As horas passavam e ele perdera a noção de tempo. Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios, a angústia assumia uma forma diferente; as mudanças da luz emprestavam um novo rosto para o horror. A cor das roupas das mulheres, que substituía o peso dos casacos da outra vez, também passava impressão mórbida de tristeza. Subiu umas escadinhas na Republique e, ao ver a praça de um outro patamar teve um instante de alívio. As pessoas caminham serenamente pelo mundo enquanto as nuvens se abrem sobre o asfalto molhado de uma chuva que ele não chegou a perceber. Aproximou-se da aglomeração de pessoas. Ouviu primeiro o som de um violão e depois a voz que cantava; a mesma voz que a seguir passou a falar para as pessoas em torno.
“Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, porque nós somos os templos vivos de Deus, se estivermos em Deus, pela fé em Jesus Cristo. Nós mesmos somos a igreja do Deus vivo. Ele está hoje chamando a todos”.
Um jovem se aproxima assim que o vê. Lembra Blind Willie Johnson. Estava com um violão há pouco; na mão que segurava o instrumento, tem agora uma bíblia. Um jovem como qualquer jovem ali na praça, no grupo que cantava, entre os que assistiam ou andavam ao redor. “De repente”, disse ele, “eu me vi na rua, caí nas drogas e na delinquência; agora estou aqui para partilhar minha fé”. Andrei ouviu calado com um sorriso respeitoso que em nenhum momento se abriu de todo. Pegou o folheto com a passagem bíblica e atentou quando a moça disse que no verso tinha o endereço da igreja.
Saiu da praça e atravessou a rua no sentido da Passage Vendome. A luz do outro lado iluminou o caminho por menos tempo do que ele poderia desejar. A ciclista passou em frente à janela mais baixa do primeiro prédio da rue Béranger. Logo será noite. Ouvia os próprios passos até que o crescendo de sons na Rue du Temple os apagasse. Parece andar em círculos. Trêmulo e rígido, braços desconectados do corpo, viu, além das bicicletas estacionadas, por instantes, a última luz da tarde. Na Rue Du Petit-Thouars, as sombras das pessoas tinham desaparecido. Os ruídos da cidade estão impregnados de tristeza. Sentiu uma pontada no ouvido e parou, escutando a rua, esperando uma nova pontada; ficou ali parado alguns minutos, percebendo as luzes sem vê-las, descartando-as como se estivesse apenas pensando, como se descarta um pensamento. Apoiou-se em uma das pernas, com a outra equilibrou-se. A sensação de que ia a qualquer momento cair se mostrava falsa instante após instante. Talvez fosse melhor: cair, de uma vez por todas.
Estava caminhando há pelo menos meia hora em linha reta pela quando um homem pediu licença, tocou-o e apontou para um beco. As vozes no salão de refeições parecem conhecidas. Há uma mulher entre os homens tomando sopa. Está grávida. Todos comem tranquilos. O que estava na mesa com a mulher lhe deu sua maçã. Tomam grandes colheradas e terminam logo, depois saem com suas sacolas. Ele próprio está tranquilo. A miséria tem esse efeito, intensifica as pequenas coisas da vida, como uma boa refeição. Para a mulher, ele faz parte da mesa. Está tão tranquilo que chega a repassar os momentos tensos da noite, como se fosse um filme. Os policiais que o revistaram na Rue St. Denis foram gentis. O filme teria sido perfeito, embora não entendesse uma palavra, não fosse por uns e outros passando atrás de sua poltrona. Fez bem em se afastar do albergue ao perceber o pessoal à sua frente enrolando um baseado. Não está cansado embora devesse estar. Nunca caminhou tanto assim, horas ininterruptas, sem parar para sentar-se nas escadas de alguma igreja ou se encostar em uma parede. Talheres e louça retiniam à saida do refeitório e agora para onde ir? -- para onde ir, se pergunta. As bandejas empilhadas no balcão onde serão lavadas tem um som particularmente agressivo ao se misturar com as vozes dos indigentes e dos tres funcionarios que servem a comida. Um ou outro homem bem vestido ainda permanece à mesa. Não aparenta angustia. Duas ruas depois,as mulheres se aproximavam e murmuravam em seu ouvido sem que ele entendesse ou precisasse entender; os reflexos avermelhados do calçamento iluminavam a fachada dos predinhos. Sombras cruzadas se arrastam pelas ruas estreitas. A noite será longa.
Uma mulher de pele clara, ruiva, de trinta anos, está sentada no chão acarpetado de seu quarto num apartamento haussmanniano no bairro do marais. Está virada para uma janela aberta olhando para fora. O quarto é pouco iluminado, com um brilho suave vindo da janela onde se vê a copa de um castanheiro no centro da Place du Marche de Sainte Catherine. A sua expressão é pensativa, algo melancólica. Seus cabelos castanho-avermelhados descansam em seus ombros. Veste um pijama cinza claro com riscas finas e horizontais também cinza claro. Seus pés descalços estão pousados no carpete. Sua postura descontraída é reflexiva. Uma cama de cor escura é visível ao fundo. O tom geral da cena é contemplativo, transmite um momento de introspecção, talvez ou tristeza. A composição é simples, enfatizando o estado emocional da figura em ambiente doméstico. As sombras são sutis e a luz em inesperados tons quentes criam um clima de estranho e tranquilo.
Era uma noite quente, embora houvesse previsão de frente fria nas horas seguintes. Bioluminescentes vagalumes apaixonados brilhavam amarelo ao redor do castanheiro. A mulher podia ve-los, uma rio de estrelas esverdeadas, como se o céu houvesse transbordado, como um trem noturno para o paraíso.
A Place du Marché Sainte-Catherine foi construída em 1784 no local do Convento real de La Couture. Projetada para ser um mercado, hoje acomoda esplanadas de cafés; diferente do resto do Marais, é um lugar tranquilo, isolado, embora fique a não mais do que dez minutos a pé da Place de Vosges. Há trezentas e cinquenta janelas voltadas para a praça. Há ali amoreiras chinesas e os bancos de madeira sólida são bastante confortáveis. Ao voltar para casa do trabalho, a mulher costuma entrar na área da praça pela Rue d'Ormesson, cansada, perguntando-se se algum dia vai se acostumar a ser a patroa, justo ela, sem a menor vocação para dar ordens (nem para obedecer). Sua empresa esta agora na rue de la Huchette e ela atravessa a ille de la cite ao voltar de noite, sentindo-se como quem estivesse não perto do palacio da justica de hoje, mas respirando evocacoes dos ogros e ogresses atraidos pela condenacao da Paris retratada por Eugene Sue. A torre de Saint-Jacques se erguia quando uma pomba branca cabeceava na direcao de uma mulher apressada com a bolsinha negra presa as costas como se fosse mochila. Duas mocinhas dancando de maos dadas, sincronizadas, entraram na rue rivoli. Um dos dois homens sentados à mesma mesa em um cafe apontou num mapa e olhou esperançoso para o interlocutor.
Faz algum tempo ela não vai aos cultos. Há pelo menos dois ou três anos as tardes de fim de semana estão reservadas para longos passeios pelas galerias e passagens cobertas, pelos parques; às vezes ia ver um filme em algum cinema de rua. Na volta, telefona faz a chamada interurbana para a filha antes que ela saia e, ao desligar, coloca um LP de música clássica; apanha uma taça de vinho e lê até dar sono. Vai se deitar cerca de meia-noite. Dorme direto até de manhã. A bebida nunca altera seu humor exceto por uma eventual náusea.
Dorme depressa.
Não tem amigos. Dentre os poucos que tem, os da igreja acham-na com tendências seculares. Essa foi a principal razão por que parou de ir aos cultos. Os amigos, não da igreja, esses a acham carola. Bem, foi uma das razões, não a principal. Ir à igreja agora a entediava. A cantoria a assustava e só queria voltar para casa. Tinha ido a muitas igrejas diferentes ao longo da vida e todas tocavam a mesma música otimista. Gostava de adorar a Deus sozinha e ouvir a música de que gostava. Adorar a Deus é algo muito intimo para ser feito coletivamente. Há ocasiões que pedem confraternização, mas não é a regra. A regra é a porta do quarto fechada. De blues, ela gosta muito. O blues reflete melhor a luta contra o pecado. Na igreja agora há um grupo de jovens que toca e prega na Place de la Republique, estarão na igreja à noite. Cristianismo não é essa chorumela atual. Lutar contra a natureza pecaminosa é luta árdua, acordes sombrios a refletem melhor. Disse isso a um dos rapazes, o guitarrista; ele não parece ter entendido – parece ter se apaixonado. É um problema. Os de meia-idade carentes, os casados acomodados e a juventude ardendo. Ela não está ainda na meia-idade mas chegando mais depressa do que gostaria. Não é carente, pois aprendeu sua lição; mas tem dias muito dificeis.
Gosta dos sermões.
Queria entender direito o que significa arrepender-se. Durante muito tempo imaginou que pudesse resolver essa querela sozinha, por meio de uma determinação interior, sem envolver Jesus,. O ponto crucial era identificar em que medida a vontade tinha uma função ativa na mudança de vida após a conversão, o quanto era livre o arbítrio, vez que havia um e não poderiam ser os humanos fantoches de um Deus misericordioso da mesma forma que não poderiam ser queimados eternamente nas mãos de um Deus irado (ainda que "não poderiam" era uma expressão retórica sem lá muito sentido diante do destino da parte majoritária das pessoas na terra). Converteu-se, ou, dito de outro modo, passou a frequentar igreja, mas a questão permaneceu sempre em aberto; mudar, mudar de verdade, ela nunca mudou; e isso não deveria tornar ilegítima a sua fé? Por exemplo, naquela noite, por causa da banda, decidiu ir ao culto. Não por causa da música da banda, do louvor, mas da banda em si. Ora, se ela já se posicionara acerca dos olhares que recebia, se sua vontade era evitar todo possível mal-entendido e – jamais – não brincar com o sentimento dos rapazes, por que deveria alimentar semelhante motivação para voltar a um culto? E por que ficou tanto tempo diante do espelho escolhendo a roupa, se concordava plenamente com a orientação bíblica sobre o traje das mulheres na igreja? Por que permitiu tamanho gasto de energia verificando se a saia marcava seu corpo e por que tanta decepção quando a calça comprida nem coube? No final, ainda que leg nao estivesse proibida com um camisão, não se sentiu à vontade e acabou colocando o vestido de algum casamento de que não se lembrava e colocou um blazer por cima, sem ficar de todo satisfeita. Enfim. Os ombros e os cotovelos cobertos, os joelhos cobertos, fazer o que. Roupa preta é muito triste. A estola colorida deve resolver. N'oubliez pas: la bienséance fait la différence
Vinha ele pela Rue de la Bastille, quando viu ao fundo, além de uma pracinha onde havia muitas motos estacionadas, o que parecia ser um templo. Procurou placas para confirmar. Perguntou no ponto de táxi. Achou que ririam de seu francês de estrangeiro, que zombariam de um turista sans abri. Respeitoso, o homem confirmou com a cabeça e apontou para o outro lado da rua.
Não se parecia com uma igreja evangélica que enviasse pregadores-músicos como o rapaz que lembrava o bluesman. Parecia antes uma igreja católica, o que lhe pareceu bem, por ser mais impessoal. Talvez fosse um desses grupos de "renovados''. Atravessou a rua distraído e, quando o carro buzinou ao passar raspando, seu coração trêmulo gelou. Pela primeira vez pensou a sério sobre o que acontecera com Julie. Quando uma mulher de pele amarronzada, de jeans e camiseta branca, passou pela rua da igreja, ele olhou para frente e viu o templo do folheto. A seguir, o motorista do ônibus 76, que vinha em sentido contrário, fez sinal para que passasse e, ao Andrei fazê-lo, buzinou.
Adiante, carros e pessoas dividem o calçamento. O diácono, que recebia os visitantes na entrada, distraiu-se um minuto, conversando com uma fiel, e ele passou nesse vácuo. Quando entrou, um choro de bebê se levantava do murmúrio das pessoas. Os jovens da praça estavam sentados em cadeiras ao lado dos instrumentos musicais, lá na frente, diante do piano cuja música de introdução ao culto saía das mãos de um mocinha magra de vestido esverdeado. Um estalo em algum lugar pareceu a queda de algo e depois disso o bebê se aquietou. Os passos no corredor ecoam e suas vozes crepitam como um fogo baixo. Duas capelas elípticas ladeiam a rotunda do prédio. Esse círculo pode, de dentro, causar vertigem. Uma senhorinha de casaco, com um crachá, acompanhou-o até a lateral do banco e apontou o lugar vago. Para ali chegar, andando lateralmente e apoiado com as mãos no espaldar do banco da frente, ele passou por um casal que facilitou seu caminho, encolhendo as pernas, o que a mulher ao lado não se preocupou em fazer, distraída com outras eventuais dificuldades do moço. “— Com licença, senhora” — disse ele. Entreolharam-se por uma fração de segundo suficiente para que um mundo nascesse. As olheiras dele contrastavam com um rosto muito branco de doente. O vidro da janela à esquerda, que há pouco ardia, estava agora esmaecendo. Sem sorrir, a mulher assentiu com a cabeça. Ele ia sentar-se a seu lado, um lugar depois, na extremidade do banco, junto ao corredor do vitral; porém no último momento saiu da fileira e sentou-se no banco da fileira da frente, bem na frente da mulher.
Vez por outra alguém tosse. Há uma tela no fundo, do lado esquerdo do púlpito, onde é projetada a letra do cântico que agora começa em vozes remotas; quando ele sentou, fez-se silêncio. O pastor se levantou e cumprimentou os visitantes; não olhou para Andrei. O banco em que está sentado, como os demais, é de madeira, com acabamento de verniz; tem 45 centímetros do assento até o chão. Ele está agora na antepenúltima fileira de oito. Consegue enfim, apesar da pressão do local desconhecido sobre seus pensamentos, refletir em tudo o que aconteceu desde que o voo de Bayonne pousou na pista do aeroporto; há também uma distração provocada por alguns cheiros, que todavia não chega a impedir que evoque a empregada da casa da senhora Perrot, a praça da República, as ruas do Marais, tudo envolto na aura única, não anulada, antes intensificada, pela dor e privações, de uma autentica obra de arte em que sua reles vida parecia se transformar.
Após um louvor no qual algumas mãos se ergueram e alguns sorrisos de uma espécie de êxtase se abriram e a leitura de um salmo pela voz de um dos outros rapazes da praça, com a possibilidade de avaliar o rapaz com um discretíssimo desvio do olhar, a mulher certificou-se de que nunca o vira. Não é nada comum rapazes com mochila nos cultos; mas, numa sexta-feira, pode ter vindo da escola ou do trabalho. Era alto, nao muito, magro mas musculoso, certamente bonito; longe de ser uma beleza que em si mesma chamasse atenção, porém. Ela o viu de longe, quando ele ainda estava entre o diácono e sua mulher. Porque ela própria estava constrangida e dispersa e sua cabeça e olhar obedeciam antes à dispersa-o, te-lo visto terminou por cumprir uma função que devia ser a do zelo, a saber, leva-la a voltar sua atenção, ou o que restava dela, para o pastor e o que ele dizia. Mas a voz ainda ecoava em sua mente. Uma voz sonora e todavia murmurante. Nunca foi chamada de “senhora”, não que se lembre não por alguém quase da sua idade.
O pastor tem quarenta e sete anos. Seu nome é Rilke Bennihome. Parece africano, mas nasceu em uma pequena cidade às margens do Ródano. Os pais eram pescadores e vieram para Paris após a enchente dos anos 50. Antes disso, atravessavam o rio a pé sobre os seixos. Rilke demorou para se acostumar a comer suas refeições sem ablettes. Foi por causa desses peixes que conheceu a futura esposa quando os dois pescavam nos arredores da Pont-Neuf. Descobriram que eram da mesma região. No final de semana seguinte estavam pescando e namorando na Pont Marie. Cedo, porém, ele ficou viúvo e nunca mais pensou em se casar.
Depois de conhecer as ideias do pastor Éoune Lielle, que pregava o “cristianismo social”, desejou conhecê-lo pessoalmente e se tornaram amigos durante um seminário. Por intermédio de Lielle, conseguiu um importante cargo de livreiro em Lyon. Não se adaptou, pois lioneses detestam que as pessoas falem em inglês e desde a época do congresso ele havia se acostumado a usar o idioma sempre que podia; afinal, após a morte do amigo em 1986, voltou para Paris e assumiu o cargo de pastor no templo do 4o. arrondissement.
Na época em que conheceu Beatrice Huet, tinha abandonado o cristianismo social; passou a pregar o evangelho com ênfase na relação pessoal entre o homem e Deus. Concordavam em quase tudo, exceto por ela viver tão reclusa. Béatrice, tu devrais avoir plus de communion avec les frères et soeurs - costumava dizer. Não a demoveu do seu jeito de ser, porém. Como outra coisa não tinha, restara a ela o segredo, a visita constante aos lugares secretos de seu consolo insuspeito.
— Soyez tous les bienvenus.
— C'est une joie c'est une joie de vous retrouver ce nuit
— Oui c'est une joie de vous retrouver de célébrer ensemble ce culte pour dieu c'est une joie aussi de se dire que nous avons devant nous un semestre entier de culte pour célébrer dieu ensemble. Pour vivre ensemble devant le seigneur. Pour célébrer ensemble dieu pour le louer et pour nous mettre à l'écoute de sa parole.
— je vous invite à de du seigneur quelle joie d'être ici ensemble dans ta maison sous ton regard que nous soyons présents dans le temple ou bien chez nous peu importe parce que nous sommes maintenant ici et maintenant au bon endroit nous sommes là où nous devons être parce que tu es là et c'est notre joue un seigneur c'est notre joie de t'accueillir c'est notre joie de nous tenir dans ta présence en confiance c'est notre oie de pouvoir élever ensemble la voie pour te louer alors viens viens maintenant partons sans esprit vient investir ce temple mais pas seulement le temple physique vient investir le temple de nos esprits remplit nos maintenant de ta présence prend toute la place seigneur que nous puissions être dans ce moment rassembler totalement à toi parce que nous sommes ton peuple au nom de jésus christ. amen
“Irmãos nunca nos esqueçamos de que Jesus é a razão de nossa fé e de nossa vida. Ele foi aprovado por Deus diante dos homens com milagres e sinais. Foi entregue aos pecadores e assassinado, pregado numa cruz; mas Deus o ressuscitou dos mortos porque era impossível que a morte o retivesse. Por esse motivo, nosso coração está alegre e a nossa língua exulta e louva a Deus, pois da mesma forma nos estamos livres da morte. A ressurreição do Cristo é a nossa ressurreição – desde que nosso arrependimento, que é a mudanca da nossa mente na direção de Deus, tenha sido verdadeiro e provado por meio dos frutos dessa mudança. Perseveremos pois no ensino do Senhor e na comunhão, no partir do pão e nas orações, porque assim nos manteremos saudáveis.
E quando falamos da salvação de Jesus Cristo e do arrependimento, estamos falando do cumprimento de uma promessa. O Deus honrou seu povo durante o tempo em que, como estrangeiros, caminharam pela terra da escravidão, de onde os libertou com braço poderoso. O Senhor zelou por eles com paciência, no deserto, durante cerca de quarenta anos. Destruiu sete nações em Canaã e lhes entregou a terra em que habitavam, como herança. Isso levou aproximadamente quatrocentos e cinquenta anos, quando então lhes deu juízes até a época do profeta Samuel. Mas o povo lhe rogou por um rei, e Deus lhes concedeu Saul, que reinou quarenta anos. Depois que tirou o reinado de Saul, deu-lhes Davi como rei. Deste homem, Deus levantou para Israel o Salvador Jesus, assim como prometera. Antes, porém, da chegada de Jesus, primeiramente veio João, pregando o batismo de arrependimento para todo o povo de Israel. Quando estava por concluir seu ministério, ele proclamou: ‘Quem pensais que sou? Não sou o Messias. Vem após mim aquele cujas sandálias eu não sou digno sequer de desatá-las”. Irmãos, a nós hoje é enviada esta mensagem de salvação. As pessoas que habitavam em Jerusalém e seus governantes não reconheceram a Jesus; mas, ao executá-lo, cumpriram as palavras dos profetas. Mesmo não encontrando motivo legal para condená-lo à sentença de morte, rogaram a Pilatos que o mandasse crucificar. Depois de terem cumprido tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, depositaram-no em um sepulcro. Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos dias ele foi visto por aqueles que tinham ido em sua companhia da Galileia para Jerusalém. Essas pessoas agora são suas testemunhas diante do povo. E hoje nós anunciamos essas Boas Novas as quais Deus cumpriu para nós, ressuscitando Jesus. Portanto, meus irmãos, mediante Jesus ainda hoje é anunciado o perdão dos pecados. É isso o que tenho pregado em todos os meus sermões. Não mensagens sofisticadas de sabedoria humana, mas simplesmente que todos necessitam converter-se a Deus com verdadeiro arrependimento, que é legitimado por uma mudança de vida, e viver pela fé em nosso Senhor Jesus.”
Terminou o culto e as pessoas saíam. Ele viu o rapaz do testemunho na praça e viu que ele o viu; apressou-se e saiu antes que se aproximasse. Mais adiante a rua se abria para um lado e outro e, de um e outro lado, havia perspectivas claras: na região do Sena o apelo seria nada mais que turístico, o que naquele contexto não fazia sentido; explorando o distrito do Marais, onde estava, havia possibilidade real de encontrar outro templo, quem sabe uma igreja católica; não uma num momento de missa e, com sorte, sem a presença de um sacerdote e, com ainda mais sorte, de ninguém mais, exceto talvez uma amiga, o que ele nunca teve, uma amiga que estivesse rezando por ele, poderia ser talvez uma mulher como a que, quando ele entrou na igreja de Saint Paul-Saint louis, estava numa capela lateral, um recanto de oração ao que parecia, ajoelhada no genuflexório, com a cabeça baixa e as mãos postas, como uma santa entre santos ela própria.
Construída no século XVII pelos arquitetos jesuítas Étienne Martellange e François Derand, sob as ordens de Luís XIII, a Église Saint-Paul-Saint-Louis segue um plano tipico, inspirado na Igreja do Gesù em Roma, das igrejas jesuítas do século XVII. A planta da igreja é em forma de cruz latina, com uma nave principal ampla e capelas laterais dispostas ao longo das paredes. Essas capelas servem como espaços de oração mais íntimos e são dedicadas a diversos santos. A planta detalhada disponível na Bibliothèque nationale de France mostra a disposição das capelas laterais ao longo da nave. Etc Essas capelas laterais proporcionam espaços tranquilos para oração individual, permitindo que os fiéis se retirem da nave principal para momentos de contemplação mais pessoal. etc
Não consigo mais, preciso admitir que não; simplesmente não consigo me sentir à vontade e duma vez por todas preciso parar de tentar..Meu anelo mais intenso é um desejo de sombra e silêncio. Por isso sai do culto e vim direto para cá, a velha igreja de Saint Paul e saint Louis de minha infância quando papai vinha de Melun acertar algum negócio com operadores das madeireiras de Paris e me trazia. Basta entrar nessa nave para ser envolvida pelo inconfundível espírito daqueles domingos, mas nada será sequer semelhante à audição do latim e nada tão frustrante quanto a transição da liturgia para o francês após o concílio. Olhava o brilho avermelhado do pórfiro e a vibração verde da malaquita,como sinais de que estava em casa, na casa de meu Pai, e qual haveria de ser o sentimento senão de amor e segurança? Porque sou filha e não uma bastarda interessada apenas na herança, que pode ser aqui o desfrute das belezas bárbaras dessa caverna, sem qualquer conotação espiritual, como para os adeptos dos templos nus o são as próprias roupas e jóias das pessoas – sinto-me melhor aqui; devo confessar porém que tive ao longo da vida também os meus momentos congregacionais. O agora decide e, agora, quero estar aqui e aqui orar por o Senhor sabe o que.
Naquela igreja, à época o centro pastoral do marais, eu me sentia recebida, como meu próprio pai me recebia em seu escritório quando eu ia lhe pedir ajuda para o dever de casa, não importava o quanto estivesse ocupado ou ao telefone, é essa sensação que sinto agora restaurada, uma virtude desse que é o melhor lugar do mundo, o silêncio na presença de Deus. Sim, posso senti-lo na luz emanada do reflexo nos cristais do turibulo, luz de que me sinto inundada ao respirar, ao me dirigir ao dono da casa sem uma única palavra.
Em certa medida, tudo acontece graças ao amor, não esse amor vago e retórico de que as pessoas costumam se valer, mas o amor da quietude, um legítimo amor pela beleza. Olhe a singeleza dessas pinturas, a evanescência dessa luz, o mistério desses ornamentos, o piso lustrado por joelhos devotos. Quero estar enquadrada por esse cenário, compreendida por essa amplidão, que minha presença se dilua na presença eterna, que cada fragmento e textura se revele devagar e que Deus santifique seu nome em minha vida. Essa atmosfera não se compara a qualquer outra, é mais do que um espaço onde estar, é uma vivência plena, é onde a conciência de tudo é ainda uma experiência limitada, ai de nós, porque somos seres de lábios impuros e habitamos no meio de um povo de impuros lábios, ó Senhor, afaste-se de mim!
Aqui eu me sinto desaparecer como um fantasma que se retrai diante de um fantasma maior. Aqui sou o melhor de mim porque não sou. Aqui não tenho segredos e cada nada revela coisas que eram desde antes da fundação do mundo.
Vez por outra penso em termos de aparência, o que a aparência das coisas e pessoas podem nos dizer ou ocultar. Por exemplo isso mesmo, quem olhar para mim, na empresa ou na faculdade, jamais imaginara que isso é nada para a filha. E não pode ser isso o caso, por exemplo, do rapaz que chegou no culto em cima da hora e entrou na fileira de bancos em que eu estava. Parecia doente e de certa forma um vagabundo mas seria justo da minha parte avaliar assim sua pessoa? Aliás esse rapaz que passou agora no corredor central parece com ele. O que impede quele tenha sido predestinado para o louvor da glória do Amado?
Tudo aqui é de certa forma estranho - porque nada aqui se repete.
Vir orar em uma igreja catolica em meio a santos, o que diriam os irmaos... não sou idolatra os santos aqui tem função puramente estética, visto que penso neles, na verdade nem penso, mas, quando penso, penso nada mais do que como obras de arte, belíssimas alias. O que importa é a quietude. A contemplação que me está vedada nos cultos. E o culto de hoje ainda teve aquela distração a mais
Pela Rue du Petit Musc, no sentido da estação Sully-Morland, a fé cristã fazia todo sentido, senão pelo amor de um Deus, decerto pela degeneração humana. Diante do penúltimo prédio à esquerda, onde, no centro do pátio, as raízes de uma grande árvore partiam o calçamento, se soubesse ali ter vivido o pintor Eugène Baudelocque e que dera ali a festa de seu casamento com Aimée Marie, teria se espantado com a coincidência, pois a capa de seu bloco de notas era a pintura com que a presentou quando eram noivos. Ao identificar o rio Sena e on consequente afastamento do Marais, retornou à Rue Saint-Antoine, atravessou-a e entrou na Rue de Birague onde a referência do arco da Place des Vosges o consolou. Está com muita fome, com muito sono. Ao atravessar a rua, desviou de um carro parado e quase caiu; se houvesse um risco real, o choque teria acontecido, pela demora da reação. Viu de longe a mulher da igreja; ao vê-la sentiu o cheiro do templo; ao aproximar-se mais, ela se dissipou, embora seu cheiro permanecesse.
Tinha decidido procurar o albergue de que ouvira falar no restaurant solidaire mas, na esquina da Rue de Turenne com Ormesson, tinha esquecido para onde estava indo. Tirou três moedas do bolso, olhou-as; diante do café dessa esquina, respirou fundo. Uma dessas ruas deveria dar numa rua de pedestres com vitrines de um lado e outro. Segundo se lembrava, havia ali uma grande fila para uma promoção de sanduiche e não era impossível as moedas bastarem. O contorno acima dos prédios tinha sido engolido pelo nada; um casal vinha em sentido contrário e passou por ele como se fosse a coisa mais natural do mundo. Luzes amarelas transformavam em espelhos os vidros dos carros estacionados. A textura das fachadas era a mesma da primeira vez, quando caminhava com Julie por esses mesmos lugares, mais áspera entretanto; a iluminação pública fixada sob as janelas se dissolvia no lento anoitecer de verão; a neblina ocultava as pedras do pavimento. Então se percebeu diante de um bistrot. O quadro negro indicava os preços. Não pareceu viável e teve vergonha de perguntar. Se alguém o visse agora, não o julgaria morrendo, como estava, só que hesitava quanto ao cardápio; se fosse uma mulher, reconheceria timidez na forma como recolhia a mão direita na blusa enquanto levava a esquerda ao queixo ao erguer levemente a sobrancelha ao duvidar das próprias percepções sensoriais e não reconhecer o toque da própria mão. Timidez talvez, nesse caso, uma virtude, tendo em vista os jovens modernos, ridiculamente atirados, ao menos para uma mulher que eventualmente o olhasse, evocando figuras de seus sonhos – sobretudo pelos claros olhos castanhos e cabelos presos. Seu olhar era doce e bem recortados seus lábios. Pensando bem, parece hesitar não quanto à variedade do cardapio mas quanto aos preços.
— Salut !
Um homem passou sorrindo onde a rue tal e o boulevard tal se encontram e veio na direção do restaurante. A mulher da igreja surgiu, discreta e simpática, um pouco mais que isso. Ao passar por ela na fileira de bancos para ocupar o lugar mais na extremidade junto à janela da igreja, por um delicioso átimo de instante, ele havia sido inebriado; em virtude da tensão, porém, não tinha sido capturado pelo rastro do discreto perfume. Agora percebe que não era tão discreto assim e deixa no ar um enfleurage de flores frágeis sofrendo com o verão de uma Paris turística, jasmim abandonado no ar que ele absorvia e não saía de todo na expiração, essência perfumada de flores não tão frágeis, rosas e narcisos destilados numa alma pronta. Porque tem postura e está ereta, ela é de sua altura e o cheiro exalado é do tamanho de homem, tocando-o desde a cabeça com eucalipto, notas que voláteis desaparecem em seguida e dão lugar às notas de coração para coração, impregnadas a ponto de fazer do vestido uma pequena usina que exalava-se do corpo, aroma amadeirado escapando pelas frestas e produzindo, mais que rastro, um aroma feito de expectativas e memoria.
Ao perceber o sofrimento do rapaz, aproximou o rosto e perguntou se ele precisava de ajuda para fazer o pedido. O calor de seu hálito retardou a resposta por alguns segundos e causou algum constrangimento enquanto calados se olhavam e desviavam o olhar. Por fim ele assentiu com a cabeça, concordando e agradecendo num mesmo sorriso. “Vamos então dividir uma mesa”, ela disse. Ele disse que sim sem hesitar e o sorriso da mulher a seguir foi imperceptível. Olhava o rapaz nos olhos. Se tivesse de repente confessado a ele algum defeito de caráter, ele nao teria acreditado. A impressão que passava era de simplicidade e elegância, como convém a uma mulher de igreja; porém essa espécie de graça não anulava uma extroversão quase secular. Era orgulhosa sem perder o ar de bondade. Inspirava um respeito não maior que a atracão que inspirava. Sua constituição firme, o rosto puxando para o quadrado, os seios apontando, tudo passava a ideia de resistência mental à dureza da vida por meio da experiência. A própria faixa de idade, em torno dos trinta, talvez menos, sugeria força e maturidade. as axilas depiladas de um jeito peculiar como que davam sentido à redondeza larga de seus braços, colunas brancas de atracação saindo do mar de seu vestido.
Um momento, quando ela pareceu que ia desaparecer para sempre no restaurante, Andrei, até então propenso a escapar de qualquer contato humano que o forçasse a revelar a sua situação, num ímpeto, decidiu aceitar qualquer coisa que lhe possibilitasse comer; como ela não desaparecesse, antes revelasse u.ma nova mulher no momento de erguer o braço para apontar o interior do estabelecimento, meses depois ele se lembrará desse braço como alguém provoca a lembrança de um evento feliz. Haverá então ali a modéstia e a sensualidade equilibradas de tal modo que essa harmonia não poderá ser senão proveniente da mão de Deus, como um perdão resgatador ainda que habitando essa mente cheia de sequelas. Até aquele momento não conseguia pensar além da fome, como satisfazê-la; as circunstancias periféricas a isso nao passavam de irrelevantes detalhes. Diante da mulher, passou a existir uma dimensão mais verdadeira de si mesmo, como se ela estivesse revelando ou permitindo que se manifestasse um outro ser, com outras necessidades.
Ela sentou e disse para ele pegar uma cadeira na mesa do senhor careca sentado junto à parede.
— Si vous plait je peux avoir la chaise ?
—Pardon?
— La chaise
— Oh! — o homem deu uma risada. De modo repugnante, pronunciou: —La “shèz”.
— Oui.
— Voulez-vous vous asseoir ici.
—Merci pour la chaise.
— Elle est beaucoup plus âgée que vous.
“Mas é mulher, muito mais bonita e inclusive mais jovem que o senhor”.