dimanche 1 juin 2025

em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma forma diferente; as  mudanças da luz emprestavam um novo rosto para o horror. A cor das roupas das mulheres, que substituía o peso dos casacos da outra vez,    também passava impressão mórbida de tristeza.    Subiu umas escadinhas na Republique e, ao ver a praça de um outro patamar teve um instante de alívio. As pessoas caminham serenamente pelo mundo enquanto as nuvens se abrem sobre o asfalto molhado de uma chuva que ele não chegou a perceber. Aproximou-se da aglomeração de pessoas. Ouviu primeiro o som de um violão e depois a voz que cantava; a mesma voz que a seguir passou a falar para as pessoas em torno.

“Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, porque nós somos os templos vivos de Deus, se estivermos em Deus, pela fé em Jesus Cristo. Nós mesmos somos a igreja do Deus vivo.  Ele está hoje chamando a  todos”.

Um jovem se aproxima assim que o vê. Lembra Blind Willie Johnson. Estava com um violão há pouco; na mão que segurava o instrumento, tem agora uma bíblia. Um jovem como qualquer jovem ali na praça, no grupo que cantava, entre os que assistiam ou andavam ao redor. “De repente”, disse ele, “eu me vi na rua, caí nas drogas e na delinquência; agora estou aqui para partilhar minha fé”.   Andrei ouviu calado com um sorriso respeitoso que em nenhum momento se abriu de todo. Pegou o folheto com a passagem bíblica e atentou quando a moça disse que no verso tinha o endereço da igreja.

Saiu da praça e atravessou a rua no sentido da Passage Vendome. A luz do outro lado iluminou o caminho por menos tempo do que ele poderia desejar. A ciclista passou em frente à janela mais baixa do primeiro prédio da rue Béranger. Logo será noite. Ouvia os próprios passos até que o crescendo de sons na Rue du Temple os apagasse. Parece andar em círculos. Trêmulo e rígido, braços desconectados do corpo, viu, além das bicicletas estacionadas, por instantes, a última luz da tarde. Na Rue Du Petit-Thouars, as sombras das pessoas tinham desaparecido. Os ruídos da cidade estão impregnados de tristeza. Sentiu uma pontada no ouvido e parou, escutando a rua, esperando uma nova pontada; ficou ali parado alguns minutos, percebendo as luzes sem vê-las, descartando-as como se estivesse apenas pensando, como se descarta um pensamento. Apoiou-se em uma das pernas, com a outra equilibrou-se. A sensação de que ia a qualquer momento cair se mostrava falsa instante após instante. Talvez fosse melhor: cair, de uma vez por todas.


Estava caminhando há pelo menos meia hora em linha reta pela quando um homem pediu licença, tocou-o e apontou para um beco. As vozes no salão de refeições parecem conhecidas. Há uma mulher entre os homens tomando sopa. Está grávida. Todos comem tranquilos. O que estava na mesa com a mulher lhe deu sua maçã. Tomam grandes colheradas e terminam logo, depois saem com suas sacolas. Ele próprio está tranquilo. A miséria tem esse efeito, intensifica as pequenas coisas da vida, como uma boa refeição. Para a mulher, ele faz parte da mesa. Está tão tranquilo que chega a repassar os momentos tensos da noite, como se fosse um filme. Os policiais que o revistaram na Rue St. Denis foram gentis. O filme teria sido perfeito, embora não entendesse uma palavra, não fosse por uns e outros passando atrás de sua poltrona. Fez bem em se afastar do albergue ao perceber o pessoal à sua frente enrolando um baseado. Não está cansado embora devesse estar. Nunca caminhou tanto assim, horas ininterruptas, sem parar para sentar-se nas escadas de alguma igreja ou se encostar em uma parede. Talheres e louça retiniam à saida do refeitório e agora para onde ir? --  para onde ir, se pergunta. As bandejas empilhadas  no balcão onde serão lavadas tem um som particularmente agressivo ao se misturar com as vozes dos indigentes e dos tres funcionarios que servem a comida. Um ou outro homem bem vestido ainda permanece à mesa. Não aparenta angustia. Duas ruas depois,as mulheres se aproximavam e murmuravam em seu ouvido sem que ele entendesse ou precisasse entender; os reflexos avermelhados do calçamento iluminavam a fachada dos predinhos. Sombras  cruzadas se arrastam pelas ruas estreitas. A noite será longa.


Uma mulher de pele clara, ruiva, de trinta anos, está sentada no chão acarpetado de seu quarto num apartamento haussmanniano no bairro do marais. Está virada para uma janela aberta olhando para fora. O quarto é pouco iluminado, com um brilho suave vindo da janela onde se vê a copa de um castanheiro no centro da Place du Marche de Sainte Catherine. A sua expressão é pensativa, algo melancólica. Seus cabelos castanho-avermelhados descansam em seus ombros. Veste um pijama cinza claro com riscas finas e horizontais também cinza claro.  Seus pés descalços estão pousados no carpete.  Sua postura descontraída é reflexiva.  Uma cama de cor escura é visível ao fundo.  O tom geral da cena é contemplativo, transmite um momento de introspecção, talvez ou tristeza. A composição é simples, enfatizando o estado emocional da figura em ambiente doméstico.  As sombras são sutis e a luz em inesperados tons quentes criam um clima de estranho e tranquilo. 

Era uma noite quente, embora houvesse previsão de frente fria nas horas seguintes. Bioluminescentes vagalumes apaixonados brilhavam amarelo ao redor do castanheiro.  A mulher podia ve-los, uma rio de estrelas esverdeadas, como se o céu houvesse transbordado, como um trem noturno para o paraíso.          



A Place du Marché Sainte-Catherine foi construída em 1784 no local do Convento real de La Couture. Projetada para ser um mercado, hoje acomoda esplanadas de cafés; diferente do resto do Marais, é um lugar tranquilo, isolado, embora fique a não mais do que dez minutos a pé da Place de Vosges.  Há trezentas e cinquenta  janelas voltadas para a praça. Há ali amoreiras chinesas e os bancos de madeira sólida são bastante confortáveis. Ao voltar para casa do trabalho, a mulher costuma entrar na área da praça pela Rue d'Ormesson, cansada, perguntando-se se algum dia  vai se acostumar a ser a patroa, justo ela,  sem a menor vocação para dar ordens (nem para obedecer). Sua empresa esta agora na rue de la Huchette e ela atravessa a ille de la cite ao voltar de noite, sentindo-se como quem estivesse não perto do palacio da justica de hoje, mas respirando evocacoes dos ogros e ogresses atraidos pela condenacao da  Paris retratada por Eugene Sue. A torre de Saint-Jacques se erguia  quando uma pomba branca cabeceava na direcao de uma mulher apressada com a bolsinha negra presa as costas como se fosse mochila. Duas mocinhas dancando de maos dadas, sincronizadas, entraram na rue rivoli. Um dos dois homens sentados à mesma mesa em um cafe apontou num mapa e olhou esperançoso para o interlocutor. 

Faz algum tempo ela não vai aos cultos. Há pelo menos dois ou três anos as tardes de fim de semana estão reservadas para longos passeios pelas galerias e passagens cobertas, pelos parques; às vezes ia ver um filme em algum cinema de rua. Na volta, telefona faz a chamada interurbana para a filha antes que ela saia e, ao desligar, coloca um LP de música clássica; apanha uma taça de vinho e lê até dar sono. Vai se deitar cerca de meia-noite. Dorme direto até de manhã. A bebida nunca altera seu humor exceto por uma eventual náusea.

Dorme depressa.   

Não tem amigos. Dentre os poucos que tem, os da igreja acham-na com tendências seculares. Essa foi a principal razão por que parou de ir aos cultos. Os amigos, não da igreja, esses a acham carola. Bem, foi uma das razões, não a principal. Ir à igreja agora a entediava. A cantoria a assustava e só queria voltar para casa. Tinha ido a muitas igrejas diferentes ao longo da vida e todas tocavam a mesma música otimista. Gostava de adorar a Deus sozinha e ouvir a música de que gostava. Adorar a Deus é algo muito intimo para ser feito coletivamente. Há ocasiões que pedem confraternização, mas não é a regra. A regra é a porta do quarto fechada. De blues, ela gosta muito. O blues reflete melhor a luta contra o pecado. Na igreja agora há um grupo de jovens que toca e prega na Place de la Republique, estarão na igreja à noite. Cristianismo não é essa chorumela atual. Lutar contra a  natureza pecaminosa é luta árdua,  acordes  sombrios  a refletem melhor.  Disse isso a um dos rapazes, o guitarrista; ele  não parece ter entendido – parece ter se apaixonado. É um problema. Os de meia-idade carentes, os casados acomodados e a juventude ardendo. Ela não está ainda na meia-idade mas chegando mais depressa do que gostaria. Não é carente, pois aprendeu sua lição; mas tem dias muito dificeis. 

Gosta dos sermões.

Queria entender direito o que significa arrepender-se. Durante muito tempo imaginou que pudesse resolver essa querela sozinha, por meio de uma determinação interior, sem envolver Jesus,. O ponto crucial era identificar em que medida a vontade tinha uma função ativa na mudança de vida após a conversão, o quanto era livre o arbítrio, vez que havia um e não poderiam ser os humanos fantoches de um Deus misericordioso da mesma forma que não poderiam ser queimados eternamente nas mãos de um Deus irado (ainda que "não poderiam" era uma expressão retórica sem lá muito sentido diante do destino da parte majoritária das pessoas na terra). Converteu-se, ou, dito de outro modo, passou a frequentar igreja, mas a questão permaneceu sempre em aberto; mudar, mudar de verdade, ela nunca mudou; e isso não deveria tornar ilegítima a sua fé?  Por exemplo, naquela noite,  por causa da banda, decidiu ir ao culto. Não por causa da música da banda, do louvor, mas da banda em si. Ora, se ela já se posicionara acerca dos olhares que  recebia, se sua vontade era evitar todo possível mal-entendido e – jamais – não brincar com o sentimento dos rapazes, por que deveria alimentar semelhante motivação para voltar a um culto? E por que  ficou tanto tempo diante do espelho escolhendo a roupa, se concordava plenamente com a orientação bíblica sobre o traje  das mulheres na igreja? Por que permitiu tamanho gasto de  energia verificando se a saia marcava seu corpo e por que tanta decepção quando a calça comprida nem coube?  No final, ainda que leg nao estivesse proibida com um camisão,  não se sentiu à vontade e acabou  colocando o vestido  de algum casamento de que não se lembrava  e colocou um blazer por cima, sem ficar de todo  satisfeita. Enfim. Os ombros e os cotovelos cobertos, os joelhos cobertos, fazer o que. Roupa preta é muito triste. A estola colorida deve resolver. N'oubliez pas: la bienséance fait la différence


Vinha ele pela Rue de la Bastille, quando viu ao fundo, além de uma pracinha onde havia muitas motos estacionadas, o que parecia ser um templo. Procurou placas para confirmar. Perguntou no ponto de táxi. Achou que ririam de seu francês de estrangeiro, que zombariam de um turista sans abri. Respeitoso, o homem confirmou com a cabeça e apontou para o outro lado da rua.

Não se parecia com uma igreja evangélica que enviasse pregadores-músicos como o rapaz que lembrava o bluesman. Parecia antes uma igreja católica, o que lhe pareceu bem, por ser mais impessoal. Talvez fosse um desses grupos de "renovados''. Atravessou a rua distraído e, quando o carro buzinou ao passar raspando, seu coração trêmulo gelou. Pela primeira vez pensou a sério sobre o que acontecera com Julie. Quando uma mulher de pele amarronzada, de jeans e camiseta branca, passou pela rua da igreja, ele olhou para frente e viu o templo do folheto. A seguir, o motorista do ônibus 76, que vinha em sentido contrário, fez sinal para que passasse e, ao Andrei fazê-lo, buzinou.

Adiante, carros e pessoas dividem o calçamento. O diácono, que recebia os visitantes na entrada, distraiu-se um minuto, conversando com uma fiel, e ele passou nesse vácuo.   Quando entrou, um choro de bebê se levantava do murmúrio das pessoas. Os jovens da praça estavam sentados em cadeiras ao lado dos instrumentos musicais, lá na frente, diante do piano cuja música de introdução ao culto saía das mãos de um mocinha magra de vestido esverdeado. Um estalo em algum lugar pareceu a queda de algo e depois disso o bebê se aquietou. Os passos no corredor ecoam e suas vozes crepitam como um fogo baixo. Duas capelas elípticas ladeiam a rotunda do prédio. Esse círculo pode, de dentro, causar vertigem. Uma senhorinha de casaco, com um crachá, acompanhou-o até a lateral do banco e apontou  o lugar vago. Para ali chegar, andando lateralmente e apoiado com as mãos no espaldar do banco da frente, ele passou por um casal que facilitou seu caminho, encolhendo as pernas, o que a mulher ao lado não se preocupou em fazer,  distraída com outras eventuais dificuldades do moço. “— Com licença, senhora” — disse ele. Entreolharam-se por uma fração de segundo suficiente para que um mundo nascesse.  As olheiras dele contrastavam com um rosto muito branco de doente. O vidro da janela à esquerda, que há pouco ardia, estava agora esmaecendo. Sem sorrir, a mulher assentiu com a cabeça. Ele ia sentar-se a seu lado, um lugar depois,  na extremidade do banco, junto ao corredor do vitral; porém no último momento saiu da fileira e sentou-se no banco da fileira da frente, bem na frente da mulher.   

Vez por outra alguém tosse. Há uma tela no fundo, do lado esquerdo do púlpito, onde é projetada a letra do cântico que agora começa em vozes remotas; quando ele sentou, fez-se silêncio. O pastor se levantou e cumprimentou os visitantes; não olhou para Andrei. O banco em que está sentado, como os demais, é de madeira, com acabamento de verniz; tem 45 centímetros do assento até o chão. Ele está agora na antepenúltima fileira de oito. Consegue enfim, apesar da pressão do local desconhecido sobre seus pensamentos, refletir em tudo o que aconteceu desde que o voo de Bayonne pousou na pista do aeroporto; há também uma distração provocada por alguns cheiros, que todavia não chega a impedir que evoque a empregada da casa da senhora Perrot, a praça da República,  as ruas do Marais, tudo envolto na aura única, não anulada, antes intensificada, pela dor e privações, de uma autentica obra de arte em que sua reles vida parecia se transformar. 

Após um louvor no qual algumas mãos se ergueram e alguns sorrisos de uma espécie de êxtase se abriram e a leitura de um salmo pela voz de um dos outros rapazes da praça, com a possibilidade de avaliar o rapaz com um discretíssimo desvio do olhar,  a mulher certificou-se de que  nunca o vira. Não é nada comum rapazes com mochila nos cultos; mas, numa sexta-feira, pode ter vindo da escola ou do trabalho. Era alto, nao muito, magro mas musculoso, certamente bonito; longe de ser uma beleza que em si mesma chamasse atenção, porém. Ela o viu de longe, quando ele ainda estava entre o diácono e sua mulher. Porque ela própria estava constrangida e dispersa e sua cabeça e olhar obedeciam antes à dispersa-o, te-lo visto terminou por cumprir uma função que devia ser a do zelo, a saber, leva-la a voltar sua atenção, ou o que restava dela, para o pastor e o que ele dizia. Mas a voz ainda ecoava em sua mente. Uma voz sonora e todavia murmurante. Nunca foi chamada de “senhora”, não que se lembre não por alguém quase da sua idade. 




O pastor tem quarenta e sete anos. Seu nome é Rilke Bennihome. Parece africano, mas nasceu em uma pequena cidade às margens do Ródano. Os pais eram pescadores e vieram para Paris após a enchente dos anos 50. Antes disso, atravessavam o rio a pé sobre os seixos. Rilke demorou para se acostumar a comer suas refeições sem ablettes. Foi por causa desses peixes que conheceu a futura esposa quando os dois pescavam nos arredores da Pont-Neuf. Descobriram que eram da mesma região. No final de semana seguinte estavam pescando e namorando na Pont Marie. Cedo, porém, ele ficou viúvo e nunca mais pensou em se casar.

Depois de conhecer as ideias do pastor Éoune Lielle, que pregava o “cristianismo social”, desejou conhecê-lo pessoalmente e se tornaram amigos durante um seminário. Por intermédio de Lielle, conseguiu um importante cargo de livreiro em Lyon. Não se adaptou, pois lioneses detestam que as pessoas falem em inglês e desde a época do congresso ele havia se acostumado a usar o idioma sempre que podia; afinal, após a morte do amigo em 1986, voltou para Paris e assumiu o cargo de pastor no templo do 4o. arrondissement. 

Na época em que conheceu Beatrice Huet, tinha abandonado o cristianismo social; passou a pregar o evangelho com ênfase na relação pessoal entre o homem e Deus. Concordavam em quase tudo, exceto por ela viver tão reclusa. Béatrice, tu devrais avoir plus de communion avec les frères et soeurs - costumava dizer. Não a demoveu do seu jeito de ser, porém. Como outra coisa não tinha, restara a ela o segredo, a visita constante aos lugares secretos de seu consolo insuspeito. 



— Soyez tous les bienvenus.

— C'est une joie c'est une joie de vous retrouver ce nuit

— Oui c'est une joie de vous retrouver de célébrer ensemble ce culte pour dieu c'est une joie aussi de se dire que nous avons devant nous un semestre entier de culte pour célébrer dieu ensemble. Pour vivre ensemble devant le seigneur. Pour célébrer ensemble dieu pour le louer et pour nous mettre à l'écoute de sa parole.

— je vous invite à de du seigneur quelle joie d'être ici ensemble dans ta maison sous ton regard que nous soyons présents dans le temple ou bien chez nous peu importe parce que nous sommes maintenant ici et maintenant au bon endroit nous sommes là où nous devons être parce que tu es là et c'est notre joue un seigneur c'est notre joie de t'accueillir c'est notre joie de nous tenir dans ta présence en confiance c'est notre oie de pouvoir élever ensemble la voie pour te louer alors viens viens maintenant partons sans esprit vient investir ce temple mais pas seulement le temple physique vient investir le temple de nos esprits remplit nos maintenant de ta présence prend toute la place seigneur que nous puissions être dans ce moment rassembler totalement à toi parce que nous sommes ton peuple au nom de jésus christ. amen


“Irmãos nunca nos esqueçamos de que Jesus é a razão de nossa fé e de nossa vida. Ele foi aprovado por Deus diante dos homens com milagres e sinais. Foi entregue aos pecadores e assassinado, pregado numa cruz; mas Deus o ressuscitou dos mortos porque era impossível que a morte o retivesse. Por esse motivo, nosso coração está alegre e a nossa língua exulta e louva a Deus, pois da mesma forma nos estamos livres da morte. A ressurreição do Cristo é a nossa ressurreição – desde que nosso arrependimento, que é a mudanca da nossa mente na direção de Deus, tenha sido verdadeiro e provado por meio dos frutos dessa mudança. Perseveremos pois no ensino do Senhor e na comunhão, no partir do pão e nas orações, porque assim nos manteremos saudáveis. 

E quando falamos da salvação de Jesus Cristo e do arrependimento, estamos falando do cumprimento de uma promessa. O Deus honrou seu povo durante o tempo em que, como estrangeiros, caminharam pela terra da escravidão, de onde os libertou com braço poderoso. O Senhor zelou por eles com paciência, no deserto, durante cerca de quarenta anos. Destruiu sete nações em Canaã e lhes entregou a terra em que habitavam, como herança. Isso levou aproximadamente quatrocentos e cinquenta anos, quando então lhes deu juízes até a época do profeta Samuel. Mas o povo lhe rogou por um rei, e Deus lhes concedeu Saul, que reinou quarenta anos. Depois que tirou o reinado de Saul, deu-lhes Davi como rei. Deste homem, Deus levantou para Israel o Salvador Jesus, assim como prometera. Antes, porém, da chegada de Jesus, primeiramente veio João, pregando o batismo de arrependimento para todo o povo de Israel. Quando estava por concluir seu ministério, ele proclamou: ‘Quem pensais que sou? Não sou o Messias. Vem após mim aquele cujas sandálias eu não sou digno sequer de desatá-las”. Irmãos, a nós hoje é enviada esta mensagem de salvação. As pessoas que habitavam em Jerusalém e seus governantes não reconheceram a Jesus; mas, ao executá-lo, cumpriram as palavras dos profetas. Mesmo não encontrando motivo legal para condená-lo à sentença de morte, rogaram a Pilatos que o mandasse crucificar. Depois de terem cumprido tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, depositaram-no em um sepulcro. Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos dias ele foi visto por aqueles que tinham ido em sua companhia da Galileia para Jerusalém. Essas pessoas agora são suas testemunhas diante do povo. E hoje nós anunciamos essas Boas Novas as quais Deus cumpriu para nós, ressuscitando Jesus. Portanto, meus irmãos, mediante Jesus ainda hoje é anunciado o perdão dos pecados. É isso o que tenho pregado em todos os meus sermões. Não mensagens sofisticadas de sabedoria humana, mas simplesmente que todos necessitam converter-se a Deus com verdadeiro arrependimento, que é legitimado por uma mudança de vida, e viver pela fé em nosso Senhor Jesus.” 


Terminou o culto e as pessoas saíam. Ele viu o rapaz do testemunho na praça e viu que ele o viu; apressou-se e saiu antes que se aproximasse. Mais adiante a rua se abria para um  lado e outro e, de um e outro lado, havia perspectivas claras: na região do Sena o apelo seria nada mais que turístico, o que naquele contexto não fazia sentido; explorando o distrito do Marais, onde estava, havia possibilidade real de encontrar outro templo, quem sabe uma igreja católica;  não uma num momento de missa e, com sorte, sem a presença de um sacerdote e, com ainda mais sorte, de ninguém mais,  exceto talvez uma amiga, o que ele nunca teve, uma amiga que estivesse rezando por ele, poderia ser talvez uma mulher como a que, quando ele entrou na igreja de Saint Paul-Saint louis,  estava numa capela lateral, um recanto de oração ao que parecia, ajoelhada no genuflexório, com a cabeça baixa e as mãos postas, como uma santa entre santos ela própria. 


 Construída no século XVII pelos arquitetos jesuítas Étienne Martellange e François Derand, sob as ordens de Luís XIII, a Église Saint-Paul-Saint-Louis segue um plano tipico, inspirado na Igreja do Gesù em Roma, das igrejas jesuítas do século XVII. A planta da igreja é em forma de cruz latina, com uma nave principal ampla e capelas laterais dispostas ao longo das paredes. Essas capelas servem como espaços de oração mais íntimos e são dedicadas a diversos santos.  A planta detalhada disponível na Bibliothèque nationale de France mostra a disposição das capelas laterais ao longo da nave. Etc Essas capelas laterais proporcionam espaços tranquilos para oração individual, permitindo que os fiéis se retirem da nave principal para momentos de contemplação mais pessoal. etc


Não consigo mais, preciso admitir que não; simplesmente não consigo me sentir à vontade e duma vez por todas preciso parar de tentar..Meu anelo mais intenso é um desejo de sombra e silêncio. Por isso sai do culto e vim direto para cá, a velha igreja de Saint Paul e saint Louis de minha infância quando papai vinha de Melun acertar algum negócio com operadores das madeireiras de Paris e me trazia. Basta entrar nessa nave para ser envolvida pelo inconfundível espírito daqueles domingos, mas nada será sequer semelhante à audição do latim e nada tão frustrante quanto a transição da liturgia para o francês após o concílio.  Olhava o brilho avermelhado do pórfiro e a vibração verde da malaquita,como sinais de que estava em casa, na casa de meu Pai, e qual haveria de ser o sentimento senão de amor e segurança? Porque sou filha e não uma bastarda interessada apenas na herança, que pode ser aqui o desfrute das belezas bárbaras dessa caverna, sem qualquer conotação espiritual, como para os adeptos dos templos nus o são as próprias roupas e jóias das pessoas – sinto-me melhor aqui; devo confessar porém que tive ao longo da vida também os meus momentos congregacionais. O agora decide e, agora, quero estar aqui e aqui orar por o Senhor sabe o que.  

Naquela igreja, à época o centro pastoral do marais, eu me sentia recebida, como meu próprio pai me recebia em seu escritório quando eu ia lhe pedir ajuda para o dever de casa, não importava o quanto estivesse ocupado ou ao telefone,  é essa sensação que sinto agora restaurada, uma virtude desse que é o melhor lugar do mundo, o silêncio na presença de Deus. Sim, posso senti-lo na luz emanada do reflexo nos cristais do turibulo, luz de que me sinto inundada ao respirar, ao me dirigir ao dono da casa sem uma única palavra. 

Em certa medida, tudo acontece graças ao amor, não esse amor vago e retórico de que as pessoas costumam se valer, mas o amor da quietude,  um legítimo amor pela beleza. Olhe a singeleza dessas pinturas,  a evanescência dessa luz, o mistério desses ornamentos, o piso lustrado por joelhos devotos.  Quero estar  enquadrada por esse cenário, compreendida por essa amplidão,  que minha presença se dilua na presença eterna, que cada fragmento e textura se revele devagar e que Deus santifique seu nome em minha vida. Essa atmosfera não se compara a qualquer outra, é mais do que um espaço onde estar, é uma vivência plena, é onde a conciência de tudo é ainda uma experiência limitada, ai de nós, porque somos seres de lábios impuros e habitamos no meio de um povo de impuros lábios, ó Senhor, afaste-se de mim!     

    Aqui eu me sinto desaparecer como um fantasma que se retrai diante de um fantasma maior. Aqui sou o melhor de mim porque não sou. Aqui não tenho segredos e cada nada revela coisas que eram desde antes da fundação do mundo. 

Vez por outra  penso em termos de aparência, o que a aparência das coisas e pessoas podem nos dizer ou ocultar. Por exemplo isso mesmo, quem olhar para mim, na empresa ou na faculdade, jamais imaginara que isso é nada para a filha. E não pode ser isso o caso, por exemplo, do rapaz que chegou no culto em cima da hora e entrou na fileira de bancos em que eu estava. Parecia doente e de certa forma um vagabundo mas seria justo da minha parte avaliar assim sua pessoa? Aliás esse rapaz que passou agora no corredor central parece  com ele. O que impede quele tenha sido predestinado para o louvor da glória do Amado?

 Tudo aqui é de certa forma estranho - porque nada aqui se repete.

Vir orar em uma igreja catolica em meio a santos, o que diriam os irmaos... não sou idolatra os santos aqui tem função puramente estética, visto que penso neles, na verdade nem penso, mas, quando penso, penso nada mais do que como obras de arte, belíssimas alias.  O que importa é a quietude. A contemplação que me está vedada nos cultos. E o culto de hoje ainda teve aquela distração a mais


Pela Rue du Petit Musc, no sentido da estação Sully-Morland, a fé cristã fazia todo sentido, senão pelo amor de um Deus, decerto pela degeneração humana. Diante do penúltimo prédio à esquerda, onde, no centro do pátio, as raízes de uma grande árvore partiam o calçamento, se soubesse ali ter vivido o pintor Eugène Baudelocque e que dera ali a festa de seu casamento com Aimée Marie, teria se espantado com a coincidência, pois a capa de seu bloco de notas era a pintura com que a presentou quando eram noivos. Ao identificar o rio Sena e on consequente afastamento do Marais, retornou à Rue Saint-Antoine, atravessou-a e entrou na Rue de Birague onde a referência do arco da Place des Vosges o consolou. Está com muita fome, com muito sono. Ao atravessar a rua, desviou de um carro parado e quase caiu; se houvesse um risco real, o choque teria acontecido, pela demora da reação. Viu de longe a mulher da igreja; ao vê-la sentiu o cheiro do templo; ao aproximar-se mais, ela se dissipou, embora seu cheiro permanecesse. 

Tinha decidido procurar o albergue de que ouvira falar no restaurant solidaire mas, na esquina da Rue de Turenne com Ormesson, tinha esquecido para onde estava indo. Tirou três moedas do bolso, olhou-as; diante do café dessa esquina, respirou fundo. Uma dessas ruas deveria dar numa rua de pedestres com vitrines de um lado e outro. Segundo se lembrava, havia ali uma grande fila para uma promoção de sanduiche e não era impossível as moedas bastarem.  O contorno acima dos prédios tinha sido engolido pelo nada; um casal vinha em sentido contrário e passou por ele como se fosse a coisa mais natural do mundo. Luzes amarelas transformavam em espelhos os vidros dos carros estacionados. A textura das fachadas era a mesma da primeira vez, quando caminhava com Julie por esses mesmos lugares, mais áspera entretanto; a iluminação pública fixada sob as janelas se dissolvia no lento anoitecer de verão; a neblina ocultava as pedras do pavimento. Então se percebeu diante de um bistrot. O quadro negro indicava os preços. Não pareceu viável e teve vergonha de perguntar. Se alguém o visse agora, não o julgaria morrendo, como estava, só que hesitava quanto ao cardápio; se fosse uma mulher,  reconheceria timidez na forma como recolhia a mão direita na blusa enquanto levava a esquerda ao queixo ao erguer levemente a sobrancelha ao duvidar das próprias percepções sensoriais e não reconhecer o toque da própria mão.  Timidez talvez, nesse caso, uma virtude, tendo em vista  os jovens modernos, ridiculamente  atirados, ao menos para uma mulher que eventualmente o olhasse, evocando figuras de seus sonhos –  sobretudo pelos claros olhos castanhos e cabelos presos. Seu olhar era doce e bem recortados seus lábios. Pensando bem,  parece hesitar não quanto à variedade do cardapio mas quanto aos preços.

 — Salut ! 


Um homem passou sorrindo onde a rue tal e o boulevard tal se encontram e veio na direção do restaurante. A mulher da igreja surgiu, discreta e simpática, um pouco mais que isso. Ao passar por ela na fileira de bancos para ocupar o lugar mais na extremidade junto à janela da igreja, por um delicioso átimo de instante, ele havia sido inebriado; em virtude da tensão, porém, não tinha sido capturado pelo rastro do discreto perfume. Agora percebe que não era tão discreto assim e deixa no ar um enfleurage de flores frágeis sofrendo com o verão de uma Paris turística, jasmim abandonado no ar que ele absorvia e não saía de todo na expiração, essência perfumada de flores não tão frágeis, rosas e narcisos destilados numa alma pronta. Porque tem postura e está ereta, ela é de sua altura e o cheiro exalado é do tamanho de homem, tocando-o desde a cabeça com eucalipto, notas que voláteis desaparecem em seguida e dão lugar às notas de coração para coração, impregnadas a ponto de fazer do vestido uma pequena usina que exalava-se do corpo, aroma amadeirado escapando pelas frestas e produzindo, mais que rastro, um aroma feito de expectativas e memoria.

 Ao perceber o sofrimento do rapaz, aproximou o rosto e perguntou se ele precisava de ajuda para fazer o pedido. O calor de seu hálito retardou a resposta por alguns segundos e causou algum constrangimento enquanto calados se olhavam e desviavam o olhar. Por fim ele assentiu com a cabeça, concordando e agradecendo num mesmo sorriso. “Vamos então dividir uma mesa”, ela disse. Ele disse que sim sem hesitar e o sorriso da mulher a seguir foi imperceptível. Olhava o rapaz nos olhos. Se tivesse de repente confessado a ele algum defeito de caráter, ele nao teria acreditado. A impressão que  passava era de simplicidade e elegância, como convém a uma mulher de igreja; porém essa espécie de graça não anulava uma extroversão quase secular. Era orgulhosa sem perder o ar de bondade. Inspirava um respeito não maior que a atracão que inspirava. Sua constituição firme, o rosto puxando para o quadrado, os seios apontando, tudo passava a ideia de resistência mental à dureza da vida por meio da experiência. A própria faixa de idade, em torno dos trinta, talvez menos, sugeria força e maturidade. as axilas depiladas de um jeito peculiar como que davam sentido à redondeza larga de seus braços, colunas brancas de atracação saindo do mar de seu vestido. 

Um momento, quando ela pareceu que ia desaparecer para sempre no restaurante, Andrei, até então propenso a escapar de qualquer contato humano que  o forçasse a revelar a sua situação, num ímpeto, decidiu aceitar qualquer coisa que lhe possibilitasse comer; como ela não desaparecesse, antes revelasse u.ma nova mulher no momento de erguer o braço para apontar o interior do estabelecimento, meses depois ele se lembrará desse braço como alguém provoca a lembrança de um evento feliz. Haverá então ali a modéstia e a sensualidade equilibradas de tal modo que essa harmonia não poderá ser senão proveniente da mão de Deus, como um perdão resgatador ainda que habitando essa mente cheia de sequelas. Até aquele momento não conseguia pensar além da fome, como satisfazê-la; as circunstancias periféricas a isso nao passavam de irrelevantes detalhes. Diante da mulher, passou a existir uma dimensão mais verdadeira de si mesmo, como se ela estivesse revelando ou permitindo que se manifestasse um outro ser, com outras necessidades.

Ela sentou e disse para ele pegar uma cadeira na mesa do senhor careca sentado junto à parede.


— Si vous plait je peux avoir la chaise ?

—Pardon?

— La chaise

— Oh! — o homem deu uma risada. De modo repugnante, pronunciou: —La “shèz”.

— Oui.

— Voulez-vous vous asseoir ici.  

—Merci pour la chaise.

— Elle est beaucoup plus âgée que vous.

“Mas é mulher, muito mais bonita e inclusive mais jovem que o senhor”.

jeudi 4 janvier 2024

 Para quem vem do mercado da bastilha, depois do museu dos arquivos seguindo para leste há um beco que começa no fim da rue Beaubourg. Em 1629 ali foi encenada a Melite, de Corneille. Caso uma mulher com  indice de massa corporal  de 60 precise ajudar nesse lugar  um homem todo machucado (ele pesa 73 quilos) quando o café quase de esquina por alguma razão estiver fechado, mais ou menos diante das pichações na porta roll-up ao fundo, colocará o braço direito dele sobre o próprio ombro (de súbito firme como  ombros maternos) e, sem que nenhuma das pessoas que testemunharam o vômito do rapaz prestasse atenção neles, ela  o apoiará até a estação Arts et Métiers, onde é mais fácil pegar um taxi. A chuva os apanharia antes entrarem no carro e entrariam no apartamento encharcados.  



Logo na entrada, à direita, se via o banheiro. Os azulejos eram novos, azulados, em forma de concha; reluziam como pedras molhadas. Acima do lugar em que Beatrice se  descalçou, imitada por Andrei, empoçando o tapete, estavam penduradas duas blusas pesadas, de cor indefinida por causa da penumbra, com os respectivos cachecóis. As roupas nos corpos estavam agora envolvidas em úmida transparência. Havia na inclinação do teto um armário com as portas mal fechadas, onde ela guardava a mala da maternidade, roupinhas de bebê e algumas fotos. Embaixo, num canto, um colchonete enrolado, uma caixa com toucas e pantufas e outra com calçados, todos do tamanho semelhante ao que a mulher usava. Ela tocou o interruptor e houve um clarão; a seguir tudo escureceu novamente e um fantasma surgiu onde ela deveria estar.   A luz que a aureolava era da mesma espécie que entrava pelo vitral do templo quando ele pediu licença e, como então, a penumbra anterior realçava  um brilho que preenchia todos os sentidos e os transcendia.   

Ela o ajudou a sentar-se na poltrona, segurando-o pelas axilas. Misturado à claridade vinda da janela , o tecido do forro parecia  mais fino e confortável do que  de fato era.  Era um canto do ambiente arranjado como sala no ambiente único que compreendia também a cozinha, ou pelo menos onde estava o fogão e a pia , e  o escritório, ou pelo menos onde estava uma mesa com papéis e cadernetas. O proprio quarto poderia ser incluido nesse ambiente pois a entrada nao tinha porta. Mal sentou-se, ele recostou a cabeça e fechou os olhos; ela pediu para ele esperar um instantinho, voltaria em seguida.  No banheiro, com dedos hábeis, apanhou a gaze e o esparadrapo numa caixa verde e os vidrinhos de  soro fisiológico e solução antissética no armarinho; depois voltou para a sala e sentou ao lado do rapaz no outro lugar da poltrona .Ao encostar a gaze umedecida na ferida do braço direito , olhou para a reação de dor com a qual mediu a pressão a aplicar.   Ao voltar para a pia do banheiro para lavar as mãos, olhou como que hipnoztizada para as palmas vermelhas.  Pegou um copo no armario, encheu, destacou um antiinflamatorio da cartela e retornou à sala. Ao ver que deixara  a bolsa com os cartões sobre a mesinha de centro, respirou fundo. A cortina que nao chegava a ocultar a janela alta voltada para a rua estava incendiada de arrebol e tremulava. Como ele estava se sentindo? - ela perguntou. 

Antes de qualquer coisa, ele precisava usar o banheiro. 

Ela disse que ficasse à vontade; “mas por favor não tranque", disse.  

Ao fechar a porta, ele finalmente conseguiu respirar.  Abaixou a tampa do vaso, sentou-se e tirou os sapatos. Tinha o olhar do qual ela pensara mais tarde que não fazia questão de ocultar seus desejos como se sempre fossem desejos legitimos ainda que ele proprio nao tivesse certeza. 

 Ao sair encontrou Beatrice na varanda, inclinada no garde-corps, concedendo à sala impensáveis proporções e simetria.  Lá no fundo,  no retângulo da janela do quarto, entre as folhagens das árvores da praça, brilhava a lâmpada de um poste solitário qual lua amarelada entre estrelas de folha. Lá embaixo passava um homem cabisbaixo se afastando entre o poste e a árvore.   

“Estou aqui”, disse ela, e perguntou como ele estava se sentindo. Apenas a palavra errada e tudo morreria. Ele diz que vai sobreviver. Só precisa de um banho. A manteiga de cacau nos labios da mulher produz um reflexo insistente que acompanhava a atencao do rapaz para onde quer que ele olhasse. 

— Acho que o Tomás deixou uma muda de roupa. Vou ver. 

Abrindo as gavetas descobriu que o tempo havia pesado sobre seus antigos sonhos e na verdade os sonhos nao tinham mais qualquer importância para ela exceto como referencia de epocas e idades.  Voltou com dois lençóis dobrados em oito  e uma coberta de lã estampada. Um pijama em cima.

— Não há outro quarto além do meu, Andrei e nao seria apropriado eu lhe dar a minha cama. Mas vou estender um colchonete nesse canto e acho que voce ficara confortavel. 

 Colocou tudo sobre a poltrona e caminhou na direcao da porta, detendo-se diante do armario e dos agasalhos pendurados. Sentado novamente no mesmo lugar da poltrona ele a viu voltar com o colchonete debaixo do braco, olhando-o com um tipo de ternura a que definitivaente nao estava mais acostumado. Ele apoiou os cotovelos nas coxas e colocou a cabeça entre as mãos. 

– Você precisa se deitar. Vou estender a roupa de cama.   

– Preciso mesmo tomar um banho, senhora.  

– Vai sobreviver se deitar sem banho. 

– Desculpe, senhora. Realmente preciso. 

– Está bem.  Venha.

Em alguns momentos da vida  as motivações deixam de importar porque a partir de certas circunstancias as palavras apenas se adaptam às vontades. 

– Olha aqui. Conforme se abre mais a torneira, a ducha fica menos quente. No armário tem toalhas e chinelos. Por favor nao tranque a porta. 

Quando aparecer d  volta na sala ele será uma figura ridícula, as mangas compridas da blusa quase no cotovelo, a calça pescando siri e calçando chinelos rosa com bandeirinha da França.  

   — Andrei?  vou pegar alguma coisa minha para você vestir. O pijama é pequeno.  Tome. Troque-se no meu quarto. É meu moletom de jogging, é unisex. Vou tomar uma ducha também. Fique à vontade mas não se movimente demais. 

Entrou no box ainda vestida, para experimentar a água; tornou a fechar a torneira. Soltou os cabelos e tirou a roupa. Era como se visse o rapaz na sala, como se ele estivesse diante dela. Esteve ali durante todo o banho. Há quanto tempo estava junto dela esse que não parecia sequer existir e agora tem um rosto? Que virtude tem para receber esse rosto? Sequer tentou dissimular suas falhas de caráter. Suas roupas penduradas no varão do box não estavam mal-cheirosas, para quem tem uma história dessas. Eram roupas decentes, tinham os vincos de fábrica, extensões das rugas de expressão que  fez ao entrar no banheiro. Não é um canalha; no entanto, não tem um mínimo de condições para se tornar um homem de bem, para se tornar um homem. Qual é a sua história, qual a história de sua família, por que chegou a esse ponto? Balançou a cabeça e os cabelos lhe caíram pelos ombros. Tirou o anel e tornou a ligar o chuveiro; suspirou e entrou sob a ducha. 

Ele entrou com ela, solitário, perdido, vulnerável e todavia portador de tamanha coragem. Um homem. Falta-lhe pouca coisa, uma única.  Trabalho. Voltou ao próprio corpo, às suas inseguranças.  Às estrias que acaricia, aos dedos dos pés, desproporcionais, a cicatriz na barriga, os solavancos nas curvas, o vão entre os joelhos. Mordeu a esponja para ter as mãos livres; prendeu os cabelos e a seguir passou a esponja atrás do pescoço. Demorou um tempinho até que a gota de shampoo caísse. Espalhou-a pelos cabelos molhados.  Apanhou a toalha pendurada junto às roupas dele, colocou-a na cabeça como um turbante, pegou o roupão sobre a pia e colocou-o.  Olhou-se no espelho com um olhar que não reconheceu e saiu do banheiro.   

O raṕaz tinha se trocado e voltara ao  lugar de sempre na poltrona de dois lugares. Ela  passou por ele sem olhá-lo. Lendo ou pretendendo ler, sobre algumas outras folhas, uma folha datilografada, ele não a olhou. Ela entrou no quarto. A disposição das coisas parecia diferente. Pela janela os telhados das casas vizinhas, dos quais sequer lembrava a cor, mostravam-se em detalhes: as placas de zinco, as chaminés semelhantes a potes de cerâmica ocre, esculturas de ouro, as torres, os bulbos, as cúpulas, os telhados de telha e ardósia mais abaixo do nível desse mar antes pontiagudo e bravio que a paisagem haussmaniana acalma.  Trocou-se.

A saleta era contígua ao quarto e os ambientes divididos por uma parede fina em que havia uma janela interior, agora sobre suas cabeças: ela no quarto, sentada na cama, calçando as sapatilhas, ele na suposta saleta, lendo no sofá, ouve o barulho de um secador de cabelos.  Ela levantou-se e se olhou no espelho. Seu pijama era discreto, de malha marrom-claro com listras brancas fininhas. Não sem antes certificar-se de que o jogging coubera, assim que saiu do quarto,  ela disse “Então, como você está?” e sentou-se ao lado dele. 

—Estou bem, obrigado. A senhora não vai abrir a encomenda de Isabelle? 

Com tudo que aconteceu ela acabou esquecendo. Pegou o embrulho, abriu a caixa e em meio aos sons quebradiços do papier bulle retirou alguns bichos de porcelana.  — Ow! — exclamou e, conforme ia retirando o conteúdo, explicava por que pedira isso a Isabelle, quando foi a Madrid certa vez tinha visto, em Paris não há nada desse tipo, não igual.  Diante deles havia uma mesinha de centro baixa, retangular, onde colocara a caixa; agora coloca ali, no espaço esvaziado, as próprias peças. Eram figuras animais de safari, um urso panda e um tigre; havia também a miniatura de uma paisagem de musgo e um jardim de fadas,  A mulher afundou as mãos e pegou o envelope. Seus olhos brilharam num instante  transformados nos olhos maternos. Seus seios logo satisfarão a pequena Isabelle. Explorou cada um dos bibelôs e quinquilharias com os dedos, lentamente, emitindo sons ininteligíveis com os sorrisos. Quando terminou, apertou a caixa junto ao peito e aproximou o rosto.  

Allons à la cuisine — disse 

 — Vou arrumar as coisas e fazer teu sanduiche. 

Ele calou dentro de si a pergunta. Ela não tinha dito que ele poderia passar a noite? 

O que ela chamava de cozinha fazia parte do mesmo ambiente, separada da sala por um balcão, encostado à parede, na direção do qual ela caminha. Seu porte em casa é como num salão de festas. Empresta solenidade ao simples ato de apanhar na sacola as frutas amassadas no assalto ou colocar as cauxas de cereal no alto do armário. De um lado da bancada divisória ha uma porta de correr e do outro duas prateleiras com louça. O modo como segura os potes passa segurança sem perder a graça. Ainda sai de uma das sacolas o acorde de pão quente. E essa blusa jogada no meio da casa? 

Oh mon Dieu, je suis désolé pour la zaragata.

— “Zaragata”?

— O pai de Isabelle costumava dizer. “Désordonné".

—Ele morreu?

Il y a longtemps. Isabelle nem tinha nascido ainda. Nunca moramos juntos. 

Sobrepõe o abrigo, que comprara na ida para a igreja, na blusa que ela própria vestia.  Comprou para a filha. Mas Isabelle é jovem e tem postura, nunca reclamou de dor nas costas; suas pernas são firmes e o arco ela não herdou; porém as pernas de Beatrice são também bem torneadas pelos agachamentos na oficina. Ela caminha, nessas pernas, em torno da mesinha azul de madeira. Quando senta, as mãos ficam próximas das mãos de Andrei. Ele brinca com o garfo, ela segura com dois dedos da mão esquerda a taça de vinho, a direita segura o joelho esquerdo. Leva a taça à boca.; ato contínuo, espalma a mão para frente. De súbito, levanta-se e se aproxima dele.  

— Seu olho está inchado.  Deixe-me fazer uma compressa     

— Não precisa se incomodar.

— E está com um corte na cabeça. Olhe, um galo enorme.  Vou fazer um curativo. 

Ela escutou "obrigado"  em meio a um suspiro. 



Depois de guardar as outras coisas, restou a rosa sobre a mesa. Vermelha e aveludada, translúcida, em uma embalagem de celofane. Suas pétalas respiravam conforme o movimento modificava a luz embora parecesse que ela própria a propagava. Discretamente inclinada, de pé diante dele, na pequena abertura entre seus joelhos, ela fez o curativo, bebericando da taça sobre a mesa.  Apanhou a flor e colocou-a num vaso de porcelana, com os Vosges pintados perto da borda. Levou o vaso até a janela e colocou-o no parapeito, largo, quase uma sacada.  Andrei a seguiu e se debruçou no garde-corps. Além dos telhados, na copa de uma árvore, folhas tremulavam, muito verdes e pequeninas. Ela conferiu o resultado do curativo depois disse:

— Vou pegar a garrafa. Tinha esquecido como este vinho branco da Alsácia é maravilhoso. Você realmente não quer me acompanhar?

              — Melhor não — disse ele Então apontou para a árvore na janela e perguntou — É um castanheiro?

Ela acha que sim. Pelo menos se parece com um castanheiro. Sim, a janela do andar de baixo está bem próxima da praça.  Ela acha que que sim, alguém se quisesse poderia subir escalando a porta da sorveteria. Mas esse tipo de coisa não acontece por aqui. Bem, pode acontecer, mas não seria  comum.

Ele devia estar pensando “casa de ferreiro, espeto de pau”, comentou ela, rindo quando, passando de novo em frente à janela, viu a abertura gueule de loup danificada. Ele sorriu de leve e respondeu que nem sabe o que é isso. Agora ela se inclina para tocar o parafuso de cremona, acariciando o metal onde o branco estava riscado. O início dos seios casualmente alongou a abertura do pijama no pescoço. A esse movimento se seguiu um outro, acompanhado de um olhar baixo e envergonhado. 

— Preciso ir — disse ele

Il est tard — disse ela.  — Além disso, as roupas molhadas vao fazer as outras roupas cheirarem.  

         Aliviado, ele disse: — Faz parte. Já aconteceu antes. 

— Durma aqui — disse ela, inclinando-se a  seu lado, cuidadosamente. Ele não a olhou. —Vá amanhã

Ele não respondeu. Talvez tenha sorrido.  

— Andrei — disse ela. — Eu só quero que você fique bem

— Vou ficar, graças à senhora.

— De certo modo, estou lisonjeada. 

— Se me permite, deixe-me experimentar o vinho.



— Tive a primeira crise antes da panha, quando ainda trabalhava em um jornal de outra cidade. Nunca tinha trabalhado no meio das pessoas. Trabalhara no telex, com redação, revisão, sempre em ambientes isolados, e um dia me mudaram para a reportagem. Quando entrei na redação, foi como se tivesse saído do corpo e  visse a mim mesmo, paralisado e oprimido, entre a multidão de pessoas alegres, sagazes e barulhentas. Suava, o coração disparado, as mãos geladas. Tinha certeza de que estava a ponto de ter um infarto ou desmaiar ou ter uma convulsão. Tinha uma colega que trabalhava na prancheta em frente à minha no past-up, onde eu fazia horas extras. Ela trabalhava em pé, de costas para mim. Eu sequer a olhava, mas não adiantava. Naquele dia, eu entrei transtornado, mal a cumprimentei, fui para o meu lugar e fiquei ali, com os sintomas. Não conseguia respirar, não conseguia me manter de pé, parecia que meus joelhos iriam dobrar a qualquer momento. Náusea e muita dor no estômago. Os músculos entrelaçados nos nervos, os ombros retesados, palpitação, sensação de desmaio, de morte. Como eu trabalhava em pé, era constrangedor.

—Certamente tem a ver  com   o fluxo sanguíneo. Atualmente há pesquisas com inibidores da enzima  da síntese de óxido nítrico. A força de cisalhamento desenvolvida pelo fluxo sanguíneo é um estímulo fisiológico para a vasodilatação dependente do endotélio.

— O que significa?

—  Talvez seja uma compensação natural para a pressão alta. Parece que você é muito tenso e provavelmente hipertenso ou a caminho de se tornar um. Estresse é o pior veneno. Tambem precisa parar de fumar e diminuir o sal da alimentação, o açúcar também. Sorte você caminhar tanto, por isso não está pior. Não é normal na sua idade. 

—O que? 

—pressão alta.    

—a senhora é médica

—não concluí o curso. voce foi a um medico?

—sim

—ele receitou alguma coisa? 

—diazepan.

—diazepan? 

—sim

—vc tomou? 

—parei. 

depois de quanto tempo?

—um tempo

— Mas tomou. 

— Sim

— E parou por que?

— bem...

— entendi

— nao tomo remedio. nao gosto. 

— considere se as crises não sao sindrome de abstinencia.

— Do diazepam? Foi tão pouco e tão pouco tempo. 

Quanto tempo. 

Para falar a verdade, minha avo e minha mae tomavam e eu tinha acesso facil. Mas nunca abusei. 

— Benzodiazepínico, Andrei. A mais traiçoeira das drogas.  então?

— Então? 

— O que aconteceu depois?

— Quando?

Na prancheta. 

Ah.  Não estava frio mas fiquei de  japona. Em algum momento fui ao banheiro. Depois o ar voltou, fiquei calmo, conversei um tempão com a moça, rimos, nos dias seguintes saímos juntos e quando fui para a roça estávamos namorando.

—Voltou a vê-la ?

— Não.

— Sente saudades ?

—Mal a conhecia.

Pas même au sens biblique ?

  —Mal a conhecia. 

— não é preciso conhecer bem uma pessoa para sentir saudades.

Estavam agora de novo sentados na poltrona. — andrei. você está tremendo.  

— Se a senhora estiver certa, é  sintoma comum em abstinências. 

 — inspire pelo nariz e segure pelo mesmo tempo que você levou inspirando, depois solte durante esse mesmo tempo. Talvez fosse bom você fazer uns exames para descartarctar  alguma coisa no coração. Posso te levar, se quiser. 

O que tiver que ser será. 

Tb sou contra  o médico ir a medico por qualquer coisa, mas a surra que você levou não foi qualquer coisa. 

Foi por uma boa causa. A senhora é um anjo

Não exatamente. E você foi quem foi o meu anjo hoje; estou muito agradecida;não sabemos o que poderia ter acontecido. Paris está ficando estranha. quando eu cheguei aqui, isso seria impensável um assalto assim em pleno Marais. Ainda dói? 

— Um pouco onde chutaram. 

— vou buscar uma pomada. 

— Não precisa. 

—Precisa sim. 



— Deita  aqui nessas almofadas. Melhora? 

—Na verdade dói um pouco quando aperta

—É o esperado. Com licença, vou tirar suas meias. 

—Fique à vontade. 

—E o braço está ficando inchado. Por Deus, Andrei. Você está mesmo bem? Olhe os músculos de seu ombro estão pura pedra. 

— O que é isso, senhora? 

— É um tipo de  massagem. Acupression. Respire, andrei. 

—É mesmo muito bom. 

—Que bom. Descansa, então. Deita na minha cama.Vou terminar um trabalho. 

— Onde?

— Na escrivaninha aolado da cama.  

— Que tipo de trabalho? 

—Revisão de umas peças. 

— Estão aqui? 

— Claro que não, seu bobo! Ver no computador.  

— Sério? Peças que estão na oficina? 

— Sim. 

— Os computadores do jornal onde eu trabalhava não eram nem parecidos.

— É um Amiga 500.  Parecido com o Commodore 64 e com o Apple II, mas melhor e mais rápido. CPU de 32 bits e 7 MHz de velocidade. Tem  512 KB de RAM, suporte a mais de 4096 cores e um drive de disquete interno de 3,5 polegadas. 

— Muito caro? 

— Não sou rica, Andrei. Trabalho muito.  

— Que tipo de peças vai revisar? 

— Dá para ver daí? 

— Dá. O que é? 

— é o teto da parte de uma cristaleira onde vai o espelho. 

— Rachou. 

—  Em dois lugares. 

— É só colar. 

— Não é bem assim. Ao colocar o serre joint, uma das partes levanta, está vendo? 

 — Sim. Se colocar um grampo na outra extremidade não cola? 

— Colar, cola. Mas cola empenado. 

— Então precisa fazer algum tipo de cálculo no computador? 

— Não chega a tanto. A gente pega uma madeirinha, prende com um grampo de cima para baixo (não lateralmente, como o grampo-sargento), depois faz o mesmo do outro lado da rachadura. 

— Entendi! Fica retinho…

  Oui.  

— Que legal. Mas por que o computador?

— Por causa da cor. Essa peça sofreu o que chamamos de “fingimento”. É pinho mas sofreu fingimento para passar por mogno. Então, antes de envernizar, preciso homogeneizar o móvel, envelhece-lo, para não haver diferenças. E para isso, sim, faço cálculos de envelhecimento.   

  —  O que vai usar? 

— Dependendo desses cálculos de que falei, betume, com mais ou menos thinner, ou extrato de nogueira, ou hidroasfalto. Você está bem? 

— dói um pouco onde chutaram. 

— Se a senhora não se importa, se vou mesmo pernoitar aqui, vou tentar cochilar um pouco agora. 

— Tudo bem. Qualquer coisa me chama. 


Estavam espalhadas sobre a escrivaninha algumas folhas em branco e um tinteiro. Ela puxou a cadeiraderodinhas, sentou-se, apanhou a caneta e mergulhou a pena no jarro de peltre.  Andrei tinha fechado os olhos e procurava na almofada uma posição para a cabeça. Ao adormecer, ouvia o ruido de papel amassado e jogado no cesto. A contração involuntária das pálpebras não se refletiu no semblante quando o  telefone cinza tocou alto e ela atendeu rapidamente. 

Non. 

Toujours pas. 

trois jours maintenant 

— Merci. Au revoir.  

Ele esteve perto de chorar. Esticou os braços e olhou as mãos. Era um tremor apenas interno, imperceptível. Agora não poderia lançar mao da solucao facil mais do que nunca paliativa. Acabou adormecendo.  Aqui e ali ouviam-se sirenes que dobravam a ruela pela qual tinham chegado. Depois a porta de entrada do predio se abria para vizinhos gracas a Deus sem rosto. Entravam ou saiam e logo desapareciam no subito silencio de seus apartamentos ou se misturavam ao burburinho da praça. Correndo apos o quique de uma bola, a crianca de repente parou e ficou rindo por muitos segundos antes que o pai chegasse e dissesse "Mon fils, Je t'ai dit"... Esteve um tempo enorme de olhos fechados ouvindo as vozes da praça e os cantos de um e outro pássaro na árvore em frente.  Depois de  uma ambulância ao longe,  os passos sairam da calcada e pisaram consistentemente a terra — se bem lembrava, era um espaco em torno da outra arvore, a mais proxima da janela, o castanheiro, como haviam concordado chamar. Ouviu castelhanos cantados, frances de biquinho; elegante acento britanico de quando em quando se intrometia nos registros. Alargou-se discretamente na cama. 

Nesa hora  nos cafes de Lisboa se escutavam tilintares descascando o burburinho e risadas eternas como marolas lamacentas  contra a  consciência do sem-teto; mas agora ele foi honrado como hospede e as conversas da praca vao se tornando familiares como as vozes de amigos em uma festa abordam assuntos dos quais ja se esta ciente.   à vontade deslizava pelos sons, como se a sua respiração habitasse o mesmo universo, e na verdade habitava. A dor é não mais que uma consciência. Quando adormecera com tamanha paz no ultimo ano ou talvez ao longo de toda a vida? 

Quando abriu os olhos, solas brancas e cascudinhass de pes dobradas sob o assento da cadeira, conforme a luz do sol arrefecia na janela e um possivel raio de luar se imiscuia para ocupar o mesmo espaco, tornavam-se rosadas e a curva dos dedos se avermelhava. Chegara a se esquecer de que a mulher continuava trabalhando, a poucos metros e, segundo o largo raio de luar que agora entra no aposento, a casa do ultimo botao realmente estava com defeito.  O vulto na parede acompanhava e aumentava no sentido do teto os movimentos da generosa cabeça. Eram duas na verdade as sombras da mulher, uma projetada pela lua e outra por uma luminária sobre a mesa. As luzes tambem se encontravam em seus cabelos, realçando-lhes a textura, e na penugem das alvas mãos sobre o moderno teclado M F1 XT. 






— Olá, nem percebi que tinhas acordado. Tudo bem?

—sim. 

— tem certeza, parecia realmentemalagora há pouco.

— sim, estou bem, senhora, obrigado.

— Bem até demais, parece…

 —Obrigado por tudo, senhora. vou para a estação

—Desculpe Andrei, foi um comentário infeliz.

—Estou realmente bem, por isso vou. Obrigado por tudo. 

—deixe de ser criança, não pode ir assim

—já passa

—quero dizer todo machucado e sem dormir

—amanhã ainda estarei machucado. dormirei no trem.  

—afinal resolvi um problema e criei outro

—desculpe. 

— Posso resolver também esse outro?

—Como assim?

—resolver. devo-lhe isso. 

—não me deve nada

—posso?

—o que? 

—Não seja sonso. 

— Não seria boa ideia. 

— acho que seria sim. 

— Melhor não senhora

—  Na verdade nem sei se posso fazer isso. 

—  Não precisa fazer. 

—  Você não pode viajar assim

—  A senhora disse que eu poderia dormir aqui

— Não vai dormir assim

— Já passa.

— Tadinho, não tem descanso. 

— Senhora… 

—Psiu… 

—senhora, por favor

— Respire… 

 —  Assim vai demorar. 

— Está com pressa?

— Falei pela senhora.

—Sempre demora?

— Às vezes

— Ok, Take your time

—a senhora tem uma tatuagem

C'est tena. 

—o que é? 

—tatuagem temporária. 

— é um cachorrinho?

—sim. 

—teve um cachorro?  

—até hoje nao

—a senhora é uma mulher maravilhosa

—Não vai acontecer nada além disso, Andrei.

— pelo menos desabotoe a blusa. 

—Ajuda? 

—Sim

— Só um botão

— Mais unzinho.

Non. Desole

 —Por favor... 

d'accord 

— Por que não tira?  

— Está se aproveitando  

— por favor.

— Está bem. 

—obrigado

—assim está bom?

—mais depressa um pouco

   —assim?

— Um pouco mais. 

—assim?

— Mais um pouquinho.

— Não quero te machucar.

— de outro jeito não machuca

—Nao compreendo.

—Deixa pra la

—Que jeito?

—Esquece.

Oh no! Mon Dieu... Não seria apropriado.

—Eu sei, desculpe. 

—Eu nem teria coragem. 

—Esquece, senhora. 

— Sei que vou me arrepender.

— certamente, senhora, e eu também. me perdoe por ter dito isso. 

— daqui a vinte anos não fará diferença. 

— senhora…

—Mas nao me toque.  Teu romance é sobre o quê? 

— Eu te disse. 

— Conte-me de novo.  

— Agora? 

— Sim. . 

— Bem... 

— Conte... 

— Em uma manhã de agosto, um rapaz estava à beira do rio Tejo com os pés imersos na água. 

— Fazia calor?

— Muito. 

  — Por que estava ali? 

  — Tinha recebido um postal do Brasil e uma carta da Italia e estava lendo.  

  — Continue...

— Não posso... 

— Precisa continuar ou ficarei muito constrangida.  

— À noite ele iria para Madrid.    

— Onde ele estava? 

— No Cais das Colunas. 

—Para onde olhava?

—Olhou para os pés imersos e viu que pareciam dois peixes. 

— Onde ele passou a noite?

—  Na rua. Nas ruas do bairro Alto de Lisboa. 

—  Como é Lisboa de madrugada? 

— Tem o vozerio das mesas na rua e a ladainha dos bêbados e  o canto do oiseau de nuit às três e meia da manhã.  

Oiseau du nuit... 

— Não tem em Paris?

— Tem. Conheço como grive-solitarie, ou tordo-eremita. Sua série harmonica, como a humana, decorre de uma nota básica a que se seguem notas que aumentam de tom com base em múltiplos inteiros da nota original.“Tuck”, “wuck”, “chuk”, “chup”, “choop”. Mas boa parte do tempo é só "prrrrt".

— Como?

— Prrrrt... 

— hahaha… 

—se voce ficar rindo vai demorar mais. 

—desculpe. 

— tudo bem

—é melhor parar mesmo. 

—E depois? 

—Depois?

—Ele foi para onde?

—Santa Apolonia. 

—uma igreja? 

—a estação

—pq?

—Á meia-noite ia pegar o trem para a Espanha. 

— Demora ainda? 

— É um romance. 

— Não me referi ao livro. 

Deixe que eu termino.  

— não ne importo de terminar, só perguntei.

— tire a calça que eu termino

Non. 

só para eu terminar,

—Désolé

—rapidinho. 

—  Ce ne serait pas approprié.

— Tem razão. 

tu es vraiment un manipulateur. 

— Agora vire 

— Prometeste... 

— So toquei no fecho.  

— nao imaginei que eras assim.  

— Ponha as mãos na cabeça.  

—  Já te disse que… 

— Não vai acontecer nada além disso

— Sim

— eu ouvi. 

— Que bom que ouviu.

—  A senhora é maravilhosa. 

— Obrigado

— Preocupou-se comigo, cuidou de mim. 

— Voce merece. É um bom rapaz. Só precisa parar.

— outro dia me disseram isso. 

—Deus usando pessoas

—o que será de mim? 

—você é jovem, vai se curar,. 

estou cansado de tudo isso.

se quiser, pode ficar. pode trabalhar comigo. 

não posso, senhora. 

por que?  

— Não disse que você podia desvirar.

— Desculpe. 

— Só por essa vez. 

— Fique, Andrei

 — Realmente não posso, senhora. 

— Terminou? 

— deixa só um pouquinho

— Não. 

—por favor. 

—tudo bem. Só o necessário. 

— oi? 

—Eu disse tudo bem. 

—śerio?

—Anda logo antes que eu me arrependa. 

— nao. 

— Ah meu Deus, Andrei! 

— é errado. 

— sim, muito errado.  

— me perdoe ter pedido. 

— está perdoado

— obrigado 

 — Posso desvirar entao?

— Desvire. 

Deixe-me terminar

—  Termine. 

— Só prometa que  não vai me tocar. 

— Já prometi. 

—não sei se cumpriu.

   —Por que não podemos fazer direito? 

—  não seria direito. 

—  isso também não é. 

— isso eu posso fazer para te aliviar. 

— Não faz muito sentido, senhora. 

—  É o que temos para hoje, rapaz. 

— Está bem.

—Se ficar, posso acordá-lo assim para sempre. 

—Não posso.

—Nunca mais teria esse problema

—Seria uma honra, mas não posso 

Não quer. 

—Acabamos de nos conhecer.

Oui. Somos duas pessoas livres que acabaram de se conhecer. Ao contrário de voce e Francesca, por exemplo.

—De certa forma  me tornei responsável por ela.

—E Blandine? 

—Falo demais. 

— Desculpe. 

— Tudo bem. 

—Olhe para mim, andrei.  Sério, me perdoe. Perdi o timing. 

—Não há nada a perdoar

—Deixe-me continuar. 

—Não precisa. 

— deixa de ser bobo

—Vou me arrumar. 

Je suis désolé, Andrei. De verdade,.   

— Vou ficar bem.  

—Deves ter uma impressão péssima de mim. 

 —Jamais me esquecerei do que fez por mim. 

— Se tinha alguma virtude, acabei de destruir. Meu Deus, que vergonha! 

—Foi o vinho. 

Nao foi. mas foi melhor assim. Ainda bem que nao quis ficar. Se ficasse, eu teria de cuidar de você depois, e mal dou conta de cuidar de mim mesma.  

 E jesus?

isso nao teve a ver com jesus

tudo tem a ver com jesus. 

Oh Deus… 

Fui um canalha, me aproveitei. 

—Quem sou eu para te condenar. 

—A senhora é uma pessoa maravilhosa. 

Fiquei muito tempo sem ir à igreja, Andrei. Hoje resolvi ir porque estava me sentindo muito mal. Estava me sentindo muito doente, muito sozinha. 

Logo a senhora encontrará alguém. Um homem com um futuro

— Você tem um grande futuro. 

— Não daria certo. 

— Qd um homem e uma mulher firmam um compromisso diante de Deus, não tem como dar errado. Não se trata de dar certo, mas de honrar o compromisso. 

— Realmente não posso, senhora. 

Tudo bem. Deixe-me terminar. 

— Realmente não precisa, senhora.

—É tudo o que precisamos saber acerca do amor. 

— Não. Amor é muito mais. 

— Voce acha?

— Com certeza

— Afinal, és um romântico. 

— A senhora está chorando? 

— Não estou chorando. Deixa-me terminar. 

melhor não, senhora, estou bem

você não pode viajar assim

—A senhora disse que eu não preciso ir hoje

—Não vai conseguir dormir assim. Com licença. Deixa primeiro eu tirar essa chuca. Há quanto tempo usa o cabelo preso?

— Por favor, senhora.

— Foi o marido daquela atriz que lançou essa moda 

  —Devagar!... 

— Depressa, devagar, afinal o que?

— Por favor pare! 

E melhor voce ir para o colchonete. 

—Desculpe ter gritado.

—Voce gritou?

— Ah senhora… 

— Deixe-me sozinha agora 

—Nao posso ficar? 

—Melhor não.  

—Nao precisa acontecer nada.

—Ja aconteceu.

— A conversa estava boa.

— "A conversa"

— Sim, antes. 

pode ficar se adiar a viagem

— Não posso. 

Pourquoi?

—  Minha vida está cheia de pontas soltas.

— Mais uma razão para ficar. 

— Agora sabe o tipo de homem que sou.

— sim, um aventureiro!

— Eu sei.

un manipulateur. 

—  acabei te magoando.

— Como poderia magoar-me? És apenas um  rien,  persone, sem uma vida,  sem lugar para morrer. Trabalho duro desde os 15 anos, rapaz.  Nunca dependi de ninguém.  

— Cuidado, senhora. Deixe-me ajudá-la. 

— So estou um pouco tonta. Estou bem.

—Está mesmo?

— Acha mesmo que alguém como vc poderia magoar?

—  Sei que não. 

Donc bonne nuit.

— deixe-me ficar  Não estou muito bem

—O que está sentindo? 

—Tremores. 

—Suas maos nao estao tremendo. 

—Tremores internos. 

— Está com frio?

—Sim. 

— Está bem. Só um pouco. alguma vez vc teve  convulsao? 

Nunca. 

Desde que parou com o remedio nunca voltou a tomar? 

Algumas vezes, aqui e ali. Nunca mais diariamente. 

E as receitas? 

Tenho muitos comprimidos. Um vidro hospitalar. Nunca mais peguei, mas sao muitos. Dei desses para Katia.

E resolveu para ela? 

Pareceu ajudar. 

E ainda tem. 

Sim. Muitos. 

Muitos quantos? 

Uns cem. A senhora quer ficar com eles?

De jeito nenhum. 

Podemos jogar fora, se é tao ruim. 

Seria perigoso suspender de repente sem ter. Tome meio agora para os tremores.

Nao quero. Detesto o efeito. Esta melhorando. 

Detesta por que causa disfunção? 

nao tem a ver com sexo. 

Nunca esteve tão desperta mas em alguns momentos é tanto o peso das pernas e a nevoa no cerebro que parece vai desmaiar.  Como estivesse escuro para ver, vê o rosto triste do rapaz ao sentir o seu calor. Sabe exatamente do que ele esta falando quando fala em tremores internos. Mas não cre completamente. Ele é tão manipulador…  

— E como foi parar no hospital como cobaia daquela pesquisa? 

— Eu jogava xadrez com a filha do dono do jornal, e ela reclamou de mim com o pai

— tenho medo de perguntar o que vc fez

— nao fiz nada. Talvez a olhasse mas nao nada alem disso

“Como me olhou há pouco decerto”, pensou Beatrice.  — Ela era casada?

— Era. Eu disse ao pai dela que ia ao médico. Foi quando eles fizeram aquele diagnostico e pergutaram se eu nao queria participar do estudo de caso. 

De certa forma eu é quem estou fazendo esse estudo de caso agora. 

Tem um diagnostico?

Sim. Seu problema é o mesmo que o meu. 

—A senhora me disse que tonou o remedio porque teve um terrivel ataque de pânico quando soube que estava gravida. 

— Eu disse? 

— Disse. 

— Bem, é verdade, você é um bom ouvinte; mas nosso verdadeiro problema é o pecado. 

Era dificil entender por que ele nao queria ficar. Juntos, seriam a solucao de todos os problemas. Beatrice o ajudaria com suas abstinencias e ele faria o mesmo por Beatrice.  Exceto claro se ela fosse repulsiva. Ela era? Deus, que pensamento horrivel! Não podia ser pela diferenca de idade, nao era tanta. Talvez ele pensasse no futuro, e no futuro certamente ele ainda seria um senhorzinho sedutor e ela apenas uma mulher caminhando a passos largos para a velhice total.  Ha poucos dias, quando voltava do jardim de luxemburgo, vira um casal assim, ela uma idosa e ele um senhor garboso; estavam de maos dadas e ele nao parecia se importar com nada alem da mulher.  Talvez fosse uma mulher virtuosa, o que Beatrice acabara de mostrar que nao era. Tinha vantagem sobre Blandine e Francesca por ser solteira mas toda desvantagem com relacao a Katia e Rachel. “Tenho que me por em meu lugar”, pensou  Tenho uma filha quase da idade dele”. 

— Estou nesmo com muito frio, senhora

—Estou com sono, Andrei.  Amanhã nos falamos. 




preciso te contar uma coisa. tenho uma amiga,  uma conhecida na verdade,  que tem uma irma que em 1987 morava em veneza. eu a vi dia desses, ela queria que eu lhe emprestasse um dinheiro. culpou a irma por estar precisando daquela quantia.  disse que a irma se prostituia e ela teve de pagar o tratamento de desintoxicacao dela em milao. eu nao ia emprestar tanto dinheiro sem antes me certificar que era mesmo para o que ela estava dizendo.  de fato ela tinha uma irma na prostituicao. a moca morava em veneza. tambem era verdade que ela voltara para a cidadezinha em que elas nasceram e que estava se desintoxicando. mas quando ela pediu o dinheiro a irma ja nao precisava de nada. tinha sido assassinada pelo gigolo dela, de quem fugira. sabe o nome da irma nao sabe? é com essa realidade que estamos lidando. direta ou indiretamente. o pecado. diz respeito a todos e a unica solucao nao tem a ver com cada um mas com um Outro. com cada um apenas na medida do arrependimento de cada um. sabe quem foi minha fonte definitiva? era um arquiteto italiano que foi cliente da moca. nos correspondemos durante meses, recebi sua última carta no começo deste ano. talvez eu estivesse ate me apaixonando por ele, o que seria estranho pois era bem mais velho que eu e sempre me apaixono por rapazes mais novos. na verdade aconteceu duas vezes, mas eu só me apaixonei duas vezes na vida e uma pelo pai de Isasbelle. ele me batia no fim. me estuprou quando cai na loucura de leva-lo à minha estudette. nao o culpei sabe por que? Porque tive minha grande parcela de culpa. Sao os lugares para onde a luxuria nos leva.  



milao, 1988


“Olá, madame Huet. 


Seu advogado falou com o meu, e nem seria necessário, para que  eu contasse à madame sobre aquela moça. Por isso lhe escrevo essa carta. Não aguento mais a vida depois de Kátia, quando soube o que lhe aconteceu. A culpa e a vergonha estão me destruindo.  Não tenho amigos nem família, exceto minha mãe. Sim, tenho sessenta anos, madame, e  minha mae ainda esta viva e eu ainda moro com ela.   Não posso contar tudo a ela porque ela nunca mais me olhará da mesma forma.  Eu me sinto tão mal por ela.  Ela me deu uma infância perfeita e uma vida ótima e eu estraguei tudo. Sou tudo o que sou profissionalmente gracas a ela. 

 Eu era viciado em pornografia e portanto contribuia para a exploração humana da indústria pornográfica.  Desde que parei, meu cérebro desenterrou coisas reprimidas.  Tive muitas  acompanhantes.   Em 1987, eu estava morando na Europa.   Encontrei um anúncio e conheci essa garota.  Acabei gostando dela.  Então, ao longo de um ano, alguns meses depois da última vez que a vi, o número dela foi desligado.  Achei que ela se mudou da cidade ou algo assim.  Ela me disse que estava noiva e prestes a se casar, então pensei que talvez isso tivesse acontecido. Eu tinha armado um plano com o traficante dela, que tambem era seu gigolo e entrei em desespero quando ele nao quis comprir o acordo que fizera comigo. Pensei em mata-lo mas nao tive coragem e, oh. cono me arrependo! pois ela havia me convidado para passar uns dias na casa dela, me apresentar para a mae. quem sabe levarmos adiante uma ideia antiga de casarnos. Mas quando cheguei, dias antes do que combinamos, para lhe fazer uma surpresa, cheguei no dia de seu enterro. 

Tenho culpa e vergonha constantes, não consigo me olhar no espelho. Madame falou sobre Deus e sim, tenho  medo de que Deus não me perdoe e eu vá para o inferno.  Não posso continuar vivendo assim. 

Mas por que a senhora queria saber tudo a respeito de Katia? Quando a conheceu? Por que se interessou  pelo seu destino? 



Paris, 1988


Sentada na beira da cama,  prestava  atenção aos ruídos da sala. Saiu de novo do quarto, de roupão, passou pelo sofá sem virar o rosto e entrou no banheiro. entrou na banheira e afundou até o pescoço. Não tem certeza se deixou as chaves na porta. Está atenta aa fechadura mas a porta que se abre é a do banheiro. O rapaz entra  sem olhar para ela. Senta-se no banquinho de tampo redondo. Ela nao olha para ele, continua com os olhos fixos na lâmpada acima do espelho.

—  Eu voltarei — disse ele.  

— Quem disse que quero? 

        Se a senhora quiser.      

Não quero. 

—Perdoe-me. 

— Deveria aspirar à grande oportunidade que o garanhão  me teria proporcionado, se o senhor voltasse?  Esquilo aventureiro!

— Por favor, Beatrice. 

— As outras também… 

O apartamento real havia desaparecido. Habitavam um limbo entre a vida real e a memória. Em algum momento deveriam acordar, o efeito deveria passar, pois era naturalmente um efeito; mas não: não despertaram. Um escritor lerá assim um romance. Ele lembrou então que era agosto. Quando acordar, ela terá esquecido· Então o avião os surpreendeu; quando terminou de passar, ela concluiu:

— … uma segunda vez?

— Não seja grosseira! Não combina com você!  

— Não seja hipócrita! 

—Não  sou hipócrita! 

—Sim é! Só falei um palavrão e sua vida é todinha  um palavrão. 

— a senhora é cristã. 

— Não respondeu minha pergunta.

— Não se equipare as outras

— Porque sou  melhor, bien sûr.

— É muito melhor. 

—Sou a mulher virtuosa, mas corres atrás de outras. 

— Por favor, Beatrice. Acabamos de nos conhecer. 

Je suis juste une Avicia dans le chemin.  

— Não faça eu me arrepender de ter feito confissões. 

— Não me diga o que posso ou não fazer!!  

— Não estou mais atrás de nenhuma outra 

— Oui, está.

— Não prometi nada. 

— Acabou de prometer

— Você acabou de recusar. 

— como  manteria a promessa perseguindo as outras? Mulheres casadas! 

— Eu cumpriria. Só não posso ficar agora. 

—  É agora ou nunca.

— Não posso. 

eu sobreviverei

—  Logo poderei. 

De combien de temps você precisa?

— Um mes.   

— Então di-me mais uma coisa. 

— Por favor, Beatrice. 

— Não, serio, je suis curieux. 

— Pare com isso. 

Di-moi.

— Por favor, Beatrice. 

   Une dernière chose. 

—  O que é? 

    — Os originais de seu livro estão à mão?   

      —  Sim.     

—Me espere na sala. 

Depois de  alguns minutos, ele estava recostado nos almofadoes do tapete, ela sentou-se na extremidade de antes no sofá. — leia para mim.    

— “Diante do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade”...

— Mais devagar. 

  — “evocou o dia em que conheceu Francesca, levado pela relação entre a reminiscência e os dois sóis"...




Ele dorme com a cabeça nas almofadas encostadas na poltrona onde Beatrice está agora inclinada sobre os calcanhares, enrolada num cobertor.  As listras prateadas provocadas pela persiana separam as cores da


em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma f...