sino. Meia-noite. Tudo o que um segundo comporta. Quando se aproximavam de um carro ligeiramente móvel, parado na esquina, Luis, um moreno entroncado nascido na Cidade do Porto, falava sobre mulheres. Dizia: "Sexo e sentimento são para elas a mesma coisa. Quando sentem prazer, estão amando. O homem não associa assim. Admitimos que a imagem da amada possa se apagar e o coração transmitir outras imagens". Michel respondeu: —La relación sexual siempre afecta el sentimiento. Hace que las mujeres sean posesivas. Thomas é um jovem italiano; ele vive em Pamplona. Ia dizer que o sentimento de posse da mulher apaixonada é fruto da ingênua pretensão de ter o controle, mas se calou. Então Luís concluiu: — Exactamente como sucede en una posesión. Michel pensou em uma mulher específica, com quem estivera na noite anterior. Embora a amasse, seu viés possessivo a tornava desagradável; mas não chegaria ao referido extremo. —Para las mujeres, una ll solo demuestre una tendencia polígama dominante. Passaram nesse momento três moças em sentido contrário. Luiz se virou e as siguió durante uns passos. Disse-lhes: — Mujeres, vosotras las chicas, no valéis nada y no sois nada y no tenéis sentimientos ni corazón ni entrañas; no queréis ninguna salir conmigo? — depois que passaram, continuou, excitado, o seu discurso: “A mulher escolhe um homem atraente — o rico e charmoso, o bonito e inteligente, o protetor, o provedor, o sedutor — e acha que, se ela é fiel, garantiu o direito de exigir fidelidade; escolhe e se entrega logo, antes que o homem questione seus encantos”. Michel disse que Luis estava sendo muito rigoroso; o outro fez um sinal de cabeça dúbio e disse que ia falar com um amigo, já voltava. Entrou numa discoteca.            Certa época houve em Madrid um movimento chamado La movida. Era o nome da época imediatamente posterior à ditadura franquista. Nasciam então as sofisticadas boates da calle Victor Hugo, o agito dos bares de Malasaña e as lendárias discotecas da Plaza Callao. Em lugares assim foi celebrado o referendum.    Agustín, o dono do UpDown, ainda se lembra; parece que foi ontem.  — És assim tão velho, discotecário? — disse Luis, mostrando um CD. O DJ havia faltado e Agustín mesmo fazia a sonoplastia. Luiz fez movimentos labiais: — Têm pastilha? — En el cajón … — respondeu o outro. — Sé más discreto, Luiz — pediu. ... Es mi trabajo.. — Tranquilo. Te libero uma ganza boa quando o próximo carregamento chegar. “Nací en Cuba. Es muy difícil fumar allí. Mi padre consiguió venir a las Islas Canarias, concretamente a Las Palmas. Estaba tranquilo allí, se puede fumar en cualquier sitio. Como está cerca de Marruecos, era fácil ir y traer. Un día, dos amigos y yo tuvimos la idea de crecer y decidimos alquilar un piso de tres habitaciones. Cada uno de nosotros ha montado su propio armario de plantas. Un día surgió la oportunidad de mudarnos y pasamos de un armario a una granja. El clima en Canarias es subtropical, se puede cultivar todo el año. Entonces me enteré de que en Barcelona ya había clubes, en Madrid aún no había y decidí venir aquí. mi abuelo dijo que nos ayudaría siempre y cuando hiciéramos algo más familiar. Mi abuela tiene 80 años y es una consumidora habitual. Las personas con cáncer necesitan un lugar para fumar. De todos modos, seguimos creciendo. Hoy somos unos 500 miembros. Por supuesto, existe el problema de la ley. La ley sólo permite el cultivo para el consumo personal. Por lo tanto, es una paradoja que el club exista sin apoyo legal. El productor está infringiendo la ley y los directivos del club viven bajo un riesgo constante. Así que hay muchos problemas burocráticos. Las personas que están en el sector nunca saben lo que es correcto o incorrecto, qué medidas pueden tomar y cuáles no. Es un limbo. Políticamente es un caos. Uno propone una muy buena idea, el otro la anula y la termina. El club paga impuestos: impuesto de alquiler, multas, registro de la asociación, etc., como cualquier otra empresa. Hay clubes sin documentación, que operan ilegalmente, y esto afecta a los clubes legales, creando mafias y esto naturalmente nos afecta, tiene repercusiones. Hace un tiempo vinieron unos turistas y un periodista brasileño me preguntó si había esperanza de que las cosas mejoraran en el futuro, especialmente con la legalización. He dicho que sí. Todo pasa por el progreso social. El otro día, hablando con un productor mexicano, me dijo que en México están liberando a los cultivadores. Naturalmente, con la legalización, el delito de cultivo deja de existir. La liberación de estos presos sería una reparación social. La industria del tabaco, la industria de las carreras, cualquier otra industria de las drogas legales existe sobre un principio similar. No me gusta ver a mi abuela teniendo que ir a la farmacia a comprar pastillas para dormir, por ejemplo, y no poder comprar cannabis. Incluso los hobbits estaban más avanzados que nosotros, porque cultivaban y consumían marihuana. Este brasileño dijo que no era así y utilizó un argumento religioso, por lo que debe ser de una iglesia y ya sabes cómo son los eclesiásticos. — Creo que la pipa de Tolkien contenía tabaco. Hacer cambiar la conciencia artificialmente puede servir de consuelo eventual, pero cuando se convierte en un hábito, el daño espiritual es irreversible. — No era tabaco mas cannabis. Cuando Saruman interrogó a Gandalf sobre la hierba, la calificó de "juguete de humo y fuego" que se utilizaba mientras los demás debatían seriamente las cuestiones, Gandalf respondió que si la fumaba él mismo descubriría que el humo aclara la mente y confiere paciencia. — ¿Te ocurre ese tipo de efecto? Conmigo, me pongo parlanchín, como ahora, y pierdo mis inhibiciones, lo que estoy seguro que no me hace ni un poco más paciente. Me gustaría ver el avance de la legalización. Me gustaría que mi padre pudiera decir de mí: ese es mi hijo, no es un bandido, es un buen tipo. Sólo está fumando su hierba, no está haciendo daño a nadie. — Mas você não está apenas fumando... Em uma rua tranquila do centro de Madrid, no sobrado que atende pelo nome de Cannabis Club, branco como as outras casas da rua e com iluminação interior violeta, ciganos romenos se reuniam, cheios de brincos e pulseiras, gargalhadas e olhares. Num canto, quatro estrangeiros tomavam sorvetes de haxixe. Fazia um calor sufocante. O suor escorria pelas testas e a água da rega pelos limbos das folhas nos vasos do parapeito, como abas de chapéu na chuva. Mãos suadas seguram tacos. O cheiro da cozinha próxima serpenteou sob os narizes como um riacho entre rochas, substituindo por alguns segundos, com o cheiro de pizza, o cheiro da maconha. Num momento, Luis respirava fundo perto da janela; noutro, levantava-se e gritava: —    Mi cartera! ¡Alguien me robó la cartera! Discretamente, Tomás conferiu os bolsos. Uma sirene disparou. Correram para as escadas. Enquanto desciam, as paredes ganhavam tonalidades do mundo exterior logo incorporadas à noite lá fora. O barulho aumentava. A lua estava coberta por nuvens quando esbarraram no portão trancado. Olharam para cima. Os cacos sobre o muro os desencorajaram. A passante parou para ver. Luis tornara a subir os degraus, de dois em dois, e os outros ouviram sua voz lá em cima; a seguir ouviram o som da tranca. Ao saírem, dobrando a esquina, Tomás se chocou com a moça e se desculpou, de longe. Ela balançou a cabeça e não tornou a olhar. O sereno se misturava ao relaxamento. Sentiam frio. A madrugada madrilenha distribuía luzes e sombras pela amplidão de avenidas iluminadas e nevoentas ruelas. As lâmpadas dos postes traspassavam a bruma e entranhavam no asfalto as encompridadas sombras. Procuraram um lugar sem vento. Desceram na entrada do metrô. Tomás desfez a pequena barra escura sobre uma moeda na palma da mão. Luís abriu a seda e Tomás colocou a mistura, aquecendo-a com um isqueiro. Dois policiais surgiram de um descuido. Olharam e se aproximaram. Mandaram-lhes mostrar os documentos. Detiveram-se na credencial do brasileiro. — Entonces tenemos acá un periodista...— a voz se elevou quando o homem o encarou, encostado em sua insígnia. —¿Trabajas mejor drogado? Deram-se logo por satisfeitos. Recomendaram o clube próximo (existe justamente para esse fim, explicaram),  devolveram os documentos e voltaram para a ronda. La delincuencia nocturna no es la misma que la diurna. Es necesario tener discernimiento. Hace un momento, una mujer se negó a identificarse y cuando le saqué el bolso para registrarla me agredió y se tiró al suelo. Fue tenso. Hace unos días estábamos realizando una operación cerca de la plaza y un hombre que pasaba por allí se paró a mirar. Le dije que siguiera adelante y me preguntó dónde estaba escrito, es decir, que estaba prohibido. Le dije que por favor siguiera adelante. Me dijo que no que nadie podía detenerlo y le pregunté si no era más fácil cooperar y seguir adelante y siguió gritándome. Fue arrestado. En esa misma operación, que fue en un bar con denuncias de menudeo y consumo ilegal, había un hombre cuya documentación demostraba que su condición no era regular. Estábamos a punto de llevarlo a la comisaría correspondiente, cuando una mujer que lloraba le cogió de la mano. Los llamé a un lado y les dije que se fueran discretamente y que se presentaran mañana en la comisaría de asuntos exteriores para regular la situación. Ahora era más o menos así. Los tres turistas estaban fumando marihuana en la calle, nos acercamos a ellos, les pedimos la documentación, nos la mostraron; simplemente les orienté para que fueran al club de es marihuana y allí fumaran y no en la vía pública. Quando restou a acidez do cartão que servia de filtro, Luiz pressionou o cigarro entre o polegar e o indicador e lançou-o longe. Tinha de ir. Deixou seu endereço no Porto. — É só tomar o autocarro 57. Ficaram os dois outros, Tomás e Andrei. O vento frio parecia outro e, eles mesmos, outros também. A escada oscilava e a avenida subia para o infinito, as nuvens se fundiam umas nas outras. Pararam debaixo de um plátano. As folhas tinham seis ou sete lóbulos de uns trinta centímetros de largura. Na parte de cima, a cor era mais viva do que na de baixo; reluziam com o sopro da brisa. — Lo que pueda elevar a alguien no podrá sin embargo cambiar a nadie. El espejo que nos aumenta es todavía sólo un espejo. — El sabio siempre será sabio y el tonto cada vez más tonto. Nesse momento passou uma jovem, pequenina, roliça e castanha. Dix-neuf ans. Olhos verdes. Lábios rosa escuro. Os cabelos caíam pelo rosto. A cintura, Deus ali se demorara um pouco mais. Expressão inteligente; frases curtas, engraçadas. Chamava-se Isabelle. Parisiense. Pai timorense e mãe francesa. Seu gerúndio tinha um acento sublime. Disse um smiling cantando o g e depois “To-más”, assim, abrindo o “a” e derramando dentro o Sena.  Quando disse “Hago pedicura e manicura francesa o rusa”, Tomás se desinteressou do espelho. Andrei apertou os olhos e os viu sumir, pontos esverdeados na distância. Arcos ogivais de uma fachada gótica flutuando. Uma tremula parede de tijolos coloridos. Tornou a caminhar, medindo os passos, como se estivesse no escuro. Saindo de uma rua estreita, deu numa imensa praça. Não desviou o olhar ao passar pelos rapazes e moças encostados na mureta. Sombras o espreitavam das varandinhas ao redor. Atravessou a rua e sumiu em meio aos reflexos dourados da vidraça de um restaurante. Diante do proprietário gordo, sob o peso das pálpebras, pediu dois pães com manteiga, um bolo e um café com leite. O homem mal o olhou ao lhe dizer que esperasse sentado. A cadeira que puxou estava debaixo da data da inauguração, em um painel na parede, ao lado da foto de um frequentador célebre. Sentou-se, respirou fundo, abriu o caderno de notas e escreveu: Há vinte anos, quando eu tinha vinte anos. As cortinas brancas ondulavam. Na mesa em frente, um velho de barbas brancas tinha os olhos vermelhos muito abertos diante de um copo de vinho pela metade. As mesas estavam cobertas por toalhas brancas com bordado de xadrez e barrado de crochê. Os poucos fregueses pareciam sonolentos e não falavam. Pela janela, a fachada do prédio em frente entrava em combustão. Virou a página. Os dedos acompanharam a folha até encostar na folha anterior, então descansou o braço sobre a mesa. Nessa posição, a moça que entrara no estabelecimento pousou sobre seus dedos. Ela falava com o atendente quandopelo grande espelho, percebeu-se observada. Sem que ela nada pedisse, ele a serviu. O homem ao lado disse alguma coisa e ela respondeu. —Tror du verkligen han bryr sig? Estava de pé encostada no balcão. Os cabelos escorriam pela camisa azul-claro até um pouco abaixo do ombro. Prolongou um movimento das coxas como se hesitasse; pelo espelho, ao mesmo movimento, os olhos do rapaz reluziram. Ele ergueu a cabeça, displicente. O texto diante de si, cheirando a café com leite. No segundo desse alheamento, a moça desapareceu. Procurou-a mesa por mesa, inutilmente. Lá fora, conforme amanhecia, a avenida e o céu se encontravam em uma mesma cor; a cor empalideceu e a cidade cresceu ao redor; ouviram-se pássaros matinais. A mão deixa o descanso e a caneta rasura uma vírgula. Um mundo no final das contas. Soluções literárias para questões da vida real. A matéria é sobre o Maio, mas, na verdade, trata de sua morte. De sua morte miserável. Que diferença faria se a fome ou o frio ou ele mesmo a provocasse?

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