lundi 17 avril 2023

Piumhi, 1983

Veio o fim da safra e ele quis partir. No dia em que ia, segundos antes de pegar o ônibus que leva dos cafezais ao centro, ela apareceu na porta da edícula. Seus olhos molhados o acusavam, cheios de dor e altivez.    Tarde demais, caiu em si. O calhambeque da empresa mineira de transportes buzinava ao longe, buzinava, para trazer a morte revestida de saudade e vocação literária. Trazia um epílogo ao descer, pontual, a sinuosa encosta ladeada de ravinas, buzinando e buzinando. Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve? Por que o governo não proibiu o êxodo rural? O queixo dela adquire um contorno duro. A manhã tremeluz em seus lábios.Em suas olheiras habita a noite. Não poderia ter vindo antes e dete-lo? Amor pode ser apenas isso. Alguém que se antecipe ao erro contra o qual será o futuro implacável. Mas não, não quis. Preferiu puni-lo assim, segurando o vestido de popelina contra o peito. Enquanto ele viver, guardará aquela lembrança; enquanto viver, ela estará ali. Ele foi embora de Piumhi no final da panha de 1983, em setembro. Foi para o Rio de Janeiro. Um dia minha irmã apareceu lá por lá. Tinha ido fazer faculdade. Trabalhava num Curso de Idiomas. Era atendente. Um dia ele se matriculou no curso e ficaram juntos de novo. Então ele começou a trabalhar num jornal em São José dos Campos e passava os finais de semana no Rio. Um dia ela disse que ia para a Europa. Um aluno do Curso de Italiano pagara a passagem. Ofereceu a casa dos pais para que ela ficasse durante um semestre. Ela precisava descansar. Qualquer homem desconfia de um gesto desses, mas a mulher dirá que é sem segunda intenção. Andrei chegou na sexta para passar o fim de semana e ela contou. Estava com a viagem marcada. Minha irmã… Em 1987 ele pediu a conta e foi para Luanda, mas só soubemos mais de um ano depois, quando chegou sua primeira carta de Lisboa. 

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