mercredi 10 mai 2023

logrono. 1988

quando o carro parou um olhou para o outro. depois de alguns segundos ele destrancou a porta com um ruido quebrado em mil e ao sair o som do vento tinha sido dominado pela relva e ele entendeu um pouco mais acerca de sincronia e talvez ali soube que tudo estava sob controle sobretudo porque não era ele quem controlava. vê agora o quando a fachada da casa está como que puida e em slgum lugar da parede esfarela. e vê a lonjura de tres niveis em que a casa estava recortada. 

mardi 18 avril 2023

Madrid, 1988


 

 

O coração disparou. Ela sentou-se ao seu lado no vagão. Seus olhares tinham se cruzado denovo um pouco antes por sobre a aglomeração. Ao empurrar a porta de vidro da estação, ele se assustara com a própria magreza. Dois homens conversavam alto na fila.

— Yo te digo, cuando el balon viene de un jugador contrário no puede ser off-side.

— Naturalmente. Este árbitro es un retardado mental o es ciego.

— Eso o algo peor. ¡Oye, no me empujes!

— Perdoname senor, ha sido sin querer

— Ni sin querer ni nada! tenga más cuidado!

— No digas "Perdoname" - disse a moça logo atrás, rindo.    — Di "lo siento".

— Deja! — disse o homem do off-side. — el es un portugues, o peor; un brasileño!

— Brasileño? no eres bienvenido y si tienes tanta prisa corre a coger un taxi.


O vagão rangeu e um soco inclinou os passageiros. O braço macio o pressionava enquanto a mulher lia sem cerimônia as anotações em seu caderno. Ela se ajeitou como que para passar muito tempo ali sentada mas logo se levantou e parou o trem. As portas se abriram e ele a seguiu.

—Hablas espanol? — disse ela. 

— Apenas hablo

— Apenas hablas espanol?

— Apenas hablo. Hablo poco en cualquier idioma. 

— Las escaleras de la plaza de espanha me dan vertige      — disse a moça quando se aproximava da saida.

Não será imediatamente. Levará um tempo até que tenha consciência do quanto estava perdido e o quanto sem rumo. Do dano que uma mulher pode causar a um homem perdido e sem rumo que causa danos a si mesmo.




Tinham passado por um palco montado na Plaza Mayor para a festa de San Isidro. Numa ruela de pedestres, passaram por uma banca onde estavam expostos long-plays dentro de dois caixotes. O sol atravessava a Calle de San Martin.  Fumaça nas ruas, cheiro de cigarro. No burburinho distingue-se a ave-maria, num sax, um violão desafinado, um tilintar de copos e o arrulhar de pombas. Dizem que o verão deve ser mais quente do que o normal. Sobre o pedaço de trilho cortado e chumbado na calçada, a menina de tranças ria para o pai.  Madrid parece um lugar seguro para se morar. As varandinhas com guarda-corpo mais claro eram do apartamento para onde iam. 

Entraram no prédio.

Era o terceiro apartamento interno, à esquerda.  

A moça tinha simplificado a identificação: colocara seu nome em caligrafia grosseira numa fita na caixa de correio.

  "Soy yo", disse ela. Oleana. O velho elevador estava parado, embora os cabos balançassem. Não havia número na porta. Subiram, ele um degrau atrás. Ela girou a chave e abriu a porta no mesmo movimento; tocou o interruptor. 

— Esta es mi casa. This is my place. 

— Ahora me senti como si estuviera en una película subtitulada

—¿Una película erótica?

No pequeno hall, o lustre de imbuia redondo com quatro lâmpadas pairava no nível de suas cabeças. O tampo superior era de madeirite. O proprietário trocara por uma tampa de acrílico branco, o que aumentou a já excelente iluminação gerada pelos grandes espaços entre as ripas.  Havia três flores sobre a portinhola da caixa de eletricidade ao lado da qual estava a caixinha menor, da campainha. A porta rangeu ao ser aberta. Ela entrou e não se virou para fechar; ele o fez. Numa mesinha debaixo do lustre havia miniaturas de palhaços. 

No son payasos – disse ela. –Son mimes. Ricardo! 

–¿Tienes un hijo?

–Un gato.

–Nunca he visto gatos en películas eróticas

– No pareces alguien que haya visto alguna vez una película erótica. No necessitas.  

Ao lado da poltrona, uma pilha de jornais velhos. Portugal y España integrados en la CEE deben — Unser blev den sista föraren från något annat än NASCAR.


Nascera numa casinha de madeira em Linkoping. Seu pai era um medico formado pela LiU mas acabou montando  clínica em Madrid, onde se casou com a enfermeira que trabalhava para ele; divorciaram-se antes que se mudasse para Londres, onde vive agora com uma moça da idade de Oleana. Quando fez 21 anos, ela decidiu se mudar para a Espanha. Gosta dos espanhóis. Não se adapta a  lugares frios.

Havia tirado as sandálias. O dedo ao lado do dedão se projetava em relação aos outros. O esmalte vermelho descascava. A sola era grossa e no tornozelo havia a tatuagem de uma rosa cujo caule era um nome de homem. Não falaram durante o pouso de uma pomba no parapeito da janela; depois ela continuou. Deixara, é claro, amigos na Suécia; mas decidira ficar por causa do calor humano, dos valores que o conforto sufoca, na Escandinávia ou no Reino Unido. E isso, nem parece, fazia um tempo. Dois anos. Ele viu um biquíni a partir das marcas na roupa e esboçou um sorriso que ela devolveu.

Não havia nuvem no céu. O sol, que tinha nascido antes das oito, só iria se pôr depois das nove. Um apito insistente de betoneira rasgava o ar. A sombra de sua mão se define no mármore ao pousar o copo.

— Soy bibliotecaria pero nadie me conoce como bibliotecaria. Quizás porque no tengo anteojos ni el pelo recogido.

Ao lado do sofá havia duas poltronas; o telefone estava sobre a mesinha de mogno no centro da sala. Na parede à esquerda, no limite com o corredor, surgiu a curva escura de um abajur. Sobre uma  arca, também à esquerda, reluzindo ao sol que atravessava a sala desde a janela da cozinha, havia um peso de metal sobre um envelope pardo. As paredes são brancas, talvez gelo; concedem nitidez a seu perfil. Ele não fica sentado um minuto. Pisa sobre uma felpuda nave viking. Eram muitos móveis e pequenos os espaços para se deslocar. Oleana disse para ele ficar à vontade. Ela não ia demorar.   Abriu a porta do quarto e a encostou atrás de si. Ele assentiu com a cabeça e foi para a varanda. A mancha azulada ao longe se transformou no numero 18 sobre o parabrisas de um onibus. Das mesinhas na rua subiam risadas e súbitos gritos. É um bairro cosmopolita. Escuta-se todo tipo de idiomas: inglês e Francês sobretudo, mas também línguas nórdicas.  Após o espaço de uma praça, entre duas ruelas, apareceu o sol sobre as torres de uma igreja branca. São dez para as dez no relógio de um centro comercial. Se estivesse num hotel com Blandine, e não na casa de outra mulher, ou se essa varanda fosse a varanda da casa onde viverão após fugirem de Trieste, a posição dos ponteiros significaria que está atrasado para o trabalho e precisa, portanto, se apressar. Esta varanda, vista lá de baixo no final do dia, entre tantas e igual a todas, seria única. O que pode estar errado em uma esperança assim?

Agora ouve vizinhos exaltados, portas de armário e patas de um cão derrapando no andar de cima. Oleana levantou a voz, arrastando a primeira e a última sílaba sobre os demais sons; disse que, se ele quisesse ler, havia ótimos livros. Ele relanceou os olhos na direção da estante e ela continuou falando.


– Te gusta leer, me imagino. 

Ele se levantou e andou até a porta entreaberta. “Onde?”, começou a perguntar. 


Lá embaixo o sol atravessava a copa piramidal de um abeto. As folhas elípticas reluziam. Ele encostou a persiana; quando a claridade arrefeceu, sentiu-se à vontade. Atravessou a sala e se aproximou da porta do quarto. Oleana estava de frente para o armário; os braços se moviam entre os cabides. A luz da manhã à janela molhava sua pele e o assoalho a multiplicava. A cama é um ninho de cobertas. Há dois travesseiros junto à guarda e um do outro lado, como se alguém tivesse dormido atravessado, com uma das pernas para cima. Na cabeceira, “La recherche du temps perdu”, um maço de cigarros, um exemplar da Time e um exemplar da Life.  Um prato com a sobra de um bolo. Uma garrafinha plástica azul com água.  Uma bermuda de lycra amarfanhada.  Atrás, na parede, quadrados em quadrados, retângulos em retângulos e triângulos em quadrados, impressos no papel vinílico creme.  

Quando ela se curvava para pegar as sandálias, ele evitou olhar.  Sentada na cama colocou as meias. Era um par axadrezado que parecia de criança e não se harmonizava com sua cara muito adulta. Então se levantou contra a luz e, se estivesse vestida e a roupa fosse clara, teria nesse momento ficado transparente.  Suas mãos inquietas acompanhavam um ritmo a que ele não tinha acesso. Removeu o sutiã que acabara de colocar, vestiu a camiseta vermelha e, supostamente para consultar o céu, olhou por cima do ombro do homem como se ele não estivesse ali, como se fosse um móvel. Apanhou o jeans surgido do nada e o colocou, com alguma dificuldade.  Colocou as sandálias e se virou novamente de costas para ele.  Estava pronta. Quando ele se conscientizou de que ela estava novamente vestida, quis guardá-la na memória assim, quase recatada, como são guardados os autógrafos. 

Na sala, ela tornou a se curvar, abriu a bolsa que estava sobre a mesa de centro, retirou as chaves e entregou-as. Saíram para o hall. Depois que ela apertou o botão, ele passou a acompanhar o som enferrujado, como que tentando entender o mecanismo do velho elevador.   O eco das vozes que ouviam no vão era de um casal de meia idade. “Buenos dias!” disseram em uníssono assim que a grade abriu. Oleana sorriu para Andrei antes de entrar, falando com eles num castelhano mais rápido. Ele ainda não parecia entender que a mulher havia descido e agora estava sozinho no apartamento por pelo menos uma ou duas horas. 

Quando entrou de novo, ficou olhando a lâmpada da sala. O ar começou a faltar. Tentou nomear o objeto que olhava. Lustre. Lustre. Mas não pensava na palavra”lustre”, era outra coisa. A porta permanecia aberta e ouviam-se conversas em outros andares. Mediu o assoalho com um passo cauteloso. A betoneira silenciara. Fechou a porta; foi para o quarto. Na cabeceira apanhou a revista, apertou-a contra o peito e a seguir se deitou… 

 

 

 Bayonne, 1988

  

Subindo de Logrono está Estela, meia hora depois da concatedral de Santa María de la Redonda. A estrada em maio desprende ondas de calor que clareiam o azul junto à linha do equinócio. Um carro baixo e largo com três passageiros tende a ser estável mesmo num asfalto defeituoso: equilibrado nos desvios rápidos, neutro nas curvas mais fechadas. Quando a moto passa, percebe-se que o piloto ouviu o motor antes de fazer a mudança da marcha. 

—Me crié  con mis abuelos. Se los debo todo.

—¿Ellos hablan español?

—Normalmente hablan frances y vasco entre ellos.

A mulher dá a impressão que vai explodir a qualquer momento. Bate com o punho na porta e grita para o motorista:

— ¡Mira a bici!

Quando pararam, esperou que o motorista saísse do carro, virou-se para trás e disse:  

—Te arrepentirás, hijo de puta!

 


Madrid, l988


 

Há em Madrid uma feirinha de livros permanente a céu aberto.  No espaço de duzentos metros há não menos que trinta tendas, cada qual com centenas de títulos em seu catálogo.  Em abril, quando o calor ensaia voltar, voltam os usuários de verão, turistas e estudantes, atrás de livros baratos, usados ou esgotados em outras livrarias.  Em volta das casetas há carvalhos, álamos brancos e o típico madroño.  Uma das tendas é gerenciada por um argentino, homem forte e grisalho, olhos pretos, voz firme de quem sabe o que está falando.  Há quatro anos seu estande tem agua, luz e telefone; ele vai para casa perto da meia-noite unicamente para dormir. Volta no dia seguinte cedo.  

Naquela manhã, rapazes e moças com folhetos se aproximaram e quem estava feliz com a descoberta do lugar agora terá de escutar a velha conversa religiosa. Uma das moças olhou para o livreiro por cima do ombro de seu par de pregação. Disse, com um movimento labial:

 Está en ese  bar en la plaza. O homem virou o rosto e olhou e fez sinal de afirmativo. 




Por um momento, quando olhava sem ver os prédios da avenida, acreditou que a falta de ar fazia parte de um sofisticado processo de redenção.    

—¿Desea algo más? 

Olhou para cima com uma expressão estúpida. Contou mentalmente as pesetas. Dava para mais uma xícara. A garçonete com cara de poucos amigos anotava num bloquinho. Ao se levantar, disse ao proprietário impassível, com sinais, que ia usar o toilete.  Lá dentro sentiu-se bem.  Ouvia distante o burburinho, não mais perturbador. As frases, embora mais baixas, eram discerníveis como antes não eram. O cheiro de creolina perdeu a conotação negativa guardada na memória. Ao sair, tocado de leve pelo sol da vidraça, com a letra do nome do bar escrita na testa, esbarrou em uma mesa. Quando pagava, o homem fez uma piada racista, relacionando pesetas e cruzados. Andrei jogou as moedas no balcão e saiu. 


lundi 17 avril 2023

Rio de Janeiro, 1986



Era uma quinta-feira de setembro e a lua estava cheia. Era o aniversário de Andrei. Fiquei lembrando como ele trabalhava duro e como era bondoso! Dava o dinheiro todo para minha mãe! Puxava as cerejas com as grandes mãos cujas palmas não mais ficavam em carne viva embora fossem de certo modo carne viva. Com a dedicação com que qualquer monge faria, caso o café guardasse o significado da vida.  Só de lembrar me acalmo.  


Nessa época eu tinha fundado, com vizinhas e outras filhas de cafeicultores de Piumhi e Capitólio, e até duas irmãs de Altinópolis, uma associação de mulheres, para aprender tudo sobre cafeicultura e administração de propriedades rurais. Eu era responsável pela produção de setenta hectares. Orientava os colaboradores e ajudava com o trator, agora que Kleber ia assumir a fazenda do Espírito Santo; como pensava em fazer uma grande viagem pela Europa, queria ajudar a capacitar as mulheres da região, antes de ir.  Reuni os fornecedores e expliquei a situação, eu ia casar e me ausentar por um tempo; assim como eles aprenderam a me respeitar, como mulher e administradora, que fizessem o mesmo com as outras. Sempre ouvimos “quero falar com teu pai”, embora pudéssemos tomar a frente nas negociações.  Um levantamento da Embrapa apontou que mais de 40 mil estabelecimentos agrícolas com produção de café são dirigidos por mulheres, setenta por cento aqui na região. Nosso intuito era agregar valor nas fazendas. Eu acho que mulher tem um cuidado a mais que homem.  Temos de quebrar paradigmas todo santo dia, provar que podemos fazer tudo o que os homens fazem e até melhor. A mulher precisa se sentir valorizada dentro da cadeia do café. A associação visava dar oportunidade para produtoras, baristas, arrendadoras, ou simplesmente as que gostam da arte do café.  Tenho orgulho de que muitas só chegaram onde estão hoje, inclusive as responsáveis pelos setores administrativos das fazendas, graças à associação. As meninas eram muito acolhedoras, sempre uma ajudando a outra. Se a gente somar as dirigentes com as que estão em co-direção com seus parceiros, tem mais de 80 mil mulheres nos estabelecimentos produtores de café no País. Um café que tem alcançado pontuação no mercado. Eu estava muito animada, mas quando Andrei chegou dei uma bela duma distraída. Não me arrependo não. Fico mais calma ao me lembrar daquele tempo. 

  Ao reencontrá-lo hoje me lembrei de mim mesma com a palha do chapéu preso à cabeça pela fita vermelha quando fui levá-lo para ver o cafezal. O contorno dos montes do sul de Minas na linha do horizonte, o frescor azulado do inverno. Lembrava e pensava "encontrar alguém depois de anos, numa cidade desse tamanho, no mesmo dia em que se está pensando tanto na pessoa” ... e me via como num filme, a cesta que eu levava resvalando na parte externa de meus joelhos, desconforto de palha tornado simples sentir, como dores crônicas. Ele pegaria aquele mesmo caminho quando partiu, um ponto na estrada, menos que um ponto, um fio serpenteante de luz, um rio luminoso e calmo na distância.

Ele estava saindo do cinema e eu entrando na loja de ferragens do shopping. Não falamos. A gente só se olhava e ele se aproximou.  O que está fazendo aqui, pensei, mas mal conseguia pensar, havia um bloqueio entre consciência e pensamento. E assim, do nada, nos beijamos porque não havia nada mais a fazer exceto se a gente tivesse falado e não falamos, como se há três anos tivéssemos perdido a voz, como quem se desfaz deuma coisa  que não serve mais. Porém alguns dias depois abrimos as bocas e usamos as vozes, sobretudo um pouco antes de nos separarmos de novo. Então falamos, falamos montes de coisas. 

 

 


Piumhi, 1983

Veio o fim da safra e ele quis partir. No dia em que ia, segundos antes de pegar o ônibus que leva dos cafezais ao centro, ela apareceu na porta da edícula. Seus olhos molhados o acusavam, cheios de dor e altivez.    Tarde demais, caiu em si. O calhambeque da empresa mineira de transportes buzinava ao longe, buzinava, para trazer a morte revestida de saudade e vocação literária. Trazia um epílogo ao descer, pontual, a sinuosa encosta ladeada de ravinas, buzinando e buzinando. Por que não sofreu uma avaria? Por que não houve uma greve? Por que o governo não proibiu o êxodo rural? O queixo dela adquire um contorno duro. A manhã tremeluz em seus lábios.Em suas olheiras habita a noite. Não poderia ter vindo antes e dete-lo? Amor pode ser apenas isso. Alguém que se antecipe ao erro contra o qual será o futuro implacável. Mas não, não quis. Preferiu puni-lo assim, segurando o vestido de popelina contra o peito. Enquanto ele viver, guardará aquela lembrança; enquanto viver, ela estará ali. Ele foi embora de Piumhi no final da panha de 1983, em setembro. Foi para o Rio de Janeiro. Um dia minha irmã apareceu lá por lá. Tinha ido fazer faculdade. Trabalhava num Curso de Idiomas. Era atendente. Um dia ele se matriculou no curso e ficaram juntos de novo. Então ele começou a trabalhar num jornal em São José dos Campos e passava os finais de semana no Rio. Um dia ela disse que ia para a Europa. Um aluno do Curso de Italiano pagara a passagem. Ofereceu a casa dos pais para que ela ficasse durante um semestre. Ela precisava descansar. Qualquer homem desconfia de um gesto desses, mas a mulher dirá que é sem segunda intenção. Andrei chegou na sexta para passar o fim de semana e ela contou. Estava com a viagem marcada. Minha irmã… Em 1987 ele pediu a conta e foi para Luanda, mas só soubemos mais de um ano depois, quando chegou sua primeira carta de Lisboa. 

piuhi, 1983


Perto do fim da safra, de uma ótima safra, o futuro sogro chamou o namorado de Blandine para jantar na casa principal. O café alavancou o sul de Minas na direção da ferrovia, da modernidade urbana, do progresso. A própria fazenda é um retrato disso. É uma propriedade de 1860, uma beleza, não é? As principais lavouras eram o milho e a cana; muita gente plantava café para consumo da família, daí instalaram na fazenda do Capitão Jean Marques de Gruber, em Piumhi (a fazenda Donda Senhora das Serras), uma máquina a vapor para beneficiar o café.

— Se você vai se estabelecer aqui, precisa conhecer nossa história.

O casalzinho chegou pela ponte de pedra, em passos lentos, conversando baixinho. Talvez ela estivesse adiantando a história que seria contada à mesa. Seu bisavô havia chegado na região em meados do século 19. Acompanhava o tio Maxime, que tinha ido verificar a viabilidade de uma ferrovia. Já havia formações urbanas em torno das minas de ouro e diamante. Erigiam-se igrejas nesses lugares e então o comércio se desenvolvia. A agricultura e a pecuária se estendiam em Minas e desenvolvia-se a rede de abastecimento que desde o século anterior mantinha exportação interprovincial de tabaco, carne e queijo.

— Considerando que na conexão com a Corte são poucos os rios navegáveis, urge a construção da ferrovia — dissera Maxime ao sobrinho. O sobrinho passou então a assumir aquilo como uma missão de vida.

Após terem prestado contas, antes de voltarem para o Rio de Janeiro, o rapaz, então com 17 anos, maravilhado com a exuberância e a fertilidade das terras, decidiu ficar; quando comunicou isso, o tio concordou; mas, com a condição de que ele se casasse com a prima, Catarina Sonia Bruguer Almeida. O dote foi um lote de terras.

— As terras em que pisamos.

— As terras em que pisamos. Mas a Fazenda Donda Senhora das Serras era só um nome. Não tinha nenhuma construção.

— Então ele constrói a casa que vemos.

— Então construiu essa casa.

— Olá! — disse Donda Maria ao vê-los. — A janta está quase pronta!

Entraram.

A porta de entrada veio de Ubá, de uma igreja demolida. No hall, Donda Maria orientou-os para virar à direita. No lado esquerdo eram recebidos os mascates, os tropeiros, todo tipo de pessoas que vinha negociar, e muitas vezes precisavam pernoitar; como você acomodaria, no íntimo de seu lar, pessoas que não conhecia? Para isso havia alcovas, pequenas e sem janelas, bem aqui, onde hoje é a capela. Tem um altar do período barroco ladeado por dois candelabros italianos; no púlpito há um missal de 1789 e diante dele um genuflexório.

Acima de uma grande cômoda entre os acessos, havia um prato com motivos ferroviários, sobre o qual estava um espelho bisotado francês; na direção do lustre, do ponto de vista de quem entra para a parte nobre, repousa na parede uma tapeçaria de gobelin. Ao lado da janela, dois quadros da escola de Cuzco.

— Meu bisavô era um homem de família — disse o sr. Jean, sentando-se à cabeceira da mesa comprida — interessado no progresso de sua cidade. Não foi só um cafeicultor, pode se dizer que seu escritório era uma espécie de entreposto de factoring. Comprava café de várias fazendas e intermediava sua venda para a Europa.

— Ele viveu aqui dez anos com a vovó Cristina— disse Blandine.

— Tiveram oito filhos. Ela morreu quando ele tinha 50 anos. Menos de um ano depois, ele casou com uma moça 30 anos mais jovem e teve outros 9 antes de morrer, aos 80.

— A imagem no corredor é de Santo Isidro, o espanhol protetor das colheitas — disse a senhora Donda.

— Depois do jantar você vai conhecer a sala dos homens. Uma sala com confortáveis cadeiras dispostas em torno de uma mesa redonda onde ocorriam as negociações. Terminadas as refeições, os homens iam para lá, como ainda faço em jantares maiores, para falar de política, acender os charutos, antever as possibilidades de negócios, mascar o rapé. Vai ver o piano onde as damas, quando tinham acesso, nos deliciaram com suas performances

— A dona da pensão do Andrei não pôde vir, papai?

em Paris, quem diria, está em casa

As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma f...